Descrição de chapéu Financial Times

Populistas na América Latina têm popularidade recorde após minimizarem pandemia

Tanto Bolsonaro como AMLO adotaram discurso de que economia não pode parar

Michael Stott
Londres | Financial Times

Alguns meses atrás, enquanto os cemitérios brasileiros se enchiam de vítimas do coronavírus e o número de mortes no país subia para o segundo lugar no mundo, obituários políticos do presidente populista Jair Bolsonaro estavam sendo escritos.

Desde o primeiro momento, Bolsonaro apostou sua reputação na minimização dos riscos do vírus, defendendo que a vida deveria continuar como de costume. Ele descartou a Covid-19 como nada mais que uma “gripezinha” e mandou os brasileiros enfrentarem o vírus “como homens”.

Um ministro da Saúde foi demitido por contradizer o presidente; seu substituto durou menos de um mês no cargo antes de renunciar. O presidente ignorou orientações médicas, saudando multidões no auge da pandemia sem usar máscara, saindo à rua para comprar um cachorro-quente e chegando a ir de jet-ski a um barco para um churrasco.

“Qual grande país hoje enfrenta o pior caos político do mundo?”, questionou Ian Bremmer, presidente da consultoria Eurasia Group, em abril. “Qual chefe de Estado enfrenta as maiores dificuldades? Há bons argumentos para dizer que são o Brasil e seu presidente.” A revista científica The Lancet publicou um editorial em maio dizendo que Bolsonaro “precisa mudar de rumo drasticamente ou será o próximo a partir”.

Até 22 de setembro, mais de 137 mil brasileiros já haviam morrido devido ao coronavírus, uma cifra ultrapassada apenas pelos Estados Unidos.

No entanto, Bolsonaro desfruta de popularidade recorde. Pela primeira vez desde sua eleição, em 2018, mais brasileiros pensam que o líder de ultradireita está fazendo um trabalho bom ou excelente do que os que consideram que ele está se saindo mal, revelou pesquisa Datafolha no mês passado.

Bolsonaro não é o único líder populista que está se beneficiando por ter minimizado o coronavírus e ressaltado a necessidade de manter a economia funcionando. Algo semelhante está ocorrendo no México, onde o líder de esquerda Andrés Manuel López Obrador, conhecido popularmente como AMLO, também vem dando ênfase à economia, às vezes à expensa das orientações sanitárias.

Ele conserva sua popularidade, apesar de o país já registrar quase 74 mil mortes pelo coronavírus.

Ao mesmo tempo, vários países que impuseram "lockdowns" rígidos, em linha com as orientações internacionais, apresentam índices de letalidade mais altos, economias ainda mais enfraquecidas e uma reação política negativa.

Alguns acreditavam que a pandemia iria expor os líderes populistas, especialmente aqueles que preferem travar guerras culturais a se dedicar ao trabalho árduo da boa governança.

Políticos que vão do presidente americano, Donald Trump, ao primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, vêm sendo fortemente criticados pela percepção de não estarem suficientemente atentos aos detalhes da luta contra o vírus e por terem tentado reabrir suas economias precocemente.

Mas as experiências do Brasil e do México apontam para uma dinâmica diferente. Charles Robertson, economista chefe da Renaissance Capital, diz que os presidentes desses dois países identificaram uma ideia que vem se difundindo nos países em desenvolvimento: que "lockdowns" rígidos em estilo europeu ou asiático oriental não são viáveis e terão mais efeitos negativos do que positivos.

Em um primeiro momento, Robertson foi a favor das medidas de quarentena quando ela foram impostas em países em desenvolvimento, em março. “Mas o que foi ficando claro na América Latina ao longo de abril”, diz ele, “e depois, em países como Armênia, Paquistão e Gana, entre outros, é que os 'lockdowns' não parecem funcionar em países de baixa renda”.

Ele cita algumas poucas exceções entre nações com burocracias altamente eficientes, como o Vietnã.

