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Armênia

Com Quirguistão, Putin vive crise tripla em sua periferia estratégica

Depois da Belarus e da Armênia, é a vez de o aliado na Ásia Central cair em turbulência e violência

São Paulo

A Belarus está em convulsão política desde as eleições fraudadas de 9 de agosto. A Armênia trava um conflito com o Azerbaijão que ameaça se tornar uma guerra regional há dez dias. E o remoto Quirguistão viu cenas que lembraram a Queda da Bastilha na madrugada desta terça (6).

O que todos esses países têm em comum? São ex-repúblicas soviéticas na periferia política de Moscou, cujas crises díspares desafiam toda a estratégia do presidente Vladimir Putin, que sonha com uma nunca realizada federação liderada por ele na Eurásia.

Manifestantes protestam contra o resultado da eleição parlamentar no Quirguistão
Manifestantes protestam contra o resultado da eleição parlamentar em Bishkek, no Quirguistão - Viacheslav Oseledko - 5.out.2020/AFP

A crise tripla é uma das maiores, em escopo e complexidade, já enfrentada por Putin em seus 20 anos de poder.

O russo nunca escondeu que considerava a debacle soviética uma tragédia devido à desintegração territorial. A existência de Estados associados em suas fronteiras mais sensíveis é um mote da política russa desde os tempos imperiais dos Románov (1613-1917).

A União Soviética (1922-1991) consolidou isso, apenas trocando o figurino clássico pela subjugação de povos de forma federativa, até que em seu ocaso os nacionalismos voltaram a falar mais alto.

A geografia explica o interesse de Moscou. As duas rotas principais de invasão do país, historicamente, são o oeste europeu e o sul caucasiano.

Com o fim do controle soviético, mesmo nos turbulentos anos de Boris Ieltsin no poder, o Kremlin sempre buscou manter os países de sua periferia imediata por perto. Investimentos em infraestrutura, empréstimos e colaboração militar sempre estiveram no cardápio.

Putin manteve isso, embora sofra com as fidelidades cruzadas típicas de alguns desses países.

Manifestantes fogem de gás lacrimogêneo durante confronto com a polícia em Bishkek
Manifestantes fogem de gás lacrimogêneo durante confronto com a polícia em Bishkek - Viacheslav Oseledko - 5.out.2020/AFP

O caso quirguiz é exemplar. Ali, o interesse sempre foi manter uma área estável separando a Rússia do extremismo islâmico do vizinho Afeganistão. De forma secundária, quer evitar a absorção natural do pequeno país de 6,5 milhões de pessoas pelo poderio econômico chinês.

O russo apoiava firmemente um presidente, Almazbek Atambaiev, que deixou o poder para um aliado, Sooronbai Jeenbekov, em 2017.

A relação de Putin com o país sempre foi próxima. Há uma montanha de 4.446 metros com seu nome por lá, além de ao menos uma estátua num resort de esqui cujo dono foi favorecido com financiamentos russos. Desde 2003, Moscou tem uma base aérea estratégica no país.

Os americanos, aliás, também usavam um aeroporto local como entreposto de cargueiros militares rumo a suas operações afegãs, de 2001 a 2015, tornando Bishkek uma capital única, sediando bases dos rivais da Guerra Fria a poucos quilômetros umas das outras.

O novo presidente passou a perseguir o patrono, mas Putin interveio e garantiu seu retorno ao país em 2018. Em 2019, assinou diversos acordos de cooperação e financiamento para Jeenbekov, e a crise parecia resolvida —até que, em agosto, Atambaiev foi preso acusado de tramar um golpe e de favorecer mafiosos.

No domingo, eleições parlamentares foram vistas como fraudulentas, e uma multidão foi às ruas. Uma pessoa morreu, 590 ficaram feridas, e a prisão política em que Atambaiev estava foi atacada, numa versão centro-asiática dos eventos de 1789 que marcaram a revolução em Paris. O ex-presidente foi solto.

Houve embates durante toda a noite, e o escritório de Jeenbekov foi invadido. O Parlamento reagiu e concordou em anular a eleição. A Rússia se mostrou preocupada, mas disse que via a questão como um assunto interno de uma nação que já passou por duas derrubadas de governo desde 2005.

