Baixo índice de crimes violentos deixa Maine fora do radar do discurso de 'lei e ordem'

Trump e Biden concordam em discordar sobre estratégias para conter criminalidade

Bauru

Cinquenta dias antes da eleição americana, a Folha começou a publicar a série de reportagens “50 estados, 50 problemas”, que se debruça sobre questões estruturais dos EUA e presentes na campanha eleitoral que decidirá se Donald Trump continua na Casa Branca ou se entrega a Presidência a Joe Biden.

Até 3 de novembro, dia da votação, os 50 estados do país serão o ponto de partida para analisar com que problemas o próximo —ou o mesmo— líder americano terá de lidar.

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Com uma taxa de criminalidade muito abaixo da média nacional, o Maine parece ser um dos poucos estados em que os discursos dos dois principais candidatos à Presidência dos EUA sobre o combate à violência no país não encontram muita repercussão entre os eleitores.

De acordo com os números do FBI, a polícia federal americana, o Maine é o estado com menor índice de crimes violentos —entram nessa categoria assassinatos, estupros, roubos e agressões agravadas.
São 115,2 registros a cada 100 mil habitantes, enquanto a média no país é de 379,4.

Área interditada pela polícia após tiroteio em Portland, no Oregon
Área interditada pela polícia após tiroteio em Portland, no Oregon - Nathan Howard - 27.ago.20/Getty Images/AFP

Em todo o ano de 2019, houve um total de 20 assassinatos no Maine, número que deixa o estado também com a menor taxa de homicídios (1,5 a cada 100 mil pessoas).

Para comparação, o Distrito de Columbia, que sedia a capital americana e tem os piores índices nessa categoria, tem taxa de homicídios quase 15 vezes maior (23,5). No total de crimes violentos, são 1.049 casos a cada 100 mil habitantes —quase dez vezes o índice do Maine.

Na disputa pela Casa Branca, Donald Trump e Joe Biden adotam discursos diferentes sobre como lidar com a violência nos EUA, mas têm em comum a estratégia de tentar invalidar as posições um do outro.

"Talvez ele ache que pronunciar as palavras 'lei e ordem' o faça mais forte. Alguém acredita que haverá menos violência se Donald Trump for reeleito? Vocês realmente se sentem mais seguros sob Trump?", questionou Biden, em agosto, durante um evento de campanha em Pittsburgh, na Pensilvânia.

O republicano, por sua vez, tem reforçado o discurso de que, se Biden e os democratas estiverem no poder, os EUA devem mergulhar em episódios crescentes de violência.

"Por décadas, os políticos que comandam muitas das principais cidades de nosso país colocaram os interesses dos criminosos acima dos direitos dos cidadãos cumpridores da lei", disse o presidente, em um discurso na Casa Branca, em julho.

"Esses mesmos políticos agora abraçaram o movimento de extrema esquerda para quebrar nossos departamentos de polícia, causando uma espiral de crimes violentos em suas cidades —e quero dizer uma espiral seriamente fora de controle."

Na ocasião, Trump anunciava o envio de tropas federais a cidades que eram palco de protestos contra o racismo e a violência policial desde o assassinato de George Floyd, no final de maio. Mas o presidente deixou claro, entretanto, que a estratégia de seu governo para combater a criminalidade é a força.

"Jamais vamos cortar o financiamento da polícia. Contrataremos mais ótimos policiais. Queremos tornar a aplicação da lei mais forte, não mais fraca." Em uma rede social, o republicano chegou a afirmar que "a única maneira de acabar com a violência nas cidades geridas pelos democratas é por meio da força".

​A campanha de Biden, por sua vez, parece focar mudanças no longo prazo. Em vez de aumentar a repressão à criminalidade, o democrata propõe formas de tentar preveni-la com investimentos em programas de educação, assistência social e redução do acesso a armas.

Pesquisas indicam que o discurso de Biden está sendo um pouco mais bem acolhido pelos eleitores.

Segundo levantamento do Pew Research Center, 49% dos americanos afirmam acreditar na efetividade do democrata para lidar com questões de aplicação da lei e de justiça criminal. O índice de confiança em Trump nesse aspecto é de 45%.