Para Robertson, olhando em retrospectiva, é provável que os "lockdowns" impostos em mercados emergentes, especialmente na América Latina, provavelmente serão vistos como um erro.

Sanitaristas discordam. Não obstante os resultados fracos vistos até agora dos "lockdowns" rígidos na América Latina, eles insistem que essas medidas são a melhor maneira de evitar mortes desnecessárias e que a dificuldade principal advém de sua implementação deficiente.

“'Lockdowns' e distanciamento social são as únicas estratégias das quais dispomos para controlar a transmissão”, diz Jarbas Barbosa, diretor assistente da Organização Panamericana de Saúde. “O problema não é impor o 'lockdown'. É o oposto: é como efetivar os 'lockdowns' em países pobres.”

Alguns especialistas temem que a pandemia faça parte de uma mudança mais ampla na política regional. Após décadas em que os tecnocratas exerceram um papel importante, a região parece estar voltando para sua longa tradição de caudilhos e populistas.

“A política à moda antiga está voltando [na América Latina]”, diz Shannon K. O’Neill, vice-presidente do think tank Council on Foreign Relations, em Nova York. “Mas agora estamos lidando com um Estado muito mais fraco, mais fragmentação política e um tecido social roto. É muito mais difícil chegar a soluções reais ou conquistar progresso. Estamos nos encaminhando para outra década perdida.”

A economia menos pior

Em junho, falava-se muito nos círculos políticos de Brasília de um possível impeachment de Bolsonaro.

Agora, em vez disso, a discussão trata de como o presidente revigorado vai levar adiante sua pauta social conservadora de afrouxamento do controle de armas, concessão de incentivos fiscais a igrejas evangélicas e autorização do ensino domiciliar.

Oliver Stuenkel, professor da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, não é fã de Bolsonaro, mas diz que o que o presidente fez “funcionou bastante bem” em termos políticos. “Ele criou uma dicotomia baseada no 'lockdown' versus economia. Ou você estava a favor da economia ou você defendia o 'lockdown'. Ele sabia que em algum momento os brasileiros se preocupariam mais com a economia que com o 'lockdown'.”

Como outros analistas, Stuenkel nota que a popularidade de Bolsonaro deve muito a um programa governamental de auxílio emergencial aos mais pobres. Ao custo inicial de US$ 9,5 bilhões mensais, segundo a consultoria Teneo, isso é algo que as finanças enfraquecidas do Brasil terão dificuldade em sustentar. Bolsonaro também se beneficiou do fato de o SUS ser um dos sistemas de saúde pública mais fortes da região.

A aposta de Bolsonaro parece estar dando frutos. Reforçado pela generosidade do governo, o PIB brasileiro está previsto para encolher apenas 5,7% neste ano, segundo o Bank of America –a melhor performance de qualquer grande economia latino-americana. Em junho, o FMI havia previsto uma contração de 9,1% no Brasil em 2020.

Quando se trata da performance econômica deste ano na região, “o maior vencedor só pode ser o Brasil”, diz Marcos Casarín, economista chefe para a América Latina da Oxford Economics. “O Brasil é o país que sofreu menos economicamente e está se recuperando em menos tempo.”

Desviando a narrativa

A economia do México não está indo tão bem quanto a brasileira, isso porque o crescimento já havia estagnado antes da pandemia. Fato incomum para um populista de esquerda, López Obrador rejeitou a possibilidade de um pacote de estímulo econômico, insistindo que a resposta está na austeridade maior: em matéria de questões fiscais, o presidente mexicano é conservador.

O Bank of America prevê contração de 10% no PIB mexicano este ano.

Em termos de estilo, porém, a abordagem adotada por López Obrador tem algumas semelhanças com a de Bolsonaro. Depois de inicialmente ignorar as diretrizes sanitárias e percorrer o país para trocar apertos de mãos e beijar criancinhas, López Obrador reconheceu a existência da emergência da Covid com uma medida voluntária de permanência em casa a partir de 30 de março, afrouxando as restrições a partir de 18 de maio para permitir que a economia retomasse, ao mesmo tempo em que os casos do vírus continuavam a subir vertiginosamente.