Homem examina prédio atingido por artilharia de separatistas armênios em Ganja, no Azerbaijão
Homem examina prédio atingido por artilharia de separatistas armênios em Ganja, no Azerbaijão - Aziz Karimov/Reuters

Na prática, Putin vai esperar que os clãs locais se acertem, de uma forma ou de outra, lembrando que ele detém a chave do cofre e da sala de armas, por assim dizer. O que o Kremlin não deverá aceitar é alguma versão de "revolução colorida", ou seja, estimulada por rivais externos —no caso, uma discreta China.

O desconforto veio a se somar à tragédia em curso no Cáucaso, onde nesta terça (6) os combates continuaram em menor intensidade do que nos últimos dias.

Eles giram em torno de um bode deixado na sala pelo fim da União Soviética, o controle sobre a região de Nagorno-Karabakh, objeto de uma guerra de 1992 a 1994.

O problema é que agora a Turquia está abertamente apoiando o Azerbaijão contra o que chama de ocupação de Ierevan do território, que tem maioria armênia.

Novamente, Putin teve de intervir, agora em favor da Armênia. Só que o fez friamente, pela relação ambígua que tem com o premiê do país, que chegou ao poder após uma revolta derrubar o governo pró-Kremlin em 2018.

Mas os laços estão preservados, e Moscou tem uma grande base militar no país, pela qual deve proteger Ierevan em caso de agressão externa. Por ora, os combates só rasparam no território armênio reconhecido internacionalmente, mas o risco de uma expansão que oponha Putin ao turco Recep Tayyip Erdogan existe.

Neste caso, ao contrário de disputas como após a anexação da Crimeia da Ucrânia em 2014, o Ocidente está com Putin. França e EUA trabalham juntos com a Rússia por uma solução pacífica, algo que até aqui os azeris negam com o apoio turco.

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, afirmou nesta terça que a Rússia não vai aceitar a instalação de terroristas islâmicos no Azerbaijão, ao comentar a afirmação feita pelo chefe do serviço secreto russo de que mercenários vindos da Síria estão a serviço de Baku patrocinados por Ancara.

Ao mesmo tempo, em um sinal não muito sutil, Putin nomeou o general Serguei Melikov, com grande experiência em contrainsurgência islâmica no Cáucaso, como governador do Daguestão —república russa ao norte da área em conflito.

Nesta terça, o chanceler turco, Mevlut Cavusoglu, disse que poderia haver um reforço militar a Baku. O governo de Ilham Aliyev, por sua vez, ameaçou ampliar os ataques diretamente à Armênia caso sejam usados no conflito os poderosos mísseis balísticos de médio alcance russos Iskander-M, operados por Ierevan.

Com toda a incandescência desses dois conflitos, é quase fácil de esquecer da Belarus, até então o maior problema imediato com que o Kremlin tinha de lidar.

A ditadura de Aleksandr Lukachenko continua sua repressão contra os manifestantes, que não saíram das ruas desde o pleito —considerado fraudado— no qual ele garantiu seu sexto mandato à frente do país.

Com a Ucrânia relativamente neutralizada depois da reação de Putin contra a derrubada do governo pró-Moscou em 2014, o Kremlin não considera a hipótese de ver algo semelhante acontecendo no outro país que lhe serve de tampão territorial contra as forças da Otan (aliança militar ocidental).

Claro, elas estão também nos pequenos Estados Bálticos, com fronteira direta com a Rússia, mas em quantidades ínfimas perto do poderio de Moscou na região.

São as vastas planícies ucranianas e bielorrussas o cenário de tantas batalhas no passado com potências ocidentais, sejam elas a França napoleônica ou a Alemanha nazista.

Assim, Putin redobrou a aposta em Lukachenko, mesmo tendo nele um aliado pouco confiável e com histórico de disputas. Enfraquecido, o ditador serve melhor agora aos propósitos de Moscou.

Ambos usaram a carta das ameaças estrangeiras, fizeram manobras militares conjuntas e buscaram mostrar coesão antes os ressabiados vizinhos membros da Otan.

Até aqui, Moscou tem manobrado as duas crises existentes sem grandes prejuízos. O desafio colocado pelo Quirguistão parece menor, mas mostra que a ideia de uma reedição da influência russa na Eurásia é menos natural do que os formuladores de Putin gostariam de admitir.

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