Com 1 caso de fraude em voto por correio desde 2013, Utah derruba tese de Trump

Estado está entre os cinco que realizam eleições quase totalmente a distância nos EUA

Washington

Cinquenta dias antes da eleição americana, a Folha começou a publicar a série de reportagens “50 estados, 50 problemas”, que se debruça sobre questões estruturais dos EUA e presentes na campanha eleitoral que decidirá se Donald Trump continua na Casa Branca ou se entrega a Presidência a Joe Biden.

Até 3 de novembro, dia da votação, os 50 estados do país serão o ponto de partida para analisar com que problemas o próximo —ou o mesmo— líder americano terá de lidar.

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Quando o assunto é voto por correio, Utah faz valer a máxima de 1 em 1 milhão. Desde 2013, autoridades registraram apenas um caso de fraude em 970 mil cédulas enviadas por correspondência em eleições no estado, derrubando a tese vociferada por Donald Trump de que a prática aumentará a chance de irregularidades na disputa à Casa Branca.

Com 3,2 milhões de habitantes e cercado por famosos desertos, Utah soma-se a Havaí, Colorado, Washington e Oregon entre os cinco estados que realizam eleições quase totalmente por correio nos EUA.

Mulher com cédula de voto por correspondência deposita envelope em urna para envio
Mulher com cédula de voto por correspondência deposita envelope em urna para envio - Frederic J. Brown - 5.out.20/AFP

Utilizado há anos de forma segura no país, o voto por correspondência virou tema de desinformação na disputa à Presidência americana e mobilizou os dois lados do xadrez político em meio à pandemia que já matou mais de 215 mil americanos.

Para evitar aglomerações, o uso do voto a distância deve aumentar consideravelmente nas eleições deste ano, o que também deve atrasar a divulgação completa dos resultados.

Numa espécie de vacina para quem está dez pontos percentuais atrás nas pesquisas, Trump tem repetido o discurso de que o voto por correio pode levar a fraudes e chegou a sugerir que os americanos votem duas vezes, de forma presencial e por correspondência, o que é ilegal.

O presidente também se recusou a responder se vai aceitar a derrota para o democrata Joe Biden e sinalizou que pode questionar o resultado na Justiça.

As acusações do presidente, porém, não têm fundamento. Estudo da Heritage Foundation, um centro de pesquisas conservador, mostra que, desde 1988, de 250 milhões de cédulas enviadas pelo correio, apenas 208 eram fraudulentas e resultaram em condenações.

Nos EUA, o voto não é obrigatório, e o eleitor pode escolher seu candidato de três maneiras: a mais tradicional é ir à urna no dia da eleição, mas há também como votar pessoalmente de forma antecipada ou ainda fazer o voto por correio, que precisa ser solicitado com antecedência.

As regras variam de estado para estado, mas a pandemia fez com que muitos deles deixassem de exigir justificativa para o voto a distância e abrissem prazos até o fim de outubro para pedir as cédulas —a eleição acontece em 3 de novembro.

Em 2016, cerca de 25% dos eleitores votaram por correspondência, índice que só aumenta desde 2004, quando eram 12% os que escolhiam esse formato. Trump avalia que mais participação de eleitores pode favorecer Biden —o republicano perdeu no voto popular em 2016 para Hillary Clinton, mas venceu no Colégio Eleitoral, sistema indireto que escolhe o presidente.

Diante da ofensiva de Trump, Biden inicialmente estimulou com vigor o voto por correio e foi ouvido por grande parte de seus eleitores. Pesquisa de agosto divulgada pelo Wall Street Journal/NBC mostrou que cerca da metade dos apoiadores do democrata pretendia votar por correspondência.

Nas últimas semanas, porém, a ideia passou a ser também um problema para o ex-vice de Barack Obama. Não por causa das fraudes pouco prováveis, mas por erros simples que podem ser cometidos por eleitores pouco habituados a preencher, assinar e enviar as cédulas corretamente, gerando a rejeição do voto.

