Suíça aprova compra de novos caças com 0,1 ponto de maioria em referendo

País famoso pela neutralidade havia rejeitado negócio semelhante com o Gripen sueco em 2014

São Paulo

Com uma maioria de apenas 0,1 ponto percentual dos votos, a Suíça aprovou em referendo a renovação de sua frota de aviões de caça.

A consulta ocorreu no domingo (27). Votaram a favor do investimento de 6 bilhões de francos suíços (R$ 36,6 bilhões no câmbio desta segunda, 28) 1.605.700 eleitores —8.670 a mais do que aqueles que disseram não. Eram precisos 50% mais um voto para a aprovação, e a maioria ficou em 50,1%.

Dois caças F/A-18 Hornet da Força Aérea da Suíça em voo perto da base de Payerne
Dois caças F/A-18 Hornet da Força Aérea da Suíça em voo perto da base de Payerne - Denis Balibouse - 25.ago.2020/Reuters

Referendos e plebiscitos são tradicionais na democracia suíça desde 1848, ocorrendo com frequência.

Segundo o governo, 59,4% dos eleitores participaram dos referendos do domingo. Além de aprovar os caças e introduzir a licença-paternidade, eles rejeitaram a restrição de movimento entre a neutra Suíça e a União Europeia, o aumento de deduções de impostos sobre gastos com crianças e uma lei que previa abate preventivo de lobos.

A Suíça não se envolve em conflitos armados desde 1847 e mantém uma política estrita de neutralidade, estando fora de estruturas política e de defesa conjunta europeias. Grupos antimilitaristas são especialmente fortes no país.

O Conselho Federal, o Executivo que funciona com indicados por uma coalizão de partidos (hoje, 2 membros liberais, 2 de direita, 2 de centro-esquerda e 1 democrata-cristão), argumenta que isso não deveria afetar sua capacidade de defesa, contudo.

Se hoje não há ameaças concretas ao país, nada garante que isso não possa vir a acontecer no futuro, argumenta o governo. É uma situação diferente, de toda forma, da não-alinhada Suécia, que vê uma Rússia ameaçadora a seu lado.

Em 2014, o país aprovou a compra de 22 caças suecos Gripen por 3 bilhões de francos suíços (R$ 18,3 bilhões), mas no referendo sobre a decisão, 52% disseram não. O avião é o mesmo que o Brasil comprou da Suécia e cuja primeira unidade chegou ao país na semana passada.

As discussões recomeçaram, e desta vez o orçamento foi dobrado, assim como as pretensões: os novos candidatos são aparelhos bastante mais caros.

O plano é comprar entre 30 e 40 unidades. No páreo estão os americanos F/A-18 Super Hornet e o F-35, o europeu Eurofighter e o francês Rafale. Com exceção do F-35, um dos aviões mais modernos do mundo, os outros modelos em algum momento foram ofertados também ao Brasil.

A Suíça opera hoje 30 F/A-18 Hornet, modelo anterior ao Super Hornet, e 26 antigos F-5, que os brasileiros voam em uma versão modernizada. Os F-18 passaram por mudanças para tentar ficar no ar até 2030.

Mais crucial para um país pequeno, a Suíça não tem defesa aérea efetiva. Um plano em separado prevê 2 bilhões de francos suíços (R$ 12,2 bilhões) só para a compra de novos sistemas antiaéreos, mas ainda não há data para a avaliação da proposta.

Suas Forças Armadas têm 21,5 mil militares, numa população de 8,3 milhões. O gasto com defesa deu um salto a partir de 2018, chegando a 5,3 bilhões de francos suíços (R$ 32,3 bilhões) em 2019, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (Londres).

A ministra da Defesa do país, Viola Amherd, afirmou a repórteres que "a votação representa um investimento de longo prazo na segurança do povo e da infraestrutura da Suíça". Confrontada com o resultado apertado, disse: "Numa democracia, é dado que respeitamos a decisão da maioria".

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