Sirenes da Guerra Fria vencem aplicativos modernos em teste na Alemanha

Dia de alarme acontece pela primeira vez desde 1991, e ensaio mostra fragilidade de celulares

São Paulo

No primeiro teste de alarme nacional na Alemanha desde o fim da Guerra Fria, em 1991, as veteranas sirenes deram um banho em modernos sistemas de alerta por meio de mensagens no celular.

"Eu só recebi o aviso no aplicativo meia hora depois que as sirenes pararam de tocar. Antigamente, um míssil soviético já teria me reduzido a cinza", brincou, por um aplicativo de mensagens comum e funcional, Detlef Zimmermann, que trabalha numa agência de turismo em Magdeburgo.

Aplicativo Katwarn mostra sinal do Dia de Alarme em celular, em frente a unidade de bombeiros
Aplicativo Katwarn mostra sinal do Dia de Alarme em celular, em frente a unidade de bombeiros - Kai Pfaffenbach/Reuters

Por sorte, a atual rusga diplomática entre Rússia e Alemanha, em torno do suposto envenenamento do opositor do Kremlin Alexei Navalni, não parece que será resolvida com algum dos ainda temíveis mísseis russos com capacidade nuclear.

Em todo o país, às 11h (6h em Brasília), as cerca de 15 mil sirenes remanescentes dispararam dois sons. Um, com dois tons, indicava alarme e necessidade de checar os celulares ou meios como TVs e rádios. Outro, contínuo, indicava o fim do teste, 20 minutos depois.

Ou deveriam ter disparado, porque mesmo elas não funcionaram em todos os lugares, a julgar pela quantidade de memes que desembarcaram nas redes sociais com alemães fazendo piada de seu sistema de proteção.

O BBK (sigla alemã para Escritório Federal de Proteção e Auxílio a Desastres) oferece um aplicativo gratutito chamado Nina que condensa esse tipo de informação, mas nunca o havia testado em escala nacional.

Enquanto as velhas sirenes assustaram pessoas mais velhas que não tinham tomado conhecimento do chamado Warntag (Dia de Alerta), o BBK informou no Twitter que houve atrasos em suas mensagens com alertas e orientações devido ao alto tráfego de dados.

No caso dos octogenários pais de Zimmermann, o filho correu para avisar-lhes que estava tudo bem. Eles sobreviveram como crianças aos bombardeiros aliados e, na Guerra Fria, uma sirene dessas indicaria um míssil americano voando em direção à cidade, que fazia parte da comunista Alemanha Oriental.

Durante as quatro décadas de embate entre os blocos liderados pelos Estados Unidos e pela União Soviética, as então duas Alemanhas eram a linha de frente para a temida Terceira Guerra Mundial. Não por acaso, em 1991, um ano depois da reunificação alemã e quando o império comunista acabou de ruir, havia 86 mil sirenes em todo o país.

Até hoje há resquícios desse tempo. A cerca de 300 km de Magdeburgo fica a região de Geisa, que era a ponta extrema do bloco soviético em território ocidental, e uma candidata certa à aniquilação nuclear. É possível visitar as torres de vigia do lado comunista e a base americana, lado a lado.

Segundo o BBK, os problemas desta quinta (10) serão estudados, mas o órgão admite que a velha tecnologia da Guerra Fria foi mais confiável. Canais de TV e estações de rádio também não respeitaram o pedido para interromper sua programação, segundo a rede de TV Deutsche Welle.

Há no país um outro aplicativo, o Katwarn, que alerta para desastres nacionais e também foi acionado nesta quinta. O Nina, em tempos normais, oferece informações de defesa civil focalizadas na localização do usuário, como enchentes ou acidentes.

O teste desta quinta não era específico para um ataque nuclear, embora essa seja sua função por assim dizer existencial. Atentados terroristas de larga escala, acidentes em usinas atômicas ou químicas e grandes tragédias climáticas também entram no alvo do sistema.

O BBK informou que, a partir desse primeiro teste, todos os anos haverá o Dia de Alerta na Alemanha, na segunda quinta-feira de setembro. Até lá, como diz ironicamente Zimmermann, é bom que Angela Merkel e Vladimir Putin se entendam.

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