Intensificando seu estilo de governo populista, López Obrador disse aos mexicanos que seus amuletos –incluindo um trevo de seis folhas— ajudariam a protegê-lo do vírus e que não precisava de policiais ou soldados para implementar a quarentena, porque o povo estava do seu lado.

Enquanto se acabavam os espaços nos cemitérios e filas se formavam em crematórios, o governo insistiu que a situação estava sob controle. Números divulgados recentemente sobre as mortes acima do normal sugerem que as cifras oficiais sejam uma subestimativa enorme e que o verdadeiro número de mortos por coronavírus no México esteja entre os mais altos do mundo.

“Os índices de aprovação de AMLO subiram muito, uma coisa que não faz sentido”, diz Monica de Bolle, membro sênior do Peterson Institute, em Washington. “Ele não fez nada. A situação está muito ruim. A corrupção é crescente. O presidente não reagiu bem à pandemia. Mas conseguiu desviar a narrativa da ideia de ele ter culpa no cartório.”

Enquanto os presidentes populistas do Brasil e do México minimizavam a pandemia, as outras grandes economias latino-americanas faziam o inverso.

Em meados de março, em rápida sucessão, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru anunciaram 'lockdowns' rígidos, fecharam suas fronteiras e decretaram emergências sanitárias.

Apesar das estratégias divergentes, os resultados de saúde vistos até agora na maioria dos países grandes da América Latina são quase igualmente fracos.

Dos 14 países do mundo com as piores contagens de mortes por Covid em relação ao tamanho de sua população, oito são latino-americanos, segundo dados da Universidade Johns Hopkins divulgados em meados de setembro.

O Peru foi elogiado no início da pandemia por fazer tudo corretamente. Seu 'lockdown' foi decretado rapidamente e implementado pelo Exército e a polícia. O pacote de gastos da ministra das Finanças María Antonieta Alva foi um dos maiores da região em proporção à economia e incluiu ajuda emergencial aos mais pobres.

Mas os resultados foram desastrosos. O Peru hoje tem o maior número de mortes por coronavírus em relação a seu número de habitantes, segundo a universidade Johns Hopkins, mais alto ainda que o do Brasil. Prejudicada pelo 'lockdown' intransigente, sua economia caiu 30,2% no segundo trimestre, a maior queda de qualquer grande economia. Quase metade da população urbana ficou sem trabalho.

Na semana passada o Congresso levou a ministra Alva a julgamento, acusando-a de má gestão da pandemia. “A ministra se dedicou a reativar a economia dos mesmos velhos grupos de poder da elite”, disse o deputado oposicionista José Vega, autor de uma moção de censura para afastar a ministra.

“Temos mais de 6 milhões de desempregados, e pequenas e médias empresas foram relegadas ao descaso.”

Insistindo que fez o melhor que pôde sob circunstâncias difíceis, Alva sobreviveu à moção de renúncia, por 76 votos contra 46. Mas o desafio político ao governo, que incluiu uma tentativa de afastar o presidente Martín Vizcarra por suposta corrupção, permanece.

Longe do triunfo de governos tecnocráticos pautados pela ciência, como previam alguns, a devastação gerada pela pandemia vem aprofundando a revolta de muitos dos cidadãos da região, que já tinham ido às ruas no ano passado para protestar contra a baixa qualidade e o alto custo dos serviços públicos e da concentração de poder nas mãos das elites arraigadas.

Na Colômbia, o terceiro país mais populoso da América Latina, a morte de um homem em 9 de setembro depois de a polícia disparar diversas vezes com arma de eletrochoque quando ele estava no chão mobilizou o sentimento de revolta reprimida contra o governo.

