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Paul Auster: 'Com mais 4 anos sob Trump, EUA se tornarão um país autoritário'

Escritor americano considera reeleição de presidente dos EUA grave perigo para democracia

Gerardo Lissardy
Querétaro (México) | BBC News Mundo

O telefone toca uma vez, e o outro lado atende.

"Olá."

"Olá… Paul Auster?"

"Sim, olá."

Poderia ser o início de uma de suas obras, a porta de entrada para uma história que nos levará a uma situação extrema em Nova York, com perguntas sobre identidade ou azar.

O escritor americano Paul Auster discursa durante a Feira Internacional do Livro de Guadalajara, no México - Refugio Ruiz - 26.nov.2017/AFP

Mas quem fala aqui no diálogo é o verdadeiro Paul Auster, de sua casa em Park Slope, no Brooklyn, a mesma onde viveu os últimos 27 de seus 73 anos com sua mulher, a também escritora Siri Hustvedt.

É ali que Auster trabalha diariamente com caneta e máquina de escrever. Nada de computadores ou telefones celulares. "Eu sou um dinossauro."

Autor de obras publicadas em mais de 40 idiomas, como "A Trilogia de Nova York" e "A Invenção da Solidão", Auster se apressa a falar sobre temas muito atuais, como a pandemia do coronavírus ou a Presidência de Donald Trump, que considera um grave perigo para a democracia nos Estados Unidos.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista concedida à BBC News Mundo (serviço da BBC em espanhol) por um dos maiores escritores americanos vivos, que participou do Hay Festival em Querétaro (México), realizado de 2 a 7 de setembro.

Nova York é onipresente em seus livros. Como enxerga a cidade agora, e quanto ela mudou para o senhor depois que a pandemia a atingiu tão fortemente? Nova York passou por todo tipo de desastre em sua história: os distúrbios do recrutamento para a Guerra Civil, massacres, o 11 de Setembro… E também a pandemia de gripe de 1918.

Este é outro desses momentos terrivelmente difíceis para a cidade. Durante um tempo, Nova York foi o pior lugar do mundo em relação ao coronavírus. Mas lidamos bastante bem, eu diria, muito melhor do que outras partes do país. E pouco a pouco Nova York voltou a abrir, até um certo ponto.

O verdadeiro problema é o que aconteceu em todo o país. O verdadeiro problema é quem temos como presidente, além das pessoas de seu partido, em uma péssima política de enfrentar uma emergência nacional sem uma política nacional. Ele é indiferente à morte de mais de 180 mil pessoas até agora, e aos milhões de casos.

É uma desgraça. Estamos tão divididos e cheios de uma espécie de ódio uns dos outros neste país que parece partido ao meio: os que amam Trump e os que não amam. E com as eleições que se aproximam e tantas coisas instáveis e incertas, quem sabe o que vai acontecer? É isso que me preocupa, e nem tanto minha própria cidade.

O senhor diria que a pandemia e suas consequências foram mais perturbadoras para Nova York do que os ataques de 11 de Setembro? Definitivamente sim. Os ataques de 11 de Setembro foram um dia, e levamos semanas ou meses para nos recuperarmos. E ele não se repetiu. Mas, agora, se temos um 11 de Setembro acontecendo todos os dias, há algum problema. E é isso o que aconteceu aqui. No pico de abril morriam entre 700 e 900 pessoas por dia em Nova York. É muito. E os números divulgados sobre quem contraiu o vírus são muito menores do que a realidade.

O senhor ainda gosta de passear pela cidade? Eu não ando muito pela cidade. Estou velho agora, e não é uma boa ideia andar por aí. Então Siri e eu estivemos quase sempre em casa. Caminhamos pelo bairro, compramos comida, vou ao correio mandar cartas... Não fizemos quase nada. E não vimos ninguém, exceto nossa filha e seu marido. Não temos mais vida social.

Mas temos sorte. Em primeiro lugar, não temos emprego e, portanto, não o perdemos. Nosso trabalho é simplesmente escrever. E temos dinheiro suficiente para enfrentar este período. Portanto, com dezenas de milhões de pessoas sofrendo terrivelmente, eu não quero falar sobre mim, porque sou um dos sortudos.

Desde o começo da pandemia não pude deixar de pensar no azar, nos eventos aleatórios, nas coincidências, que são temas-chave de sua escrita. Mesmo se tomarmos todos os cuidados, podemos pegar o vírus apenas passando por alguém que espirra na tabacaria... Claro...

