Enquanto Trump negava vírus, documento nos bastidores da Casa Branca alertou investidores

Operadores obtiveram vantagens financeiras com informações sobre gravidade da crise

Kate Kelly Mark Mazzetti
The New York Times

Na tarde de 24 de fevereiro, Donald Trump declarou no Twitter que o coronavírus estava “nitidamente sob controle” nos Estados Unidos —uma de várias declarações otimistas feitas na época pelo presidente e por seus assessores sobre a epidemia, que não parava de se agravar. Trump chegou a acrescentar uma observação direcionada a investidores: “O mercado acionário está começando a me parecer ótimo!”.

Horas antes, porém, membros seniores da equipe econômica do presidente, falando reservadamente com membros do conselho de direção do conservador Hoover Institution, demonstraram menos confiança.

Tomas J. Philipson, assessor econômico sênior do presidente, disse ao grupo que ainda não podia estimar os efeitos que o vírus teria sobre a economia americana. Para algumas pessoas do grupo, ficou subentendido que a epidemia poderia acabar sendo pior do que Philipson e outros assessores da administração Trump estavam assinalando em público na época.

No dia seguinte, membros do conselho de direção receberam outro gostinho de incerteza governamental, desta vez de Larry Kudlow, diretor do Conselho Econômico Nacional. Horas depois de gabar-se na CNBC que o vírus estava praticamente contido no país, Kudlow transmitiu uma mensagem reservada de tom mais ambíguo. Segundo um documento obtido pelo New York Times que descreve as sessões, Kudlow disse que o vírus “estava contido até agora, mas agora não sabemos mais”.

Escrito por um consultor de fundo hedge que assistiu ao encontro do conselho de direção do Hoover, que durou três dias, o documento adota um tom funesto. “O que chamou minha atenção”, escreveu o consultor, foi que quase todos os funcionários que ele ouviu citaram o vírus “como motivo de preocupação, sem que o assunto tivesse sido puxado por ninguém”.

As ações de empresas americanas já estavam em queda devido a um aviso de um funcionário de saúde pública federal que o vírus provavelmente ia se alastrar, mas operadores nas bolsas identificaram o significado imediato: os assessores do presidente pareciam estar transmitindo um aviso precoce aos doadores ricos do Partido Republicano, em um momento em que, publicamente, Trump estava insistindo que o perigo era inexistente.

Entrevistas com oito pessoas que receberam cópias do memorando ou foram informadas sobre aspectos dele enquanto o texto era disseminado entre investidores em Nova York e outras cidades oferecem um vislumbre de como os operadores de elite tiveram acesso a informações vindas da administração que os ajudaram a obter vantagens financeiras durante três dias caóticos em que os mercados globais estiveram na corda bamba.

O memorando parece ter exagerado a gravidade dos avisos dados ao grupo por alguns funcionários da administração e incluíram projeções tenebrosas dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, sem atribuição clara, que não parecem ter saído da reunião.

Mas a mensagem mais ampla do memorando —sobre a probabilidade crescente de uma epidemia viral devastadora nos Estados Unidos e que o governo tinha mais consciência da ameaça do que estava deixando transparecer publicamente— mostrou ser correta.

Para muitos dos investidores que receberam o memorando ou ouviram falar dele, foi o primeiro sinal importante de ceticismo da parte de funcionários da administração Trump quanto à sua capacidade de conter o vírus. “Vendam tudo a descoberto”, foi a reação do investidor.

O memorando foi escrito por William Callanan, veterano de fundos hedge e membro do conselho do Hoover, instituto de pesquisas da Universidade Stanford que estuda a economia, segurança nacional e outros tópicos.

Donald Trump discursa durante evento do partido republicano na Casa Branca, em Washington
Donald Trump discursa durante evento do Partido Republicano na Casa Branca, em Washington - Brendan Smialowski - 27.ago.2020/AFP

Callanan descreveu os briefings do Hoover em email longo que escreveu a David Tepper, fundador do fundo hedge Appaloosa Management, e um de seus subordinados seniores, sobre o nível de preocupação entre autoridades americanas em relação ao alastramento do vírus no país. No email, ele também mencionou como as agências de saúde pareciam estar despreparadas para combater uma pandemia.

O email circulou entre funcionários da Appaloosa, que, por sua vez, informaram pelo menos dois investidores externos à empresa sobre os pontos mais preocupantes da mensagem de Callanan, segundo pessoas que receberam os briefings.