Milhares de pessoas saíram às ruas de Bogotá, ateando fogo a delegacias de polícia e saqueando estabelecimentos comerciais, numa onda de violência que fez 14 mortos e centenas de feridos.

“Essa onda de protesto social na América Latina hibernou [durante a pandemia] e agora está de volta”, previu Mauricio Cárdenas, ex-ministro financeiro da Colômbia e atual professor visitante da Universidade Columbia, em Nova York. “Haverá meses de muita turbulência pela frente.”

Assim como em outros países latino-americanos, adversários populistas vindos dos extremos políticos se apressaram a explorar a pandemia.

Na Colômbia, Gustavo Petro, ex-guerrilheiro de extrema esquerda e candidato forte na eleição presidencial de 2022, tuitou alguns meses atrás que o coronavírus “foi trazido ao país nos aviões dos ricos e então disseminado [no sistema de transporte público]”.

Mais recentemente, ele postou um estudo do Lancet, dizendo que o texto mostra que “a Colômbia está entre os três piores países do mundo em termos da resposta à epidemia”.

Analistas dizem que o presidente Iván Duque, conservador, está vulnerável. Assim como ocorreu no Peru, o 'lockdown' prolongado na Colômbia não conseguiu limitar a propagação do vírus, e o país assistiu a uma das altas mais rápidas de casos no mundo durante julho e agosto, ainda que a alta tenha diminuído recentemente.

Os problemas econômicos foram agravados pela ajuda limitada oferecida pelo governo aos setores mais vulneráveis da população.

No Chile, o presidente Sebastián Piñera, bilionário conservador formado em Harvard, está tendo dificuldade nas pesquisas depois de uma resposta à pandemia marcada por idas e vindas ter levado a prejuízos econômicos graves, além de alto número de mortes.

As perspectivas para a eleição presidencial de 2021 são incertas, mas pesquisas sugerem que dois prefeitos da região metropolitana de Santiago, o comunista Deniel Jadue e o direitista Joaquín Lavín, podem ser candidatos fortes.

Uma visão mais profunda?

Enquanto a elite tecnocrática latino-americana, em sua maioria educada nos EUA, tem dificuldade em responder à crise do coronavírus, a origem mais modesta dos populistas lhes facilitou a compreensão das necessidades e preocupações dos pobres.

O fato de Bolsonaro ter sido criado numa pequena cidade rural lhe permite passar a impressão de que entende a vida das pessoas comuns. López Obrador passou anos como organizador comunitário em algumas das áreas mais pobres e marginalizadas do México.

Christopher Sabatini, pesquisador sênior sobre a América Latina no instituto Chatham House, recorda-se de participar de eventos em Nova York em que “sucessivos presidentes [latino-americanos] faziam apresentações dizendo que estavam atendendo às necessidades da população, melhorando a posição de seus países nos rankings da facilidade de fazer negócios”.

Em contraste, diz ele, “Bolsonaro e López Obrador de algum modo mostraram captar melhor os sentimentos do povo”.

Bolsonaro se recuperou de sua própria infecção pelo coronavírus em julho e está vivendo uma volta por cima política. Uma pesquisa recente do site Poder360 indicou que ele está 14 pontos à frente do rival mais próximo, Lula, nas intenções de voto na próxima eleição presidencial, em 2022.

O paulistano Ricardo José de Abreu, 58, antes trabalhava com aplicativos de transporte como o Uber, mas parou quando a pandemia começou.

Em um primeiro momento, ficou confuso em relação à seriedade do vírus, mas então viu que ele afeta principalmente os idosos e pessoas com problemas de saúde preexistentes.

“Nesse momento comecei a concordar com o presidente, porque desde o começo ele quis isolar os idosos e deixar os jovens trabalhar”, diz Abreu.

“Não dá para parar de trabalhar. As pessoas vão adoecer pela falta de trabalho e comida. Por isso, entendi a atitude dele perfeitamente. Ele foi sábio. E acho que hoje está quase comprovado que ele tinha razão.”

Tradução de Clara Allain

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