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Eleições EUA 2020

Perfil mediano e tedioso tornou Biden alvo complicado para Trump

Se é difícil encantar-se pelo democrata, também é quase impossível odiá-lo

Oliver Stuenkel

Professor de Relações Internacionais da FGV em São Paulo

Tudo indica que Donald Trump será o primeiro presidente desde George Bush pai, em 1992, a não se reeleger. Uma vitória de Joe Biden teria repercussões profundas não só nas políticas doméstica e externa dos EUA, mas também nas dinâmicas internas de países ao redor do mundo.

Da mesma maneira que a ascensão de Trump inspirou populistas, a derrota para um centrista influenciará elites políticas no exterior e promoverá debates sobre as possíveis lições que uma vitória do democrata oferece sobre como sobrepujar líderes demagogos.

A ascensão de Biden em um contexto extremamente dividido e de colapso do diálogo entre esquerda e direita chama a atenção justamente porque o candidato democrata não polariza.

O candidato democrata à Presidência dos EUA, Joe Biden, durante evento de campanha em Phoenix, no Arizona
O candidato democrata à Presidência dos EUA, Joe Biden, durante evento de campanha em Phoenix, no Arizona - Brendan Smialowski - 8.out.20/AFP

Diferentemente de Barack Obama, Hillary Clinton e Donald Trump —as três figuras mais influentes da política americana da última década, nomes aos quais quase ninguém é indiferente—, Biden nunca atraiu muita atenção nem despertou paixões.

Até seus próprios estrategistas —e ele mesmo— reconhecem que ele não tem a oratória de um John Kennedy, um Ronald Reagan, um Bill Clinton ou de um Obama nem a compreensão sofisticada da política global de um Franklin Roosevelt ou um George Bush pai.

Também não ostenta o conhecimento detalhado de políticas públicas de Hillary nem o dom de entreter multidões por horas de Trump. Não há seguidores fanáticos de Biden, e até mesmo eleitores democratas prontamente afirmam que ele está longe de ser o candidato ideal.

Mas é justamente esse caráter mediano —somado a uma imagem pública de fácil simpatia e uma longa carreira sem posicionamentos radicais— que tornou Biden um alvo particularmente complicado para Trump. Se é difícil se encantar por Biden, também é quase impossível odiá-lo.

Em uma sociedade que passa por uma profunda divisão, a eleição do democrata serviria como modelo de como um candidato centrista, que prega a volta à normalidade, consegue vencer um adversário populista, que transformou a política em espetáculo.

Se eleito, ele não terá dias fáceis. Trump mudou não apenas o Partido Republicano, mas também o sistema político americano e o debate público, incluindo a imprensa e a população, que se acostumaram a acompanhar os tuítes frequentes, erráticos e controversos do presidente.

Biden já prometeu que mal se comunicará via redes sociais, e sua participação em entrevistas ao longo dos últimos meses revela que ele traria de volta à política um elemento tradicional que se perdeu com a eleição de Trump: o debate técnico e um tanto tedioso.

O jornalista Matthew Yglesias escreveu recentemente sobre o "tédio delicioso" das entrevistas com Biden e observou, de maneira perspicaz, depois de uma recente conversa com o candidato democrata: "Se você não assistiu, não perdeu muito —isso é legal".

Relatou também que a imprensa terá que se adaptar a um ritmo de notícias bem diferente. Enquanto Trump faz com que cada entrevista tenha elementos inesperados, com potencial de virar manchete, papos com Biden seriam mais técnicos e, sim, bem entediantes se comparados ao show do republicano.

Nesse sentido, Biden se aproxima de líderes europeus, como Angela Merkel. Salvo em momentos de emergência, poucos alemães se importam com o que a chefe de governo tem a dizer no dia a dia.

Não seriam poucos os jornalistas, colunistas e cidadãos que sentiriam sinais de abstinência do entretenimento contínuo que Trump oferece. Para compensar, o estilo de Biden permitiria debates mais profundos que, no final das contas, são cruciais para o funcionamento do sistema democrático.

Considerando as diferenças entre culturas e sistemas políticos, é preciso tomar cuidado com analogias fáceis com outros países, e não se sabe se Biden estaria tão na frente nas pesquisas se não fosse a pandemia, que expôs a flagrante incompetência de Trump ante a primeira crise real que encarou.

Apesar das dessemelhanças, porém, um governo bem-sucedido de Biden representaria um caso extremamente útil a observadores e políticos ao redor do mundo sobre como tentar consertar o dano produzido por um mandatário cujo método de governar é um misto de entreter, escandalizar, semear o ódio e ameaçar opositores —e, assim, inviabilizar um debate sério sobre os desafios que um país enfrenta.

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