Cassinos de Trump que faliram nos anos 80 podem elucidar elo com Rússia, diz pesquisador

Seth Hettena escreveu livro sobre conexão de presidente com gangsters russos no passado

Lúcia Guimarães
Nova York

Os alertas estão partindo da comunidade de inteligência, em público ou por vazamentos para repórteres. Vladimir Putin parece estar diretamente envolvido na organização da comprovada operação para interferir na eleição presidencial americana de novembro. O foco da operação é sabotar a campanha do democrata Joe Biden, propagando desinformação para prejudicar o candidato.

O FBI descreveu “esforços muito ativos” da Rússia com uso de redes sociais, mídia estatal e agentes terceirizados para semear dúvidas sobre a eleição e aumentar a discórdia nos EUA.

Um eventual sucesso da Rússia em sabotar o processo eleitoral americano parece contar com a complacência do secretário de Justiça William Barr. Em público, ele insiste na teoria de que a China é a maior ameaça à eleição, falsificando a coleta de inteligência.

Barr cada vez mais age como membro da campanha e advogado pessoal de Donald Trump. Reclama poder absoluto de promotoria e ataca diretamente seu exército de promotores. A reação no establishment judiciário tem sido forte, a ponto de o ex-subsecretário de Justiça do governo de George Bush pai, Donald Ayer, comparar Barr a Joseph Goebbels, o ministro de propaganda de Adolf Hitler. Ayer disse que Barr usa a técnica de Goebbels de repetir mentiras até que elas sejam aceitas como fato.

Até hoje não foi possível decifrar a lealdade de Donald Trump a Vladimir Putin nem a insistência do presidente em negar os fatos –seus apoiadores tiveram inúmeros contatos com agentes do Kremlin, financistas, oligarcas e vigaristas russos de terceira divisão.

No recém-lançado livro “Rage” (ira), o jornalista Bob Woodward relata a reação de Trump, em 2019, quando foi divulgado o relatório do procurador especial Robert Mueller absolvendo o presidente de conluio com a Rússia.

“A coisa linda é: tudo evaporou. Incrível. Acabou em poeira”, disse Trump. É mesmo incrível, quando se leva em conta que ele começou a cruzar caminhos com figuras do submundo russo na década de 1980 e nunca foi indiciado.

O jornalista que mais investigou a conexão russa é Seth Hettena, autor de “Trump/Russia, a Definitive History" (Trump/Rússia, uma história definitiva), lançado em 2018. O livro relata como, depois de um flerte com a máfia italiana, que reinava sobre o canteiro de obras da Trump Tower, inaugurada em 1983, na 5ª Avenida, Trump fez um bom negócio com um gângster russo.

Naquela época, a máfia italiana começou a se associar aos criminosos que vieram na leva da imigração russa. Trump convenceu um certo gângster David Bogatin a comprar nada menos do que cinco apartamentos na Trump Tower em dinheiro, um tipo de transação que era um sinal neon de lavagem de dinheiro e só era autorizada em outro arranha-céu de Manhatan.

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Concorda com a comparação que tem sido feita entre o secretário de Justiça, William Barr, e seu infame antecessor no cargo sob Richard Nixon, John Mitchell, que cumpriu pena de prisão depois de ter ajudado a organizar a invasão da sede do Partido Democrata, no edifício Watergate, durante a campanha 1972? Sim, não se vê comportamento semelhante no cargo desde aquela época. Barr começou por proteger metodicamente o presidente da investigação de Robert Mueller sobre os múltiplos contatos da campanha republicana de 2016 com os russos, que, em parte, não foi levada a sério pelo público porque Barr se antecipou com uma versão distorcida das conclusões. Há um claro padrão nas ações dele –dar cobertura política para favorecer a reeleição.