Esses investidores, por sua vez, transmitiram a informação a seus próprios contatos, acabando por transmitir aspectos do texto a pelo menos sete investidores de pelo menos quatro firmas de gestão financeira espalhadas pelo país. No final da tarde de 26 de fevereiro, as bolsas americanas haviam caído quase 300 pontos em relação ao pico da semana anterior. Tepper foi um dos primeiros gestores financeiros de destaque a assinalar receio diante da Covid-19 nos Estados Unidos.

No dia 1º de fevereiro Tepper, em declarações que seriam transmitidas pela CNBC dois dias mais tarde, descreveu o vírus como possível divisor de águas, dizendo que os investidores precisavam ser cautelosos até que se soubesse mais sobre seu alcance. Três semanas mais tarde, a interpretação feita por Callanan pareceu validar o aviso de Tepper.

“Acabo de sair de Washington e quero responder à sua pergunta o quanto antes”, escreveu Callanan a Tepper e um de seus subordinadores seniores em email de 25 de fevereiro. “Se você puder manter estes comentários totalmente confidenciais, ficarei grato.”

Callanan então informou que vários funcionários da administração Trump haviam expressado preocupação maior com o coronavírus do que a administração estava dizendo publicamente.

Em comunicado, Callanan disse que seu email a Tepper continha “considerações pessoais e profissionais baseadas em pesquisas extensas e informações publicamente disponíveis” que mostravam que sua “preocupação com a pandemia global que estava emergindo”. Ele disse que a mensagem foi compartilhada com outros sem seu conhecimento ou autorização.

Tepper negou inicialmente ter recebido a mensagem de Callanan, mas em mensagem posterior reconheceu que provavelmente recebeu o email, dizendo que provavelmente não foi memorável.

Em 24 de fevereiro a Casa Branca pediu ao Congresso US$ 2,5 bilhões (cerca de R$ 14 bilhões) em verbas adicionais. Naquela tarde, o grupo Hoover realizou uma discussão com membros do Conselho de Assessores Econômicos. A discussão foi vista por alguns dos presentes como preocupante para a economia, segundo o memorando de Callanan e entrevistas com três pessoas que estavam presentes.

Um fato que chamou a atenção, segundo um dos presentes, foi a relutância de Philipson, o diretor interino do conselho, em fazer uma estimativa do efeito potencial que o vírus teria sobre o crescimento econômico dos EUA no ano, dado que a situação ainda estava evoluindo. Philipson confirmou haver transmitido uma mensagem nesse sentido, mas não se recordou de detalhes específicos.

Em 25 de fevereiro Nancy Messonnier, funcionária de alto nível do CDC, ofereceu o primeiro vislumbre público das avaliações internas do governo sobre o potencial alastramento do vírus. “Não é mais tanto uma questão de se isso vai acontecer, mas de exatamente quando vai acontecer”, disse ela.

Pouco depois, Kudlow fez seus comentários na CNBC sobre o vírus estar “completamente contido”. Mas suas declarações diante do Hoover Institution duas horas mais tarde foram vistas como um recuo.

Kudlow “corrigiu sua declaração sobre o vírus estar contido”, escreveu Callanan a Tepper, dizendo que “simplesmente não sabemos” se o vírus estava ou não contido na época —ao mesmo tempo em que Kudlow continuava a minimizar suas consequências para a plateia particular.

Kudlow “acrescentou que recomendou ao presidente um período de ‘tranquilidade tarifária’, porque os mercados não precisam de mais incerteza neste momento”. Kudlow confirmou ter feito as duas afirmações, acrescentando que, para ele, são essencialmente a mesma coisa que o que ele disse à CNBC.

“Nunca houve de minha parte nenhuma intenção de desinformar.”

O Hoover Institution tem relações estreitas com a administração Trump, e a Casa Branca preencheu alguns de seus altos cargos com pessoas que tirou do instituto.

Joshua D. Rauh, um dos economistas da Casa Branca que falaram aos membros do Hoover em 24 de fevereiro, retornou ao instituto, em que já havia trabalhado antes. Kevin Hassett, moderador da discussão e que já presidiu o Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca, hoje é membro do Hoover.

Scott W. Atlas, membro do Hoover e professor da Universidade Stanford conhecido por suas posições heterodoxas sobre o incentivo à chamada “imunidade de rebanho”, foi nomeado em agosto para integrar a força-tarefa de Trump sobre o coronavírus.

Tradução de Clara Allain 

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