Não era isso que o senhor queria nos dizer: que vivemos em uma roleta que não controlamos? O que tentei dizer em muitas das coisas que escrevi é que tudo pode acontecer a qualquer pessoa, a qualquer momento. Uma vez que entendemos isso, isso nos prepara muito mais para enfrentar as adversidades e o inesperado que continuamente nos tomam de assalto. Existe algo na alma humana que deseja uma espécie de estabilidade e certeza. A maioria das pessoas se perde quando algo incomum acontece. E elas têm problemas para recuperar o equilíbrio.

Sim, esta é uma nova realidade, temos que lidar com isso. Mas se agirmos com inteligência e fizermos tudo o que devemos podemos superá-la. Só que existem tantas pessoas que rejeitam os fatos, mesmo se recusando a acreditar nas descobertas da ciência… Se você não acredita no que os cientistas dizem e acha que engolir alvejante o tornará melhor, ou todas as coisas malucas que Trump disse, então você tem um país maluco.

Metade do país não quer usar máscaras: eles acreditam que isso é uma violação de sua liberdade. Do quê? A liberdade de morrer? Eu não entendo o argumento... Vivemos em sociedade, todos dependemos uns dos outros. E que as pessoas possam ser tão egoístas e irracionais a ponto de imaginar que são imunes ao que acontece com as pessoas ao seu redor é parte de uma espécie de loucura política que tomou conta deste lugar. Quando as pessoas começam a acreditar nessas coisas, você não pode mais falar com elas porque estão além do poder da razão. Elas não vão te ouvir.

Os EUA atravessam diversas turbulências atualmente: pandemia, protestos raciais, queda econômica recorde e o governo de Trump. Isso muda o papel dos escritores na sociedade? Sim, é claro. De fato, Siri e eu estamos envolvidos com um grupo que acabamos de formar, de "escritores contra Trump". Nossa missão neste momento é tentar convencer os jovens que haviam decidido não votar a mudarem de ideia e votarem. Sinto que nossa principal obrigação é fazer tudo que for possível para garantir que Trump não seja reeleito. A próxima tarefa será o que acontecerá depois das eleições de 3 de novembro, quando haverá um atraso [na apuração] por causa de todos os votos pelo correio.

Passaremos por um período de um ou dois meses que ameaça ser mais caótico do que qualquer coisa que vimos na história dos Estados Unidos desde a Guerra Civil. Penso em dezenas de histórias diferentes acerca do que pode acontecer. Mas nada de bom vai acontecer nesse período. Trump, se for derrotado, enfrentará anos de visitas a tribunais por crimes que cometeu e pode acabar na prisão, não por crimes federais, mas no Estado de Nova York, por evasão fiscal ou fraude, por exemplo. Ele está desesperado para permanecer no poder e fará de tudo para conseguir isso.

O senhor acha que a democracia dos EUA está em perigo neste momento? Sim, com certeza. O que a administração republicana de Trump fez nesses quatro anos foi desmantelar o governo de maneira sistemática. As agências que supostamente fiscalizam o país foram destroçadas. Temos uma Agência de Proteção Ambiental que reverteu regulações, porque o governo agora fomenta a contaminação.

Temos uma secretária da Educação que não acredita em escolas públicas, uma secretária do Trabalho que vai contra os interesses dos trabalhadores, um Departamento de Estado que tem postos vagos ao redor do mundo, um Departamento de Justiça que se converteu em ferramenta de Trump e dos republicanos. Mais quatro anos disso e acredito que não sobrará nada. Absolutamente nada. E nos tornaremos um país autoritário, algo que acredito que ninguém poderia imaginar que seria possível quatro anos atrás. Mas estamos indo muito rápido nessa direção.

Por outro lado, alguns especialistas em ciência política e direito afirmam que as instituições democráticas, como o Congresso e o Poder Judiciário, continuam funcionando… Continuam funcionando, mas não muito bem. Quando Trump foi eleito há quatro anos, alguém da televisão britânica veio me perguntar: o que vai acontecer agora? Eu disse o que temia: desde o fim da Guerra Civil, quando os Estados Unidos se reconstruíram como um país mais ou menos unificado, os americanos tendem a acreditar na força de suas instituições.

Isso ficou tão arraigado em quem pensamos ser que passamos a acreditar nessas instituições tão sólidas quanto prédios de granito. Mas e se todos esses edifícios fossem feitos de sabão? E se Trump e seu novo governo colocassem suas mangueiras nesses prédios, o que aconteceria? Isso começaria a derreter, e você teria espuma escorrendo pelo esgoto das ruas de todo o país.

E isso é o que aconteceu. Eu diria que esses edifícios em quatro anos foram cortados quase pela metade. É uma conquista incrível destruir tanto, tão rápido. Mas mostra como isso pode acontecer rapidamente. Mais quatro anos disso e não sobrará nada. Eu falo sério. Quando há um Congresso dividido, pessoas que não são apenas de direita, mas loucas e cruéis, sem nenhum interesse em ajudar alguém além deles mesmos, teremos um governo autoritário. E caminhamos para isso.

