Tensão militar entre Rússia e Otan escala em meio à crise da Belarus

Moscou se queixa de exercícios dos EUA na Estônia e intercepta aviões da aliança ocidental

São Paulo

A tensão militar no norte da Europa escalou nesta terça, com interceptações de aviões da Otan por caças russos e uma queixa formal de Moscou contra um exercício militar americano na Estônia.

O pano de fundo para o tom de confronto é a crise na Belarus, país aliado da Rússia cujo ditador, Aleksandr Lukachenko, acusou a aliança militar ocidental de interferir em seu país desde que passou a enfrentar protestos diários após uma eleição considerada fraudulenta, em 9 de agosto.

Fuzileiros navais russos desembarcam de um helicóptero Ka-27PS para exercício em Kaliningrado, no Báltico
Fuzileiros navais russos desembarcam de um helicóptero Ka-27PS para exercício em Kaliningrado, no Báltico - Vitali Nevar - 3.ago.2020/Reuters

Lukachenko colocou suas forças em alerta máximo e tem feito exercícios militares. Ele tem a promessa de ajuda do colega Vladimir Putin em caso de a situação recrudescer, e os russos passaram as primeiras semanas após o pleito fazendo manobras ostensivas em toda a região, para mostrar prontidão.

Um dos focos foi a região russa de Kaliningrado, entre a Polônia e a Lituânia, palco frequente de simulações de combate.

A Otan não ficou para trás. Há um sensível aumento nos relatos de interceptação russas em toda a área. Só nesta terça (1º), dois aviões de reconhecimento P-3 Orion da aliança foram interceptados.

No mar Báltico, um modelo alemão foi afastado da fronteira russa por um caça Su-27. Já no gélido mar de Barents, outro desses quadrimotores a hélice foi interceptado por um MiG-31 e escoltado para longe das águas russas.

A esses incidentes se somam diversos outros nas últimas duas semanas. Na sexta (28), um bombardeiro estratégico B-52 americano foi perseguido por um Su-27 russo que, segundo a Otan, violou o espaço aéreo da Dinamarca —o comando militar de Moscou nega.

A situação preocupa também países europeus que não fazem parte da Otan, como a Suécia, que aumentou o nível de seu alerta militar na semana passada devido às ações de russos e ocidentais no Báltico.

Corveta sueca é sobrevoada por dois caças Gripen durante patrulha na semana passada no Báltico
Corveta sueca é sobrevoada por dois caças Gripen durante patrulha na semana passada no Báltico - Antonia Stehlstedt - 25.ago.2020/AFP

Também nesta terça, a embaixada russa em Washington protestou contra o primeiro exercício dos EUA com munição real fora de uma base sua na Europa, justamente na Estônia, vizinha da Rússia e próxima da Belarus.

Os treinamentos começaram nesta manhã e vão até o dia 10, envolvendo forças estonianas e um batalhão de artilharia do Exército americano, usando lançadores múltiplos de foguetes. "Essas ações são provocativas e extremamente perigosas para a estabilidade regional", afirmou comunicado da embaixada.

"Qual sinal os membros da Otan querem nos enviar? Quem está de fato escalando as tensões na Europa? Como os americanos iriam reagir se nós estivéssemos dando tais tiros junto à fronteira dos Estados Unidos?", disse o texto.

A ação lá é simbólica também. Os Estados Bálticos, juntamente com a Polônia, têm medo existencial ante os russos. Os três primeiros eram parte da União Soviética até 1991, e Varsóvia era central para o sistema de satélites comunistas do Kremlin no Leste Europeu.

Desde 2017, três anos após Putin anexar a Crimeia da Ucrânia para garantir que o país, que acabara de derrubar um presidente pró-Moscou, não se unisse à Otan ou à União Europeia, a aliança militar ocidental reforçou sua presença no Báltico e na Polônia.

Além disso, conduz mais missões no mar Negro e exercícios com Kiev, embora a adesão à aliança não seja factível. A tensão permanece alta. Na sexta, dois caças Su-27 foram acusados de quase se chocar com um B-52 na região.

Em cada um dos quatro países há uma base multinacional comandada por um aliado. O patrulhamento aéreo de Estônia, Letônia e Lituânia, que não têm Aeronáutica, é feito pela Otan.

A Ucrânia, assim como a Belarus, serve de tampão entre as forças de Putin e as da Otan. Do ponto de vista geopolítico, o Kremlin não aceita sua absorção por estruturas ocidentais. No caso bielorrusso, ainda há o fato de que boa parte do escoamento de sua produção energética passa pelas terras da ditadura.

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