Opositor russo envenenado sai do coma na Alemanha

Alexei Navalni já reage quando falam com ele, diz hospital; Kremlin nega ter dado veneno

Berlim | AFP e Reuters

O líder opositor russo Alexei Navalni, que de acordo com a Alemanha foi envenenado na Rússia, saiu do coma induzido e vai deixar de usar o respirador artificial "por etapas", anunciou nesta segunda-feira (7) o Hospital de la Charité em Berlim.

"Reage quando falam com ele", afirma um comunicado divulgado pelo hospital, onde Navalni, 44, é tratado desde 22 agosto.

O líder opositor russo Alexei Navalny discursa durante uma manifestação em Moscou, em foto de setembro do ano passado
O líder opositor russo Alexei Navalni discursa durante uma manifestação em Moscou, em foto de setembro do ano passado - Yuri Kadobnov - 29.set.2019/AFP

De acordo com o governo alemão, Navalni foi "inequivocamente" envenenado na Rússia com um agente nervoso do tipo Novichok, uma substância desenvolvida na época soviética com fins militares.

O governo alemão e outros países ocidentais acusam as autoridades russas e pedem explicações.

A tensão aumentou no domingo, quando a Alemanha apresentou à Rússia um ultimato de alguns dias para "explicar o ocorrido".

Nesta segunda, o Kremlin chamou de "absurdas" as acusações de que o governo russo teria envenenado Navalni.

"Todas as tentativas de associar a Rússia de alguma maneira com o que aconteceu são inaceitáveis para nós, são absurdas", afirmou o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.

Moscou critica Berlim por "adiar o processo de investigação" ao não transmitir os documentos do caso às autoridades russas.

Peskov disse esperar que Berlim proporcione todas as informações necessárias à Rússia "nos próximos dias". "Estamos esperando com impaciência", completou.

A chanceler alemã, Angela Merkel, afirmou nesta segunda-feira que não descarta consequências para o projeto de gasoduto Nord Stream 2, que deve fornecer gás russo para Alemanha e Europa, se Moscou não apresentar as respostas esperadas sobre o envenenamento.

"A chanceler considera que seria um erro descartar a possibilidade a princípio", respondeu o porta-voz da chefe de Governo, Steffen Seibert, ao ser questionado se Merkel tentaria evitar que o projeto de gasoduto fosse afetado em caso de sanções contra a Rússia.

No domingo, o ministro alemão das Relações Exteriores, Heiko Maas, também disse que "seria um erro excluir a priori" consequências para o Nord Stream 2.

Maas deu a Moscou um prazo de alguns dias para "ajudar a explicar" o que aconteceu com Navalni.

"Caso contrário, teremos que discutir uma resposta com nossos sócios europeus", advertiu Maas. A Alemanha preside atualmente o Conselho da União Europeia.

Ele disse que em caso de sanções, estas devem ser "seletivas" e mencionou em particular o possível bloqueio do Nord Stream 2.

Nesta segunda, o governo britânico convocou o embaixador da Rússia em Londres para transmitir sua "profunda preocupação pelo envenenamento", anunciou o chanceler Dominic Raab, cujo país vive uma crescente tensão diplomática com o Kremlin.

"É completamente inaceitável que tenham usado uma arma química proibida e a Rússia deve fazer uma investigação completa e transparente", escreveu Raab no Twitter.

O mesmo agente neurotóxico de concepção soviética foi utilizado em 2018 em território britânico para envenenar o ex-espião russo Serguei Skripal, que mudou de lado e mora na Inglaterra, e sua filha Yulia.

Depois de passar muito tempo hospitalizados, os dois conseguiram sobreviver ao ataque, que Londres atribui ao Kremlin. Moscou sempre negou envolvimento .

Chá em aeroporto

Os familiares do advogado afirmam que Navalni foi vítima de um “envenenamento intencional” na quinta-feira (20), com “algo misturado a seu chá” enquanto estava no aeroporto da cidade de Tomsk.

O ativista anticorrupção se sentiu muito mal a bordo de um avião que o transportava a Moscou e teve que fazer um pouso de emergência na Sibéria, onde foi hospitalizado.

Os médicos russos afirmaram que não detectaram “nenhum veneno” nem no sangue nem na urina de Navalni e disseram que a hipótese mais provável era a de um “desequilíbrio glicêmico” provocado por um baixo nível de açúcar no sangue.

Vestígios de uma substância química industrial, entretanto, foram encontrados nas roupas e nos dedos do opositor.

O ativista, cujas publicações sobre a corrupção das elites russas são muito visualizadas nas redes sociais, já foi vítima de ataques físicos. Em 2018, durante um protesto, foi atingido com uma substância tóxica verde que o deixou parcialmente cego de um olho por um tempo.

“O FBK [Fundo da Luta contra a Corrupção] continua seu trabalho”, afirmou no Twitter Ivan Jdanov, diretor da organização fundada por Navalni.

Vários adversários de autoridades russas foram envenenados nos últimos anos, na Rússia ou no exterior, como o ex-agente duplo Serguei Skripal, encontrado caído em um banco numa praça no Reino Unido em 2018 junto com a filha. As autoridades russas sempre negaram qualquer responsabilidade.

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