Lamento ser tão apocalíptico, mas não posso deixar de falar quão dramático e perigoso é esse momento para nós. Nunca havia visto nada assim em minha vida.

O sr. poderia falar da sua relação com as redes sociais? São uma ferramenta para um escritor como o sr.? Ou as enxerga mais como parte do problema? Não tenho nada a ver com isso. Não tenho computador nem telefone celular. Estou offline. Eu não quero fazer parte disso. Aliás, ontem [23/8] foi a primeira participação no Instagram que tive na vida. Nessas circunstâncias, é a única maneira de transmitir a mensagem deste grupo de escritores contra Trump. Mas também não vou fazer isso pelo resto da minha vida. Sou um dinossauro, preciso confessar.

Sei que a internet fez coisas maravilhosas e tem muitas vantagens sobre as formas anteriores de comunicação. Mas também é perigosa. Tem sido extremamente prejudicial. E espalhou mentiras mais rapidamente do que qualquer outro meio na história do mundo. Não é regulamentada. E tem fortalecido lunáticos mentirosos.

O que o senhor está escrevendo? Estou concluindo um projeto enorme no qual trabalhei nos últimos três anos, que não é um romance. É algo novo. Um livro sobre a vida e a obra do escritor americano Stephen Crane. Seu livro mais famoso é "O Emblema Vermelho da Coragem". Crane viveu uma vida muito curta, de 1871 a 1900. Foi o primeiro escritor americano modernista, um grande escritor. E viveu uma vida bastante agitada e fascinante.

Ainda que tenha morrido aos 28 anos, escreveu mais de 3.000 páginas em trabalhos publicados: romances, contos, poemas, reportagens. Foi repórter em duas guerras, esteve em Cuba durante a guerra hispano-americana. Era um talento extraordinário.

O senhor é casado com uma romancista. Como é a vida diária de um casal de escritores? Por exemplo, se um de vocês está inspirado e não para de escrever, o outro se encarrega da cozinha? Não funciona assim porque passamos os dias escrevendo prosa. Então temos nossos projetos e horas de trabalho. Enquanto falamos, estou em um andar da casa, e Siri está escrevendo no andar de cima. Levantamo-nos cedo, cada um vai para seu cômodo e trabalha ao longo do dia. Então, por volta das 17h, começamos a fazer as coisas que os casais fazem.

É maravilhoso. Moramos juntos há quase 40 anos. E tem funcionado. Também tem sido a amizade mais maravilhosa, além de estarmos apaixonados um pelo outro. Você não tem ideia do quanto admiro a mente e o coração de Siri. Sua perspicácia literária é extraordinária.

Não deixo nada do que escrevo sair de casa sem que ela o revise com muito cuidado. Se passou por ela, então acho que posso colocá-lo no mundo. A mesma coisa acontece com ela. Eu leio tudo o que escreve, e nós discutimos. Somos os editores do trabalho um do outro. E isso foi extremamente valioso para nós dois.

O que mais o sr. tem lido? Escritores jovens ou somente clássicos? Tenho lido de tudo nesses dias. Por exemplo, Crane viveu na Inglaterra, e seu melhor amigo era Joseph Conrad. Especula-se que parte de "Lord Jim" se baseia em Crane. Voltei a ler esse livro e depois li mais quatro ou cinco livros de Conrad. Durante 40 anos prometi a Siri que leria "Middlemarch", de George Eliot, seu romance favorito. Já havia tentado lê-lo umas quatro vezes, mas nunca consegui passar da página 50. Bem, agora li inteiro, e é um livro muito bom.

Tenho lido diferentes autores: Katherine Anne Porter, uma escritora americana maravilhosa que eu não tinha lido antes. Dos mais jovens, acabei de ler um romance de uma norte-irlandesa, Anna Burns, chamado "Milkman", que achei muito, muito bom. No momento, estou relendo "O Homem Invisível", de Ralph Ellison. E muitas outras coisas.

Segundo suas memórias "Da Mão para a Boca", em sua família se dizia que o dinheiro "sempre tem a última palavra". Isso é válido para um escritor aclamado? Não, claro que não. Resisti a esse mundo onde cresci, de classe média onde o dinheiro era a medida de todas as coisas. Então cometi muitos erros ao longo do caminho. O problema com dinheiro é este: quando você não tem, e eu vivi muitos anos sem ter dinheiro, você só pensa nisso. Isso é o que envenena você. Você se preocupa desesperadamente em como vai pagar o aluguel, a luz, como vai colocar a comida na mesa, como vai comprar sabão... A pobreza é uma maldição terrível.