É perturbador ver como ele protege o entorno do presidente, um grupo de gente que mentiu sob juramento. Ele propôs pena mais leve para o amigo de Trump Roger Stone, que acabou recebendo indulto presidencial. Pediu a retirada das acusações de perjúrio contra o ex-assessor de Segurança Nacional Michael Flynn, que já tinha confessado a própria culpa. E parece que não vai adiante a investigação sobre Erik Prince. Os três tiveram contatos suspeitos com russos durante a campanha.

O que temos não é um “embuste,” como Trump insiste, mas uma vasta e bem-sucedida operação de acobertamento, como ficou claro no recente relatório de mil páginas do Senado, que vai adiante das conclusões de Robert Mueller.

Por que é importante destacar a falta de progresso na investigação de Prince, o empresário de segurança próximo ao presidente? Prince é um mercenário que presta serviços para os regimes mais opressivos do mundo. Ele é investigado pela ONU como possível organizador de uma operação fracassada de apoio ao líder rebelde protegido de Vladimir Putin na Líbia, Khalifa Hiffter. Dias antes da posse de Trump, Prince, que vivia em contato diário com Rogert Stone, reuniu-se secretamente com o financista Kirill Dmitriev, um aliado de Putin suspeito de ser agente da inteligência russa, e depois mentiu sobre a natureza do encontro.

Barr não tem se mostrado especialmente agressivo? A promotora federal Nora Dannely renunciou recentemente no departamento supostamente por pressão política dele, que lançou uma investigação para tentar caracterizar como criminosa a maneira como o FBI investigou a conexão russa em 2016. Ele chegou a comparar a exigência de quarentena durante a pandemia do coronavírus à escravidão. Com certeza, a situação é cada vez mais sombria, agora ele ataca a lei. A prefeita Jenny Durkan de Seattle é uma ex-promotora federal, não uma militante. A simples ameaça de intimidá-la com uma ação judicial é inaceitável. É difícil prever a que ponto ele vai chegar até novembro, mas a mentira que Barr tem espalhado sobre fraude em votação pelo correio, repetindo a invenção de Trump, é preocupante.

Num livro recente, o ex-agente do FBI Peter Strzok, encarregado de investigar a conexão da Rússia com a campanha Trump, concluiu que o presidente é um risco à segurança nacional. Por que é tão difícil montar um quadro completo das ligações russas do presidente? Porque precisamos voltar aos anos 1980 e 1990, em Nova York e Nova Jersey, onde Trump operou a faliu seus cassinos, frequentados por gangsters russos. Nem tudo veio à tona. Desde 2017, corre na Justiça uma ação que movi com base na lei de liberdade de informação americana, conhecida pela abreviação FOIA.

Tento obter dezenas de páginas de documentos relativos à investigação federal sobre Vyacheslav Ivankov, um gângster que ocupava o alto escalão do crime organizado na Rússia. Ele foi enviado para abafar uma guerra de quadrilhas russas em Nova York, nos anos 1990, e foi descoberto morando na Trump Tower.

Quando prenderam Ivankov, em 1995, agentes encontraram no livro de telefones dele os contatos das organizações Trump e da ala residencial da Trump Tower. Ivankov acabou executado numa rua de Moscou em 2009.

O que espera encontrar nos documentos de Ivankov que o FBI briga na Justiça para manter secretos? Desconfio que os documentos podem confirmar uma suspeita antiga, que o empresário Donald Trump foi informante do FBI sobre o crime organizado nos anos 1980. Mas o que mais nos impede de compreender se Putin tem uma carta na manga contra Trump é a recusa do presidente em tornar públicas suas declarações de renda. Elas poderiam revelar uma rede de empresas de fachada por onde passaram fundos inexplicáveis. Putin certamente sabe tudo sobre o caso Ivankov e sobre outros contatos de Trump com russos.


Seth Hettena, 50

O jornalista americano Seth Hettena
O jornalista americano Seth Hettena - Anita Hettena/Divulgação

Jornalista americano, já foi correspondente da agência Associated Press e colaborou com veículos como The New Yorker, Rolling Stone, The New York Times. É autor de “Trump/Russia, a Definitive History”, de 2018

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