Descrição de chapéu Financial Times

Em momento #MeToo, dinamarquesas denunciam assédio e derrubam prefeito

Frank Jensen renunciou ao cargo na prefeitura de Copenhague após acusações

Richard Milne
Financial Times

Em 2012, Maria Gudme saiu para beber com colegas do Partido Social Democrata da Dinamarca, e as repercussões disso só são sentidas agora.

Em um bar em Copenhague, a jovem de 23 anos sentou-se ao lado de Frank Jensen, o poderoso prefeito da cidade, de centro-esquerda. "Ele de repente colocou a mão no lado interno da minha coxa. Eu simplesmente congelei. Não consegui fazer nada", disse Gudme ao Financial Times, acrescentando que rapidamente relatou o incidente a seu chefe.

Nada aconteceu com Jensen, que continuou como prefeito pelo restante da década. Até esta semana, quando foi obrigado a renunciar por causa desse e de outros incidentes, enquanto a Dinamarca vive, tardiamente, seu próprio momento #MeToo.

Três anos atrás, quando o movimento #MeToo original levou mulheres do mundo todo a contar as histórias de assédio que sofreram, e homens poderosos na política e na cultura enfrentaram julgamento por seu comportamento, a Dinamarca de modo geral resistiu.

Os dinamarqueses têm medidas de licença parental das mais generosas do mundo, creches baratas e baixa disparidade de salários entre homens e mulheres, levando o país a ser classificado neste ano como o melhor para as mulheres viverem.

Mas, apesar de sua reputação sobre a igualdade de gêneros, os dinamarqueses tinham algumas das atitudes mais céticas sobre o #MeToo no mundo desenvolvido, segundo pesquisas.

Uma delas mostrou que as dinamarquesas ficavam mais felizes ao ouvir assobios masculinos de paquera do que ao ser chamadas de feministas.

A mudança repentina nas atitudes públicas começou no mês passado, quando Sofie Linde, hoje uma popular apresentadora de televisão, disse numa cerimônia de premiação que, quando tinha 18 anos e começava a trabalhar no setor, uma conhecida celebridade —cujo nome ela não citou— lhe disse para fazer sexo com ele, ou "eu acabarei com a sua carreira". "Eu a destruirei."

O efeito foi imediato: em poucos dias, centenas de dinamarquesas na política, na cultura e nas universidades se manifestaram, dizendo que foram sexualmente assediadas no passado, de um modo que não aconteceu em 2017. Gudme disse: "O discurso de Sofie Linde definitivamente transformou minha vergonha na coragem de que eu precisava para agir".

Isso levou à renúncia de Morten Ostergaard como chefe do Partido Social Liberal depois que ele admitiu vários casos de assédio sexual. Houve também pressão renovada contra Jeppe Kofod, o ministro dinamarquês das Relações Exteriores, que foi obrigado a renunciar como porta-voz dos social-democratas para política externa em 2008, depois que admitiu ter feito sexo com uma menina de 15 anos.

A idade de consentimento na Dinamarca é 15, e Kofod, que voltou a ser ministro das Relações Exteriores no ano passado, disse que lamenta profundamente sua conduta.

Ativistas disseram que o país escandinavo está experimentando uma mudança muito atrasada. "Esta é apenas a primeira fase. Essa é a questão mais importante que se discute na Dinamarca", disse Camilla Soe, membro do Partido Liberal, de centro-direita, que ajudou Gudme a coletar centenas de assinaturas de todo o espectro político no país de mulheres que disseram ter sido sexualmente assediadas.

No passado, a mídia dinamarquesa não se interessava pelo que os políticos faziam na vida privada. "O que vemos hoje não é uma onda do #MeToo, é um tsunami", disse ela. Em seu próprio caso, ela conta que um ex-chefe certa vez lhe disse: "Você deve desabotoar a blusa quando fizer café para mim".

Frank Jensen, prefeito de Copenhague, em entrevista aos jornalistas
Frank Jensen, prefeito de Copenhague, em entrevista aos jornalistas - Philip Davali - 19.out.2020/AFP

Houve certa resistência ao movimento, especialmente de políticos mais velhos. Pernille Vermund, a líder do populista Partido Nova Direita, afirmou em um debate na TV que, "a menos que casamentos arranjados sejam o modo de avançar, o flerte físico é um pré-requisito para a sobrevivência das espécies".

Inger Stojberg, vice-líder dos liberais de Soe, escreveu no Facebook que a conversa sobre o #MeToo tinha ido longe demais e que todos os homens estão sendo retratados como "famintos por sexo e monstros abusadores".

Em vez disso, é a geração mais jovem que comanda o ataque. Gudme, 31, candidata social-democrata ao Parlamento no ano passado, disse que sua geração está cansada de ser acusada de ser sensível demais.

"Minha geração ouviu: 'Você precisa ser mais forte'. Não queremos mais fazer isso, apenas queremos ser as mulheres que somos", disse ela.

Rikke Andreassen, professora associada de comunicação na Universidade Roskilde, defendeu a tese de que "feminismo" ainda é quase um palavrão na Dinamarca. Diversos ministros da Igualdade dinamarqueses —de esquerda e direita, homens e mulheres— insistiram que não eram feministas.

"Em um contexto dinamarquês, dizer que você é feminista muitas vezes lhe dá um rótulo negativo. Quando uma das mais amadas âncoras da TV se manifestou, realmente abriu a porta para outras pessoas falarem sobre feminismo", disse ela.

Gudme disse que muitos dinamarqueses considerariam uma mulher "extremista" se ela se declarasse feminista. Só uma em cada cinco pessoas no país se rotularia como feminista, segundo uma pesquisa da YouGov —a metade do nível da Suécia, país próximo.

Andreassen admitiu que pesquisadores nunca explicaram totalmente por que os dinamarqueses parecem ter atitudes diferentes em relação ao feminismo até de seus vizinhos nórdicos, apesar de terem o mesmo enfoque para a igualdade de gêneros.

Ela sugeriu que uma possibilidade é que as feministas dos anos 1970 entraram na política e no Parlamento na Suécia, mas menos na Dinamarca, levando os dinamarqueses às vezes a verem o debate sueco como "politicamente correto".

O prefeito Jensen pediu desculpas por seu comportamento e disse que apoia o #MeToo, mas se queixou de que é difícil defender-se de diversas acusações pela mídia.

Para as jovens dinamarquesas, a campanha contra o assédio sexual vai continuar. Elas até criaram sua própria hashtag para substituir a americana #MeToo: #EnBlandtOs, que significa "uma entre nós".

"Nunca é o problema de apenas uma pessoa", disse Gudme. "Todas nós temos de agir. Isso é uma ameaça à democracia."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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