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Ataques de extremistas fazem TV holandesa esconder logotipo de canal em veículos

Editor afirma em site de emissora estatal que insultos, ameaças e bloqueios impossibilitavam cobertura jornalística

Bruxelas

Ataques de extremistas de direita levaram a emissora de TV estatal da Holanda, NOS, a remover o logotipo do canal de seus veículos. “Quase todos os dias os jornalistas são confrontados com o dedo médio levantado e xingamentos verbais”, afirma a empresa em seu site.

Veículos são bloqueados, e extremistas arremessam lixo, socam a lataria ou urinam nas laterais, segundo a emissora. O editor da NOS, Marcel Gelauff, escreveu que já era preciso mandar seguranças com os repórteres em eventos públicos, mas a situação piorou rapidamente.

“Estamos sendo atacados por pessoas e grupos que querem apenas ver seu próprio mundo refletido na mídia. Tentam impedir todas as outras perspectivas e afetam a liberdade de imprensa. É uma derrota para o jornalismo.”

O líder do partido populista de direita Fórum para a Democracia, Thierry Baudet, na Câmara dos Representantes, em Haia
O líder do partido populista de direita Fórum para a Democracia, Thierry Baudet, na Câmara dos Representantes, em Haia - Bart Maat - 13.out.20/ANP/AFP

Segundo Gelauff, no início as intimidações foram consideradas episódios isolados, mas agora acontecem “de maneira estrutural”: "Um limite foi atingido". Ele ainda citou as mais de cem denúncias de agressão recebidas pelo PersVeilig, entidade de proteção a jornalistas, em um ano.

Embora na Holanda partidos de extrema direita sejam menos populares que na Itália, na França ou na Espanha, o discurso de agremiações como o populista FvD (Fórum para a Democracia) e o nacionalista PVV (Partido para a Liberdade) estimula a violência, na opinião de analistas e entidades.

Para o Sindicato de Jornalistas da Holanda, declarações constantes de políticos que acusam a mídia de mentir e de persegui-los contribuem para as agressões. O líder do FvD, Thierry Baudet, rejeitou a hipótese.

“Se há uma conexão entre as ameaças a jornalistas e meus comentários anteriores sobre a desconfiança da imprensa, acho isso terrível, absurdo e abjeto”, declarou.

Já o coordenador nacional holandês para o combate ao terrorismo e segurança, Pieter-Jaap Aalbersberg, vê uma “tendência radical extremista” no país, que tem jornalistas, políticos e policiais como alvos.

Para Aalbersberg, teorias da conspiração e desinformação têm reforçado convicções e acirrado atitudes dos que não confiam no governo, na ciência e na mídia tradicional.

O relatório mais recente da agência antiextremista mostra que repórteres são as principais vítimas de ameaças e agressões graves, partindo de grupos de agricultores extremistas e de ativistas do Virus Madness, grupo que nega a pandemia de coronavírus.

A onda de agressão a jornalistas não é exclusividade da Holanda e vem crescendo, mostram relatórios e casos em vários países europeus. O Centro Europeu para a Liberdade de Imprensa e Mídia (ECPMF) detectou já em 2019 um aumento na violência contra jornalistas na Alemanha.

Segundo a entidade, a maioria dos ataques ocorre na região da antiga Alemanha Oriental, e a maior parte da violência veio de agressores de direita. No ano passado, repórter e fotógrafo foram espancados e chutados na Itália por membros do movimento neofascista Avanguardia Nazionale e do partido de extrema direita Forza Nuova enquanto cobriam um evento antifascista.

Os agressores levaram telefone e carteira do repórter, dizendo que precisavam dos itens "para identificá-lo". Naquele ano, cerca de 200 jornalistas estavam sob algum tipo de proteção policial no país, segundo o governo italiano.

Na Áustria, o partido de extrema direita FPÖ (Partido da Liberdade), que chegou a integrar a coalizão governista de 2017 a 2019, atacou em público a emissora estatal de TV ORF, acusando-a de manipular e distorcer entrevistas.

Segundo a chefe do escritório da ONG Repórteres sem Fronteiras na União Europeia, Pauline Adès-Mével, “jornalistas são atacados deliberadamente pelo FPÖ a fim de intimidá-los e minar meios de comunicação inteiros”.

Em janeiro deste ano, a OSCE, organização para a segurança europeia, condenou o ataque na Grécia a um jornalista que cobria manifestação de extremistas de direita do Amanhecer Dourado, partido neonazista condenado neste mês pela Justiça grega.

“A segurança dos jornalistas deve ser garantida em todos os momentos, principalmente durante a cobertura de manifestações”, reagiu a OSCE, dizendo que governos precisam “acabar com a impunidade dos crimes cometidos contra jornalistas”.

A Federação Internacional de Jornalistas também aponta uma lacuna na legislação internacional, que não reconhece os riscos específicos associados à profissão jornalística. As entidades defendem um órgão judicial independente internacional com o mandato de proteger jornalistas, o que aumentaria as chances de vítimas receberem reparação e poderia pressionar países a adotar regras semelhantes.

Ainda neste ano, foram xingados e espancados repórteres que cobriam protestos antigovernamentais do partido Vox, na Espanha, e em junho manifestações de extrema direita no Reino Unido também acabaram com jornalistas no hospital e equipamentos quebrados.

Veículos regionais de várias cidades britânicas relataram ameaças de extremistas de direita contra repórteres que cobriram protestos antirracistas do Black Lives Matter, com ataques físicos e pela internet.

Desde o começo deste ano, o Conselho da Europa, entidade de direitos humanos, registra 54 alertas de ataques contra jornalistas em 22 países europeus. Só dois deles já são considerados casos resolvidos.

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