Descrição de chapéu Eleições EUA 2020

Em 2016, pesquisas não indicaram vitória de Trump. Dá para confiar nelas em 2020?

Erro na amostragem de brancos sem nível superior foi principal causa dos erros em levantamentos há 4 anos

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São Paulo

Um homem branco, morador do Meio-Oeste e que nunca chegou à universidade.

Essa figura simples, que a princípio não assusta ninguém, povoou o pesadelo de todos que trabalham com pesquisas eleitorais nos EUA nos últimos quatro anos.

Foi um erro na amostragem desse grupo que levou sondagens a indicar que a favorita à Casa Branca em 2016 era a democrata Hillary Clinton —e não Donald Trump, que acabou eleito naquele 8 de novembro.

Ao resultado seguiu-se uma onda de críticas aos levantamentos, com o novo presidente acusando os institutos e a imprensa de promoverem fake news para beneficiarem os democratas. Por isso, muitos questionam se é possível confiar nas pesquisas atuais, que mostram Joe Biden à frente do republicano.

Para Lee Miringoff, diretor do Instituto para Opinião Pública do Marist College, a resposta é positiva.

Eleitora vota de maneira antecipada em Tulsa, no estado de Oklahoma; a pandemia adicionou incerteza aos levantamentos eleitorais
Eleitora vota de maneira antecipada em Tulsa, no estado de Oklahoma; a pandemia adicionou incerteza aos levantamentos eleitorais - Nick Oxford/Reuters

“A narrativa mostrada pelos levantamentos, com vantagem para Biden, está correta. Mas a margem dele não é invencível. Na verdade, a situação é semelhante à de 2016, Trump pode vencer”, diz ele.

A confiança nas pesquisas quatro anos depois se deve a correções que o setor diz ter feito para evitar os equívocos de 2016. A avaliação unânime é a de que o maior problema foi subestimar a importância do grupo formado por pessoas brancas que não foram para a universidade. Foi exatamente essa a conclusão de um estudo feito pela AAPOR (Associação Americana dos Pesquisadores em Opinião Pública).

“O nível educacional foi um ponto importante, principalmente na região próxima ao Meio-Oeste. Pessoas sem diploma votaram em Trump em uma proporção maior do que normalmente acontece com candidatos republicanos”, afirma David Dutwin, pesquisador da Universidade de Chicago e ex-presidente da entidade.

O estudo apontou, inclusive, que em, termos nacionais, as sondagens foram precisas. Elas indicavam que Hillary venceria Trump por uma margem entre 2 e 3 pontos percentuais no voto popular. No fim, ela venceu nesse quesito com vantagem de 2,1 pontos, o que não aliviou em nada a barra dos estatísticos.

Para comparação, porém, as pesquisas em 2012 indicavam que Barack Obama teria menos de 1 ponto de vantagem sobre Mitt Romney, mas acabou vencendo por 3,9 pontos —erro numericamente maior.

A questão, evidente, é que no modelo eleitoral americano o voto popular nacional não importa, e o que define o vencedor são os pleitos dos 50 estados e do Distrito de Columbia. Isso porque cada estado tem número de votos no Colégio Eleitoral proporcional à população. A Califórnia, com 39,51 milhões de habitantes, por exemplo, tem direito a 55 representantes. A Dakota do Sul, com 884,6 mil, a 3.

O vencedor em um estado leva todos os votos dele, com exceção de Maine e Nebraska, que os dividem de maneira um pouco mais proporcional. No fim do processo, é eleito quem conquistar mais da metade dos votos no Colégio Eleitoral —270 dos 538 votos possíveis.

Assim, o erro das pesquisas em um grupo pequeno de estados —principalmente Wisconsin, Michigan, ambos do Meio-Oeste, Pensilvânia e Flórida— acabou mudando o resultado. “Era um jogo de centímetros. Se você errasse um ponto, errava a eleição”, diz Clifford Young, especialista em pesquisas do Ipsos.

Para Courtney Kennedy, diretora de pesquisa do Pew Research Center, além do erro na amostra no nível educacional, outros dois fatores contribuíram para o erro nos levantamentos. Primeiro, Trump conseguiu convencer uma grande quantidade de eleitores de áreas rurais —que tradicionalmente preferem os republicanos— a votar, aumentando o comparecimento desse grupo em relação a 2012.

A quantidade de indecisos também era grande e, nos estados decisivos, como Flórida e Wisconsin, Trump conseguiu atrair esse grupo em uma proporção de até 2 para 1. Nada disso foi captado pelas pesquisas.

Dutwin, ex-AAPOR, aponta que a questão dos indecisos neste ano é um dos elementos que devem facilitar o trabalho dos pesquisadores. Se há quatro anos cerca de 10% da população chegou ao dia do pleito sem saber em quem votar, em 2020 apenas 5% ainda não se decidiram. Além disso, Biden tem atualmente 52% dos votos na média das pesquisas nacionais, enquanto Hillary nunca conseguiu superar os 48%.

“Para vencer, Trump terá que convencer os que dizem que vão votar em Biden a votar nele. Em 2016 ele precisou convencer as pessoas que não sabiam em quem votar, o que é mais fácil”, afirma ele.

Young, do Ipsos, diz que, além de corrigir o erro de amostragem e dar mais atenção ao eleitor de áreas rurais, institutos de pesquisa mudaram o foco dos levantamentos, deixando em segundo plano as pesquisas nacionais e priorizando recursos para a disputa em estados decisivos.

Apesar disso, é impossível saber neste momento se os levantamentos vão ser mais precisos do que os de quatro anos atrás, principalmente porque o pleito de 2020 acontece em meio a uma pandemia.

“A crise do coronavírus com certeza adicionou um elemento de incerteza e será apenas depois da votação que conseguiremos saber quais foram seus efeitos”, afirma Kathleen Weldon, diretora de operações do Centro de Opinião Pública da Universidade Cornell.

A Covid-19 pode, por exemplo, influenciar o grau de comparecimento de um determinado grupo. Além disso, o número de votos pelo correio aumentou muito neste ano em comparação a 2016. O problema, diz Dutwin, é que em muitos casos essa modalidade de votação pode acabar na Justiça, e os levantamentos não tem como prever se todos os votos serão contabilizados ou se parte será anulada, por exemplo.

É por isso tudo que ninguém arrisca cravar um vencedor. “Os levantamentos estaduais devem ser mais precisos neste ano, mas eles não são infalíveis”, diz Kennedy, do Pew Research Center. “As pesquisas mostram como a corrida está neste momento, elas não preveem o futuro.”

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