Projeto de bem-estar animal provoca racha em coalizão governista na Polônia

Partidos menores votam contra texto de líder do Lei e Justiça, que pode antecipar eleições previstas para 2023

Bruxelas

A divergência sobre um projeto de bem-estar animal fraturou a coalizão partidária de direita que governa a Polônia, na noite desta quinta (17).

Capitaneado pelo ultraconservador ministro da Justiça, Zbigniew Ziobro, o partido Polônia Unida votou contra um projeto proposto pelo mais poderoso político do país, o ex-ministro Jaroslaw Kaczynski, líder do partido governista Lei e Justiça (PiS), conservador de direita.

A proposta de Kaczynski, conhecido por seu amor aos gatos (ele vive com três, e um quarto morreu recentemente), proíbe criar animais para a obtenção de pele e limita alguns tipos de abate.

homem idoso em frente a bandeira polonesa, vermelha e branca
O líder do PiS, Jaroslaw Kaczynski - Kacper Pempel - 13.out.2019/Reuters

Foi aprovada com apoio da oposição, mas o racha na coalizão Direita Unida pode levar a um governo de minoria ou à antecipação das eleições de 2023.

Ambas as situações ameaçam o poder do partido no sistema parlamentarista da Polônia. Sem a maioria dos assentos na Assembleia, o governo pode ser derrubado com uma moção de desconfiança, o que levaria a eleições antecipadas.

O PiS tem 197 dos 460 deputados e governava com os 19 do Polônia Unida, 18 do Acordo e 1 do Partido Republicano, em uma coalizão que agora é “praticamente inexistente", segundo o líder do partido governista no Parlamento, Ryszard Terlecki.

“Nossos ex-parceiros da coalizão devem limpar suas mesas”, disse a uma emissora de rádio o vice-líder, Marek Suski. O partido deve tomar uma decisão final na segunda (21).

A divergência sobre bem-estar animal é a ponta de um iceberg de disputas políticas que incluem a briga pela sucessão de Kaczynski como líder da direita polonesa.

Ziobro, o ultraconservador que foi expulso do PiS em 2011, entrou em rota de colizão com Kaczynski ao pressionar por políticas radicais, como retirar a Polônia da Convenção de Istambul sobre a prevenção da violência contra as mulheres.

Segundo analistas, o ministro da Justiça quer ser aceito de volta no PiS, para poder postular a liderança. O candidato favorito de Kaczynski, porém, é o atual primeiro-ministro, o moderado Mateusz Morawiecki.

três homens de camiseta amarela segurando bandeiras
Fazendeiros protestam contra projeto de bem-estar animal na Polônia - Janek Skarzynsky - 16.set.2020AFP

A situação piorou nesta semana, quando Kaczynski avançou na discussão de uma reforma ministerial que corta pela metade os cargos da Polônia Unida e do Acordo.

Deputados dos dois partidos defenderam o voto contra dizendo que o projeto prejudicaria fazendeiros, que são a base de sustentação da coalizão governista no interior do país.

Também votaram contra o projeto 17 deputados do PiS, que podem ser suspensos ou expulsos.

Segundo a imprensa polonesa, o país é o terceiro maior produtor mundial de peles, depois da China e da Dinamarca, e um dos maiores exportadores europeus de carne obtida por abates que seguem regras religiosas islâmicas (halal) ou judaicas (kosher), que serão limitadas pela lei.

A medida ainda precisa de aprovação do Senado, onde a coalizão governista já não era majoritária. O PiS tem 44 dos 100 senadores.

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