Descrição de chapéu China

Apesar de apoiar Lukachenko, China será pragmática na crise da Belarus, dizem pesquisadores

Pequim fez investimentos milionários no país e tem interesse em sua localização estratégica

Belo Horizonte

A cena tem ares kitsch: Nikolai Lukachenko, o filho preferido e mais novo do ditador Aleksandr Lukachenko, toca uma tradicional música popular chinesa em um piano de cauda acompanhado por uma jovem cantora, que gesticula olhando para o horizonte.

Ao fim da canção, o jovem Kolya, como é conhecido, deseja "aos respeitados tio Xi Jinping e tia Peng Liyuan" um feliz Festival de Primavera. Em mandarim.

O vídeo, publicado em 2018 pela CGTN, uma emissora controlada por Pequim, faz parte de uma mensagem oficial de Minsk de desejos de feliz Ano Novo chinês.

A gravação é um exemplo dos esforços de Lukachenko para se aproximar do país asiático, a quem ele recorreu nos últimos anos para conter a influência russa e garantir os investimentos estrangeiros muito necessários a uma economia que ainda segue moldes soviéticos.

A China foi o primeiro país a reconhecer a vitória de Lukachenko nas eleições de 9 de agosto. "A cooperação com a Belarus é muito importante para mim. Eu valorizo nossas boas relações de trabalho e minha amizade pessoal com você", escreveu Xi Jinping ao bielorrusso no dia seguinte ao pleito, antes mesmo da divulgação dos resultados oficiais, o que ocorreria só no dia 14.

A atual crise política, no entanto, pode levar o ditador de volta à estaca zero.

O interesse chinês na relação bilateral está ligado à capacidade da Belarus de servir como porta de entrada para o mercado europeu, afirma Arseny Sivitsky, diretor do Centro de Estudos Estratégicos e de Política Externa, baseado em Minsk.

Mas, conforme a União Europeia impõe sanções, essa opção perde viabilidade. O bloco anunciou medidas contra membros do governo de Lukachenko na sexta (2).

Bruxelas não reconhece a vitória de Lukachenko na eleição presidencial do início de agosto e exige que o regime liberte todos os detidos por motivos políticos antes e depois do pleito.

"Quanto mais a crise política bielorrussa se agravar, mais atenção a China dará à Ucrânia", afirma Sivitsky. Segundo o pesquisador, Kiev era a primeira opção de Pequim para sediar a ligação Ásia-Europa da iniciativa One Belt, One Road (um cinturão, uma rota), não a Belarus.

Os planos da China mudaram depois que a assinatura do acordo comercial entre a Ucrânia e a União Europeia foi frustrada, em 2013, afirma ele. O episódio gerou os protestos conhecidos como Euromaidan que, mais tarde, levariam a Rússia a invadir a península da Crimeia —Pequim não reconhece a anexação russa.

A partir daquele ano, os chineses passaram a se concentrar na Belarus, e o fortalecimento das relações levou a uma visita de Xi Jinping, em 2015, quando os dois lados assinaram uma série de acordos comerciais.

O principal investimento da China é o parque industrial Great Stone, um projeto de mais de US$ 2 bilhões (R$ 10,8 bilhões) que foi descrito por Xi como a pérola da rota terrestre da One Belt, One Road —a Belarus foi incluída no megaprograma chinês e sediará o trecho que ligará Moscou a Varsóvia.

Embora o complexo, que fica a 25 km de Minsk, ofereça isenções fiscais e alfandegárias e uma vasta infraestrutura para grandes empresas, ele vem se transformando em um elefante branco.

Segundo Olga Kulai, pesquisadora especialista em China no think tank Minsk Dialogue, das 62 empresas residentes (que incluem gigantes como Huawei e ZTE), cerca de 10 realmente operam no parque. As demais apenas se registraram ou não utilizam a infraestrutura do local.

Se outro governo assumisse, Pequim tomaria seu tempo para observar a atuação do novo líder e, se julgasse necessário, elaboraria uma nova estratégia de cooperação, afirma ela, que considera improvável um afastamento entre os dois países.

"Há muito em jogo. Além de Great Stone, há vários grandes projetos nos quais os investimentos já foram feitos, e muitos outros ainda estão em curso", diz.

Do lado bielorrusso, é improvável que um governo de oposição decida se afastar da China, afirma Tomasz Kamusella, professor de história moderna da Universidade St. Andrews, na Escócia. Para o pesquisador, interesses práticos, como as vantagens econômicas que a parceria fornece, falarão mais alto.

Ainda assim, o melhor cenário para Pequim seria a permanência de Lukachenko no poder, afirma ele. "A China quer um regime que se submeta às suas vontades, e fica mais confortável lidando com ditadores."

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