O instituto entrevistou 11.929 americanos entre os dias 30 de setembro e 5 de outubro. A margem de erro da pesquisa é de 1,5%.

50 ESTADOS, 50 PROBLEMAS

  1. Minnesota

    Morte de George Floyd em Minnesota escancarou outra vez racismo sistêmico americano

  2. Texas

    Divisa do Texas se tornou ícone da cruzada de Trump contra imigrantes

  3. Indiana

    Rusga com China põe estados rurais como Indiana na linha de tiro da guerra comercial

  4. Missouri

    Caso no Missouri ajudou a pavimentar decisão da Suprema Corte que protege comunidade LGBT

  5. Califórnia

    Califórnia, de moradores de rua e aluguéis caríssimos, espelha problema da habitação nos EUA

  6. Idaho

    Superlotação em prisões de Idaho expõe encarceramento em massa nos EUA

  7. Arizona

    Arizona põe à prova discurso de Trump de destruição dos subúrbios americanos

  8. Colorado

    Legalização federal é pedra no sapato de empresários da maconha no Colorado

  9. Arkansas

    Solidamente republicana, Arkansas facilita venda de armas

  10. Alasca

    Chance de explorar petróleo em reserva ambiental no Alasca opõe modelos de desenvolvimento

  11. Nova York

    Nova York procura saída para déficit bilionário agravado pela pandemia de coronavírus

  12. Flórida

    Flórida se tornou laboratório da postura errática de Trump diante da pandemia

  13. Carolina do Sul

    Briga na Carolina do Sul por estátua de Pantera Negra evidencia onda contra símbolos confederados

  14. Nevada

    Com dados alarmantes, Nevada retrata epidemia da violência doméstica nos EUA

  15. Alabama

    No top 5 de tiroteios em escolas, Alabama alimenta estatística que assombra EUA

  16. Dakota do Norte

    Na Dakota do Norte, indígenas enfrentam pobreza e oleoduto apoiado por Trump

  17. Maryland

    Disputa entre público e privado em Maryland é retrato da educação nos EUA

  18. Havaí

    Relação conturbada dos EUA com Coreia do Norte espalha medo no Havaí

  19. Wisconsin

    Sombra da judicialização paira sobre disputas acirradas em estados como Wisconsin

  20. Virgínia

    Passeata na Virgínia em 2017 deu visibilidade para extremistas da alt-right

  21. Kansas

    Kansas quer levar supressão do voto, trincheira dos direitos civis nos EUA, à Suprema Corte

  22. Carolina do Norte

    Com programa inovador, Carolina do Norte enfrenta problema crônico de acesso à saúde

  23. Oklahoma

    Biden visa aumento salarial a professores e mira demanda de grevistas em Oklahoma

  24. Wyoming

    Wyoming espelha diferenças salariais entre homens e mulheres nos EUA

  25. Iowa

    Confusão nas prévias em Iowa reaviva discussões sobre reforma no sistema eleitoral

  26. Nova Jersey

    Governador de Nova Jersey vive rebote de fake news que tomaram EUA desde 2016

  27. Louisiana

    Louisiana espelha tentativas de estados conservadores de cercear o aborto

  28. Ohio

    Às voltas agora com fentanil, Ohio vê nova alta de mortes por opioides

  29. Delaware

    Berço político de Biden, Delaware é paraíso da evasão de impostos nos EUA

  30. New Hampshire

    New Hampshire vira palco de disputa entre religiosos e defensores do Estado laico

  31. Nebraska

    Taxar bilionários, como o 'oráculo de Nebraska', vira tema de campanha

  32. Utah

    Com 1 caso de fraude em voto por correio desde 2013, Utah derruba tese de Trump

  33. Rhode Island

    Vírus leva desemprego a montanha-russa, e estados como Rhode Island pagam a conta

  34. Massachusetts

    Sonho de universidade de ponta em Massachusetts vira pesadelo de dívida estudantil

  35. Maine

    Baixo índice de crimes violentos deixa Maine fora do radar do discurso de 'lei e ordem'

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