Descrição de chapéu Eleições EUA 2020

Em evento com eleitores, Trump se esquiva sobre testes e se nega a condenar teoria conspiratória

Casa Branca anunciou que presidente tinha Covid-19 três dias após debate com Biden

Belo Horizonte

O presidente americano, Donald Trump, negou-se a participar de um debate virtual com seu adversário nas eleições de novembro, o democrata Joe Biden, planejado para ocorrer nesta quinta (15). Em vez disso, decidiu realizar seu próprio evento, no qual respondeu perguntas dos eleitores em Miami, na Flórida.

Embora pressionado pela moderadora, Savannah Guthrie, Trump manteve tom menos agressivo que o habitual e terminou a noite sem novas declarações que pudessem afastar eleitores moderados e indecisos, foco de sua campanha no momento em que está atrás nas pesquisas.

Logo no início da noite, Guthrie perguntou diversas vezes ao republicano se ele havia sido testado e recebido resultado negativo para a Covid-19 no dia do primeiro debate contra Biden, em 29 de setembro. Três dias depois, ele anunciou que havia sido contaminado.

Trump evitou responder, dizendo que realiza testes com frequência. Tampouco afirmou assertivamente se foi testado naquele dia nem quando havia sido a última vez em que recebeu resultados negativos.

Donald Trump participa de evento com eleitores moderado por Savannah Guthrie em Miami, na Flórida
Donald Trump participa de evento com eleitores moderado por Savannah Guthrie em Miami, na Flórida - Carlos Barria/Reuters

O presidente voltou a afirmar que "a cura não pode ser pior que a doença", em referência à adoção de "lockdowns" por alguns estados, e, outra vez, responsabilizou a China pela pandemia, algo que vem fazendo durante toda a campanha eleitoral.

Uma eleitora, filha de médicos que trabalham na resposta à crise sanitária, perguntou a Trump por que ele não tornou obrigatório o uso de máscaras. O presidente respondeu que não havia consenso científico sobre sua eficácia. No entanto, autoridades de saúde nos EUA e em outros países, assim como a Organização Mundial da Saúde, recomendam o item por comprovadamente reduzir o risco de infecção.

Guthrie perguntou ainda sobre a realização de um evento na Casa Branca, no dia 26 de setembro, no qual Trump anunciou Amy Coney Barrett como indicada a ocupar uma vaga na Suprema Corte.

"Ei, eu sou o presidente, preciso ver as pessoas, não posso ficar em um porão", disse Trump. Ele afirmou que pode ter se contaminado em qualquer uma de suas aparições públicas e citou uma reunião com famílias de veteranos, sugerindo a ocasião como o evento em que se infectou com a Covid-19.

A indicação de Barrett foi objeto de perguntas dos eleitores. Um deles questionou a contradição da postura de Trump de 2016 e a deste ano sobre a escolha de nomes para o tribunal.

Há quatro anos, o republicano se opôs à nomeação de Merrick Garland pelo então presidente Barack Obama, argumentando que a escolha deveria ser feita pelo próximo presidente, uma vez que era ano de eleição —o anúncio do democrata foi feito mais de seis meses antes do pleito.

Neste ano, Trump indicou Barrett menos de cinco semanas antes da data final da votação. O presidente defendeu sua decisão dizendo que não havia impedimento legal ao processo e que, se os democratas tivessem a oportunidade, fariam o mesmo.

Um momento marcante do debate do fim de setembro entre os dois candidatos veio à tona. Guthrie perguntou a Trump por que ele havia se recusado a condenar movimentos racistas na ocasião —o presidente evitou criticar abertamente os grupos e desviou dos questionamentos do moderador.

A jornalista pediu então que o presidente condenasse o movimento QAnon, que já foi classificado pelo FBI como uma ameaça de terrorismo doméstico. Trump afirmou que não sabia muito sobre o grupo, a não ser que eles são "fortemente contra a pedofilia". “Vou lhe contar o que sei, sei sobre a antifa e sei sobre a esquerda radical”, disse ele, repetindo o discurso da noite do debate.