A única razão pela qual é bom ter dinheiro é que você não precisa pensar em dinheiro o tempo todo. Não somos ricos, mas temos o suficiente para viver da maneira que queremos, porque não temos desejos materiais, não queremos nada. Temos nossa casa, e é isso. Não temos carro, barco, casa de veraneio, não tiramos férias caras, não fazemos nada. Eu visto jeans todos os dias e duas ou três camisas. Não tenho quase nada no meu armário. Eu não me importo com roupas. Eu tenho um par de sapatos e outro par de sapatos sociais. Não quero nada. E acho que gastamos a maior parte do nosso dinheiro comprando comida e livros.

Dada a sua ligação com o cinema, como roteirista e codiretor de filmes como "Cortina de Fumaça" e "Sem Fôlego", qual foi o último filme que realmente o emocionou? Boa pergunta. Eu e Siri vemos muitos filmes. Outro dia minha filha e seu marido estiveram em nossa casa e conseguimos ver versões restauradas de filmes de Jean Vigo, cineasta francês dos anos 1930. Vimos dois deles. Um se chama "Zero de Conduta", sobre uma espécie de revolução estudantil contra a administração de um internato. É um filme brilhante.

O outro se chama "O Atalante", uma das histórias de amor mais belas e estranhas, sobre um homem que é capitão de uma embarcação que sobe e desce o rio Sena e os seus primeiros dias de casado. Vigo, tal qual Stephen Crane, morreu muito jovem, aos 29 anos. Vi novamente esses filmes e tenho que expressar meu grande amor por esses filmes comoventes e brilhantes.

O sr. já visitou alguns países da América Latina, como México e Argentina. Lembra de algo significativo dessas experiências? A paixão pela literatura na América Latina é muito maior do que na América do Norte, e só de estar nesses lugares já é emocionante. Vendo os leitores, quão ansiosos, animados e sofisticados eles são, o quanto a escrita é importante para eles. Nos Estados Unidos, escrever é uma atividade marginal para a cultura em geral. Acho que ninguém se importa mais, exceto as pessoas que leem. E há muitos leitores.

Mas escrever ou a literatura não fazem mais parte do debate nacional nos Estados Unidos. Sim, temos bons escritores e leitores. Mas você nunca vê um escritor na televisão. Você nunca vê um escritor escrevendo para um jornal. Nos EUA, gostam de falar de política com as estrelas de cinema, que são a nossa realeza: não temos reis ou rainhas, mas temos estrelas de cinema. Então, esses são os que farão mais barulho. Ou talvez estrelas pop. Mas não escritores. Os escritores são vistos com ceticismo porque os EUA têm uma longa e profunda tradição anti-intelectual.

E as pessoas suspeitam de gente como Siri e eu, somos de alguma forma estranhos. Por que fazemos isso? Por que você faria algo que não seja ganhar dinheiro? Então essa é a principal coisa sobre a América Latina para mim. Acho que estive mais de uma vez na Argentina e no México, e uma vez no Chile.

Para um escritor da sua idade, a quarentena é uma etapa normal da vida? Manter distanciamento social, ler, escrever em casa… É verdade. E esse é outro motivo pelo qual me considero muito sortudo, porque a pandemia não afetou tanto a minha vida quanto a de quase todas as pessoas. É uma vida normal, exceto que não temos vida social. Não saímos muito, mas algumas vezes é muito agradável comer com amigos, e não temos conseguido fazer isso.

Haverá um momento em que a vida se tornará necessariamente virtual? Não, não acredito nisso. Não se pode fazer bebês virtualmente. Não se morre, come-se ou dorme-se virtualmente. Então, acredito que a maior parte da atividade humana não é virtual.

A inesperada morte de seu pai foi um choque que lhe impulsionou a escrever sobre ele, que tinha 66 anos, sete a menos do que o senhor tem agora. Como contempla a possibilidade de morrer? A possibilidade de morrer está muito presente. Penso nisso o tempo todo. Sei que posso morrer logo depois de desligar o telefone, e não há nada que eu possa fazer a respeito. Mas certamente estou preparado… Acredito que estou preparado. Tenho 73 anos. Não é uma idade jovem. Tampouco terrivelmente avançada. Não tenho 95 anos, mas sou velho. Então qualquer coisa pode acontecer comigo, e eu me preparei para isso.

Por mais estranho que pareça, apesar de tudo que falamos, provavelmente sou mais feliz do que era quando era mais jovem. Não consigo explicar por quê. Mas acredito que passei a apreciar todas as pequenas coisas que significam muito para mim. Eu as saboreio agora de uma forma que não fazia no passado, pelo menos não a este ponto. Então, está tudo bem sobre envelhecer, exceto que você está velho.

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