Trump tinha 'opiniões negativas sobre todos os negros', diz ex-advogado do republicano em livro

Ex-funcionário diz que o presidente conduzia suas empresas de forma semelhante à máfia

Maggie Haberman
The New York Times

O presidente Donald Trump usava insultos racistas rotineiramente ao aludir a líderes negros de outros países. Ele admirava incondicionalmente a disposição do presidente Vladimir Putin de tratar a Rússia como um negócio pessoal. E estava consumido de ódio pelo ex-presidente Barack Obama.

Essas são descrições que Michael Cohen, ex-advogado pessoal de Trump que se descreveu como faz-tudo do presidente, desfia em seu livro, “Disloyal: A Memoir” (desleal: uma nemória), que retrata o presidente como uma figura sórdida, quase mafiosa, disposta a lançar mão de táticas desleais contra qualquer pessoa que se opõe a ele.

Michael Cohen, ex-advogado pessoal de Donald Trump, antes de dar depoimento, em fevereiro de 2019 - Joshua Roberts/Reuters

“Trump habitualmente expressava uma opinião negativa sobre todas as pessoas negras, das áreas da música à cultura e política”, escreve Cohen no livro, a ser lançado na terça-feira (8). Segundo ele, Trump teria dito que Nelson Mandela, que liderou a emancipação da África do Sul do governo de minoria branca, “não foi líder coisa nenhuma”.

“Me mostre um único país comandado por uma pessoa negra que não seja uma merda”, Trump teria dito, segundo Cohen. O advogado também alega que Trump usou um epíteto homofóbico para xingar Kwame Jackson, participante negro do reality show “O Aprendiz”, então comandado por Trump, e que o presidente sentia aversão profunda por líderes, celebridades e atletas negros.

Trump também era obcecado por Obama, escreve Cohen. O livro relata que Trump teria contratado um "'Faux-Bama', ou falso Obama, para gravar um vídeo em que Trump ritualisticamente amesquinhava o primeiro presidente negro e então o demitia —uma espécie de realização de uma fantasia, algo que é difícil imaginar que qualquer adulto gastasse muito dinheiro para colocar em prática—, até que ele fez o equivalente funcional a isso no mundo real”.

O vídeo que Cohen descreve parece ser um que estava previsto para ser exibido na primeira noite da Convenção Nacional Republicana de 2012, quando Trump endossou o candidato presidencial indicado pelo partido, Mitt Romney, e insistiu em dispor de tempo na programação para se manifestar.

Entre as revelações de Cohen, que trabalhou para Trump por mais de uma década, estão descrições das negociações com um funcionário chave da Organização Trump durante a campanha presidencial de 2016 sobre como pagar uma atriz de filmes pornô que alegou ter tido um caso com Trump.

Cohen também explica com detalhes como o tabloide National Enquirer tornou-se uma arma operando em conjunto com Trump para prejudicar os adversários do empresário na primária republicana de 2016.

Perguntada sobre as muitas alegações feitas no livro, do qual o New York Times obteve uma cópia antecipada, a secretária de imprensa da Casa Branca, Kayleigh McEnany, fez pouco-caso.

“Michael Cohen é um criminoso que caiu em desgraça, um advogado que foi proibido de exercer a profissão e que mentiu ao Congresso”, ela disse em comunicado. “Ele perdeu qualquer credibilidade. Não nos surpreende ver sua tentativa mais recente de lucrar em cima de mentiras.” Uma porta-voz da Organização Trump não respondeu a um e-mail pedindo comentários.

Segundo o relato feito por Cohen, suas mentiras foram contadas em prol de Trump, quer fosse em investigações ou para tentar granjear manchetes positivas para Trump. Em 2018 Cohen se confessou culpado de alguns crimes financeiros e uma violação da legislação sobre finanças de campanha relacionada a pagamentos feitos à ex-atriz de filmes pornô Stephanie Clifford, conhecida pelo pseudônimo profissional de Stormy Daniels.

No livro, Cohen mantém uma atitude de desafio sobre essas ações, afirmando que é inocente de alguns dos crimes dos quais se confessou culpado e que foi vítima da “máquina de condenações” do governo americano, que também teria ameaçado sua esposa.

Ele escreve com detalhes sobre como foi libertado de uma prisão de segurança mínima em Otisville, em Nova York, para cumprir o restante de sua sentença em casa, mas foi reconduzido à prisão porque se recusou inicialmente a assinar um documento que o proibiria de publicar o livro. Um juiz decidiu mais tarde que a iniciativa do governo era retaliatória, e Cohen foi libertado para cumprir o restante de sua sentença em prisão domiciliar.

Ele lança pouca luz nova sobre o que compartilhou com Robert Mueller, o ex-promotor especial que investigou possíveis vínculos entre a campanha de Trump e autoridades russas, e afirma que a leniência de Trump em relação a Putin se deve principalmente a possíveis acordos de negócios e a uma admiração geral por figuras de poder autoritárias, além do ódio por Hillary Clinton que ambos compartilham.

Trump gosta de Putin por sua audácia “por assumir o controle de um país inteiro e administrá-lo como se fosse sua empresa pessoal —como a Organização Trump”, escreve Cohen.

A possibilidade de construir uma Torre Trump em Moscou atraía seu chefe fortemente, escreve Cohen, dizendo que os filhos do empresário não tinham opinião favorável sobre Felix Salter, criminoso e consultor com vínculos profundos com a Rússia que foi chamado para cuidar do projeto. Por isso, escreve Cohen, ele próprio passou a cuidar dele. O projeto tornou-se algo que foi investigado por Mueller.

Cohen descreve a Organização Trump como tendo semelhanças com a máfia, com Trump atuando como o chefão da família mafiosa.

“Como venho dizendo desde o começo, Trump era um mafioso puro e simples”, Cohen escreve quando relata como ajudou a coordenar uma entrevista pouco contestadora feita por Megyn Kelly, então da Fox News, com Trump, depois de o candidato ter passado dias atacando Kelly e criando um risco de segurança para ela.

Tradução de Clara Allain

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