A moderadora afirmou que os membros do QAnon alegam, sem provas, existir um aparato satânico no governo americano que apoia uma quadrilha de tráfico sexual infantil. “Eu simplesmente não sei nada sobre QAnon", disse Trump. "Você sabe", respondeu Guthrie. "O que ouvi é que eles são fortemente contra a pedofilia, e eu concordo com isso", concluiu o presidente.

Ao responder sobre uma postagem no Twitter, na qual Trump compartilhou mensagem que colocava em dúvida o assassinato do líder terrorista Osama Bin Laden durante o governo de Obama, o republicano disse que estava apenas repostando a "opinião de alguém". Na sequência, ouviu da jornalista que ele "não é um tio louco que pode retuitar qualquer coisa". "Você é o presidente."

Os eleitores também fizeram perguntas sobre imigração, um dos temas que dominaram a campanha do republicano em 2016 e que têm grande apelo entre membros de sua base. Questionado sobre se continuaria com esforços para fazer cortes no programa Daca, Trump afirmou que “cuidaria” do programa.

A política foi instituída por Obama e impede que grande parte dos imigrantes que chegou ao país sem documentos quando crianças —os chamados "dreamers"— seja deportada. Guthrie mencionou que o governo reduziu sistematicamente o programa.

“Por causa da pandemia, muita coisa mudou na área da imigração, o México foi fortemente atingido, como você sabe, e tornamos muito, muito difícil entrar [nos EUA] por causa da pandemia e de outros motivos e crimes", respondeu Trump. "Queremos que as pessoas entrem em nosso país, mas elas têm que entrar por meio de um sistema de mérito e de forma legal."

Enquanto isso, Biden participou de um evento similar na Pensilvânia, transmitido em paralelo.

Em ambos os estados, a disputa entre os dois candidatos não está definida —tanto a Flórida quanto a Pensilvânia são estados-pêndulo, que ora votam em democratas, ora em republicanos.

Mas a Flórida pesa mais na corrida à Casa Branca: é o terceiro estado com o maior número de votos no Colégio Eleitoral (29), atrás apenas de Califórnia e Texas. A Pensilvânia é o sexto, com 20.

Pesquisas recentes mostram que Trump está atrás de Biden no estado por 45% contra 49,1%, de acordo com o site FiveThirtyEight. A diferença é menor do que os resultados de todo o país, nos quais o democrata aparece com 52,4% e o presidente, com 41,9%.

Contribuiu ainda para a escolha da Flórida o fato de que desde 1924 nenhum republicano chegou à Presidência sem vencer no estado, e, há mais de 20 anos, quem vence ali leva também a Casa Branca.

Foi também na Flórida que Trump realizou seu primeiro comício após ser liberado pelos médicos. Na segunda (12), dez dias após ter divulgado a contaminação pelo novo coronavírus, o presidente falou a milhares de apoiadores no aeroporto de Sanford, região central do estado.

Seu discurso teve o repertório de sempre: disse que uma vitória de Biden mergulhará os EUA no socialismo, repetiu que vai erradicar o coronavírus e distribuir os medicamentos que tomou durante o tratamento e pediu que as pessoas “saiam de casa e votem” —o voto não é obrigatório no país.

Preocupações com o quadro de saúde de Trump estiveram no centro do planejamento desta noite.

Até a noite de terça, a rede NBC, responsável pelo evento, estava preparada para cancelá-lo se a equipe do presidente não apresentasse provas convincentes de que não havia possibilidade de Trump contaminar pessoas à sua volta. Na quarta (14), a emissora anunciou que o evento aconteceria e que seguiria “as diretrizes determinadas pelas autoridades de saúde”.

O encontro desta quinta ocorreu ao ar livre, no Pérez Art Museum, em Miami. Os presentes vestiram máscaras e se sentaram respeitando o distanciamento social.

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