Não há dúvida de qual partido se beneficiaria com a desqualificação em massa de cédulas enviadas pelo correio, mas ainda não está claro qual será o tamanho do impacto para cada candidato. A certeza é que, em razão da logística, será difícil cravar quem foi eleito presidente dos EUA na noite de 3 de novembro.​

50 ESTADOS, 50 PROBLEMAS

  1. Minnesota

    Morte de George Floyd em Minnesota escancarou outra vez racismo sistêmico americano

  2. Texas

    Divisa do Texas se tornou ícone da cruzada de Trump contra imigrantes

  3. Indiana

    Rusga com China põe estados rurais como Indiana na linha de tiro da guerra comercial

  4. Missouri

    Caso no Missouri ajudou a pavimentar decisão da Suprema Corte que protege comunidade LGBT

  5. Califórnia

    Califórnia, de moradores de rua e aluguéis caríssimos, espelha problema da habitação nos EUA

  6. Idaho

    Superlotação em prisões de Idaho expõe encarceramento em massa nos EUA

  7. Arizona

    Arizona põe à prova discurso de Trump de destruição dos subúrbios americanos

  8. Colorado

    Legalização federal é pedra no sapato de empresários da maconha no Colorado

  9. Arkansas

    Solidamente republicana, Arkansas facilita venda de armas

  10. Alasca

    Chance de explorar petróleo em reserva ambiental no Alasca opõe modelos de desenvolvimento

  11. Nova York

    Nova York procura saída para déficit bilionário agravado pela pandemia de coronavírus

  12. Flórida

    Flórida se tornou laboratório da postura errática de Trump diante da pandemia

  13. Carolina do Sul

    Briga na Carolina do Sul por estátua de Pantera Negra evidencia onda contra símbolos confederados

  14. Nevada

    Com dados alarmantes, Nevada retrata epidemia da violência doméstica nos EUA

  15. Alabama

    No top 5 de tiroteios em escolas, Alabama alimenta estatística que assombra EUA

  16. Dakota do Norte

    Na Dakota do Norte, indígenas enfrentam pobreza e oleoduto apoiado por Trump

  17. Maryland

    Disputa entre público e privado em Maryland é retrato da educação nos EUA

  18. Havaí

    Relação conturbada dos EUA com Coreia do Norte espalha medo no Havaí

  19. Wisconsin

    Sombra da judicialização paira sobre disputas acirradas em estados como Wisconsin

  20. Virgínia

    Passeata na Virgínia em 2017 deu visibilidade para extremistas da alt-right

  21. Kansas

    Kansas quer levar supressão do voto, trincheira dos direitos civis nos EUA, à Suprema Corte

  22. Carolina do Norte

    Com programa inovador, Carolina do Norte enfrenta problema crônico de acesso à saúde

  23. Oklahoma

    Biden visa aumento salarial a professores e mira demanda de grevistas em Oklahoma

  24. Wyoming

    Wyoming espelha diferenças salariais entre homens e mulheres nos EUA

  25. Iowa

    Confusão nas prévias em Iowa reaviva discussões sobre reforma no sistema eleitoral

  26. Nova Jersey

    Governador de Nova Jersey vive rebote de fake news que tomaram EUA desde 2016

  27. Louisiana

    Louisiana espelha tentativas de estados conservadores de cercear o aborto

  28. Ohio

    Às voltas agora com fentanil, Ohio vê nova alta de mortes por opioides

  29. Delaware

    Berço político de Biden, Delaware é paraíso da evasão de impostos nos EUA

  30. New Hampshire

    New Hampshire vira palco de disputa entre religiosos e defensores do Estado laico

  31. Nebraska

    Taxar bilionários, como o 'oráculo de Nebraska', vira tema de campanha

  32. Utah

    Com 1 caso de fraude em voto por correio desde 2013, Utah derruba tese de Trump

  33. Rhode Island

    Vírus leva desemprego a montanha-russa, e estados como Rhode Island pagam a conta

  34. Massachusetts

    Sonho de universidade de ponta em Massachusetts vira pesadelo de dívida estudantil

  35. Maine

    Baixo índice de crimes violentos deixa Maine fora do radar do discurso de 'lei e ordem'

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