Milhares de manifestantes desafiam proibição na Tailândia e protestam por democracia

Movimento que busca nova Constituição e renúncia de premiê ignora restrição de reuniões de mais de 5 pessoas

Bancoc | Reuters

Milhares de tailandeses protestaram em Bancoc nesta quinta-feira (15), desafiando um decreto imposto pelo governo um dia antes para banir aglomerações de cinco ou mais pessoas.

Os atos já duram três meses e visam uma nova Constituição, restrições aos poderes do rei, Maha Vajiralongkorn, e a saída do premiê, Prayuth Chan-ocha, que assumiu por meio de um golpe em 2014.

Manifestante faz saudação dos três dedos que se tornou símbolo dos protestos pró-democracia em Bancoc, na Tailândia - Chalinee Thirasupa/Reuters

Apesar dos apelos da polícia para que a multidão se dispersasse, o grupo se espalhou pela interseção Ratchaprasong, um dos distritos comerciais mais movimentados de Bancoc.

Um manifestante amarrou um pedaço de tecido branco no pulso de um policial e disse: "Um dia ficaremos lado a lado quando a Tailândia estiver melhor".

O local foi palco de um derramamento de sangue em 2010, em meio a uma década de violência entre apoiadores e opositores do establishment tailandês.

"Como cães encurralados, estamos lutando até a morte", disse Panupong Jadnok, um dos líderes dos protestos que ainda permanece livre. "Não vamos recuar. Não vamos fugir. Não vamos a lugar algum."

Os manifestantes também encheram as passarelas do complexo comercial vizinho, fazendo a saudação de três dedos que se tornou símbolo da oposição após o golpe militar conduzido por Prayuth, em 2014.

O gesto vem da trilogia de livros "Jogos Vorazes", que depois foi adaptada para o cinema com Jennifer Lawrence no papel da protagonista, Katniss Everdeen.

Na trama, os habitantes de uma América do Norte pós-apocalíptica participam de um jogo em um programa de televisão no qual apenas um deles termina vivo. A saudação de três dedos é usada como demonstração de agradecimento, admiração e despedida de alguém que amam.

Ao longo da história, no entanto, o gesto se torna um símbolo de rebelião contra os ricos opressores que vivem em uma capital protegida pelo Exército.

Os três meses de atos no país de 70 milhões de habitantes têm sido, em grande parte, pacíficos, assim como a marcha de dezenas de milhares de pessoas ocorrida nesta quinta.

Até quarta-feira (14), o governo não havia recorrido à força para impedir a realização dos protestos, mas também não deu nenhum sinal de que atenderia às demandas. A postura oficial mudou depois de manifestantes vaiarem a rainha Suthida e tentarem impedir a passagem de seu comboio.

O casal real faz uma rara visita ao país nesta semana —eles passam a maior parte do tempo na Europa.

De um dia para o outro, reuniões de cinco ou mais pessoas foram proibidas, assim como a publicação de notícias e informações online que, na visão do governo, poderiam ameaçar a segurança nacional.

O decreto de emergência permite ainda que as autoridades impeçam as pessoas de entrar em qualquer área que o governo determine.

"As medidas foram necessárias para garantir a paz e a ordem e evitar novos incidentes depois de os manifestantes atrapalharem a comitiva real e violarem a monarquia com uma linguagem provocante", disse o porta-voz do governo, Anucha Burapachaisri, em um comunicado.

Críticas à monarquia podem levar a penas de até 15 anos de prisão sob as rígidas leis de lesa-majestade da Tailândia.

Na madrugada desta quinta, após a entrada em vigor do decreto de emergência, a polícia de choque dispersou milhares de tailandeses que protestavam do lado de fora do gabinete do primeiro-ministro —alguns levaram esteiras e acamparam no local, planejando passar os próximos três dias ali.

Parte dos manifestantes tentou resistir usando barricadas improvisadas de latas de lixo, mas foram rapidamente contidos. Ao amanhecer, centenas de policiais ocuparam as ruas próximas, e funcionários municipais começaram a limpar o local.

A polícia afirmou que iria prender todos os que compareceram aos atos desta quinta, embora não tenha explicado como iria acusar e processar dezenas de milhares de pessoas.

Os protestos são, na maioria, organizados por estudantes e jovens. "Não queremos que ninguém, desta ou da próxima geração, tenha de aturar isto. Temos que acabar com isso”, disse Mameaw, 17, que veio ao protesto logo após as provas escolares. Ela não quis dar seu nome completo.

A polícia disse que prendeu líderes dos protestos, entre os quais Parit Chiwarak e o advogado de direitos humanos Arnon Nampa. No Facebook, Nampa afirmou que estava sendo forçado a embarcar em um helicóptero para a cidade de Chiang Mai, no norte do país, onde enfrenta acusações de ter incitado rebelião devido a um discurso que fez em agosto.

Aqueles que marcham nas ruas querem que os poderes do rei estejam sujeitos a uma nova Constituição e buscam a reversão de ordens que lhe deram controle sobre algumas unidades do Exército e a fortuna do palácio, estimada em bilhões de dólares.

A atual Constituição tailandesa foi promulgada em 2017, durante o governo da junta militar, e contém normas que favorecem as Forças Armadas do país.

Os manifestantes afirmam ainda que o primeiro-ministro manipulou as eleições do ano passado para garantir sua permanência no poder e que o Exército continuasse controlando o sistema político. Prayuth nega a acusação e diz que o pleito foi justo.

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