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Eleições EUA 2020

Em debate civilizado, vencedor é o eleitor, que conseguiu ouvir Biden e Trump

Candidatos tiveram bons momentos, mas, para republicano, empate não é boa notícia

São Paulo

Todo mundo ficou tão aliviado ao constatar que o último debate presidencial americano foi realmente um debate, no qual a moderadora conseguiu moderar e os espectadores puderam ouvir as respostas dos candidatos, que pode ter passado despercebida a gigantesca diferença entre as visões do presidente Donald Trump e do ex-vice-presidente Joe Biden para os Estados Unidos.

O momento em que essa discrepância ficou mais clara foi quando a moderadora Kristen Welker fez sua pergunta final aos candidatos: “Imagine que você venceu a eleição e fará seu discurso de posse, o que você vai dizer para os americanos que não votaram em você?”.

Donald Trump (esq.) e Joe Biden participam do segundo debate presidencial em Nashville, no Tennessee
Donald Trump (esq.) e Joe Biden participam do segundo debate presidencial em Nashville, no Tennessee - Chip Somodevilla/Reuters

O republicano afirmou que, com o sucesso que ele trouxe para a economia americana “antes de a praga vir da China”, o “outro lado” já queria se juntar a ele e que os EUA estão no caminho para o sucesso, o que irá unir o país. Trump concluiu seu discurso de união atacando Biden, dizendo que o democrata vai aumentar o imposto de todo mundo se for eleito e que o país terá uma depressão econômica sem precedentes.

Já Biden afirmou que diria aos eleitores de Trump: “Eu sou um presidente americano, eu vou representar todos vocês, aqueles que votaram e aqueles que não votaram em mim”. O democrata continuou dizendo que haverá enormes oportunidades para fazer a economia crescer, para abordar o problema do racismo sistêmico e estimular energia limpa. “O que está na cédula eleitoral é o caráter deste país. Decência, honra, respeito, tratar as pessoas com dignidade, garantir que todos tenham as mesmas chances.”

Biden tentou cristalizar a mensagem de que representa a união de um país polarizado e a volta da dignidade e decência à Presidência, além de um combate mais efetivo à pandemia do coronavírus.

Trump, além de tentar colar no democrata a pecha de corrupto, apostou no seu trunfo pré-pandemia, a economia pujante. E os dois candidatos têm o que comemorar.

Depois de um primeiro debate desastroso, em que seu comportamento agressivo foi rejeitado pelos eleitores, Trump obedeceu às orientações de assessores e não interrompeu constantemente seu rival.

Ele não foi grosseiro com Biden nem com a moderadora —chegou até a elogiá-la. O presidente americano conseguiu emplacar críticas eficientes ao oponente —insistiu na narrativa de que o democrata esteve no governo durante oito anos e não implementou várias das políticas que estava prometendo.

Também atacou o apoio de Biden a uma legislação que contribuiu para o encarceramento em massa no país —outra crítica relevante. No entanto, a tentativa de transformar o computador de Hunter Biden, filho do ex-vice, no escândalo dos emails de Hillary Clinton, que sequestrou as atenções da mídia e do eleitorado em 2016, não decolou —ao menos até agora.

E Trump outra vez recheou suas falas com uma torrente de mentiras, mais ainda do que no primeiro debate. O republicano disse que sua conta secreta na China foi fechada em 2015, mas ela ainda está aberta. Afirmou, como vem dizendo desde que assumiu, que divulgará suas declarações de imposto de renda —uma tradição de todos presidentes americanos— assim que a receita federal americana acabar uma suposta auditoria. Enquanto isso, diz ele, não está autorizado a fazê-lo.

É mentira, não há nenhuma restrição da receita, e ele poderia divulgar os documentos.

O democrata conseguiu passar pelos 90 minutos de debate sem as habituais gafes e sem se enrolar tanto no meio das frases. Aliás, estava em cena um Biden muito mais energético do que no primeiro encontro, mais corado —em comparação ao look museu de cera do outro embate.

Trata-se de um bom antídoto para a campanha negativa de Trump, que acusa o democrata de 77 anos de estar senil (o republicano tem 74 anos).

Algumas de suas colocações foram certeiras. Quando Trump afirmou que a situação da pandemia da Covid-19 estava se estabilizando no país, e os americanos estavam aprendendo a viver com a doença, retrucou: “As pessoas não estão aprendendo a viver com o coronavírus. As pessoas estão aprendendo a morrer com o coronavírus”.

E, depois de Trump falar que os EUA têm uma boa relacção com o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, disse: “É como dizer que tínhamos uma boa relação com Hitler antes de ele invadir o resto da Europa”.

No entanto, o democrata caiu em algumas cascas de banana. Questionado por Trump se iria acabar com a indústria do petróleo, ele basicamente confirmou, dizendo que iria “fazer uma transição” para reduzir a poluição —o que deve assustar eleitores de estados que dependem dessa indústria.

Ao criticar a medida do governo Trump de separação de crianças migrantes —reportagem desta semana revelou que o governo ainda não conseguiu localizar os pais de 545 crianças separadas na fronteira—, o republicano retorquiu: “Quem construiu as gaiolas, Joe?”. Os centros de detenção foram construídos no governo Obama, que foi campeão em número de deportações.

O espectador pode agradecer à moderadora Welker pela redução no nível de estresse. Ela fez um trabalho excelente ao questionar imprecisões das respostas e conseguiu manter os candidatos razoavelmente disciplinados. “Estou com inveja”, disse Chris Wallace, o moderador do caótico primeiro debate.

De modo geral, foi um confronto muito mais equilibrado do que o primeiro. Empate, porém, não é boa notícia para Trump, que tem razoável desvantagem nas pesquisas a menos de duas semanas da eleição.

Segundo a média dos levantamentos calculada pelo site FiveThirtyEight, Biden tem 52,1% das intenções de voto, e Trump, 42,2%. O democrata lidera estados-pêndulo como Flórida, Michigan, Arizona, Pensilvânia e Wisconsin. Cerca de 47 milhões de pessoas já votaram, e apenas de 2% a 5% dos eleitores dizem estar indecisos —ou seja, o espaço para virar votos é pequeno.

Mesmo assim, vale uma dose extra de ceticismo. Na manhã de 8 de novembro de 2016, inúmeras pesquisas apontavam que Hillary tinha mais de 80% de probabilidade de derrotar Trump. Institutos de pesquisas juram ter ajustado seus modelos e corrigido erros da última eleição. Mas vai saber.

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