'Putin estava por trás do crime', diz líder da oposição russa a revista alemã

Em 1ª entrevista após envenenamento, Navalni afirma que não sentiu dor, mas pensou que morreria

Bruxelas

“Afirmo que Putin estava por trás do crime e não tenho outra explicação para o que aconteceu”, disse o líder da oposição russa, Alexei Navalni, 44, na primeira entrevista após ter sido envenenado, no final de agosto.

Aos jornalistas Benjamin Bidder e Christian Esch, da revista alemã Der Spiegel, ele disse que só três pessoas na Rússia têm controle sobre a produção da substância que o envenenou, e que nenhuma delas agiria sem o consentimento do presidente do país, Vladimir Putin.

Para Navalni, que deixou o hospital na semana passada, a tentativa de matá-lo com o agente neurotóxico Novitchok mostra uma mudança dos métodos do presidente russo contra a oposição.

“Temos 20 anos de experiência. Você pode ser preso, espancado, pulverizado com desinfetantes ou baleado em uma ponte. Mas os agentes de guerra química eram considerados domínio dos serviços de inteligência”, afirmou.

Rosto dos dois políticos
O líder oposicionista russo Alexei Navalni (esq.) e o presidente da Rússia, Vladimir Putin - Mladen Antonov - 16.jan.2018 e Tiziana Fabi -4.jul.2019/AFP

Ele diz acreditar que “algo mudou na cabeça de Putin” e elenca entre as possíveis causas os protestos contra o ditador Aleksandr Lukachenko na Belarus e os atos contra o próprio governo russo na região de Khabarovsk, na fronteira com a China.

“O uso de Novitchok é assustador —e essa é a estratégia de Putin”, afirmou o político à Spiegel. Para ele, o presidente russo despreza as “linhas vermelhas” traçadas por líderes europeus como a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e o presidente da França, Emmanuel Macron.

“Ele simplesmente as cruza, gritando: ‘Você não tem ideia de tudo que posso fazer’.”

A entrevista com Navalni aconteceu no escritório da Der Spiegel em Berlim. Ele foi levado da Rússia à Alemanha para tratamento, por insistência de sua família e de aliados, quando estava em estado grave em um hospital de Omsk, na Sibéria.

Acompanhado por quatro agentes alemães, o político russo tinha cicatrizes no pescoço por ter sido entubado e demonstrava fraqueza ao subir a escada ou se servir de água, relatam os jornalistas.

Mas estava alerta e se lembrava de fatos de antes de ter sido envenenado e dos momentos em que começou a se sentir mal. “Não há nada para comparar. É uma sobrecarga que quebra você. Você não consegue mais se concentrar”, descreveu ele aos jornalistas alemães.

Navalni conta que não sentia dor, mas começou a suar frio e foi jogar água no rosto.

“Saio do banheiro, volto-me para o comissário e, em vez de pedir ajuda, digo, para minha própria surpresa: ‘Fui envenenado. Estou morrendo’. E então eu deitei no chão na frente dele para morrer. Ele é a última coisa que vejo, um rosto que me olha com leve espanto e um leve sorriso”, conta o político.

Segundo ele, cerca de 30 minutos se passaram do momento em que começou a suspeitar de que havia algo errado, já com o avião no ar, até a inconsciência.

O político afirma que o governo russo estava decidido a não deixá-lo sair do país, mas, com a reação do público, mudou de ideia para não correr o risco de que Navalni fosse transformado em mártir.

Ele afirma acreditar que Putin aprendeu a lição após o envenenamento do ex-agente Serguei Skripal, em Salisbury, no Reino Unido, onde 48 foram contaminados e uma pessoa morreu.

“É por isso que você não pode aplicar o veneno em um objeto como a pia ou o chuveiro, que talvez eu nem use. Ou no meu celular, que eu poderia ter dado a [sua assessora] Kira —nesse caso, em vez de uma morte suspeita, você teria duas”, disse Navalni à Spiegel.

Ele diz que o veneno teria sido colocado em um objeto que apenas ele iria tocar. “Não tenho dúvidas de que há um mês minhas roupas estão fervendo em um grande tanque de água sanitária! Para que os vestígios sejam removidos [risos]."

O opositor russo, que perdeu 12 quilos durante a internação e chegou a ficar sem andar, diz que já recuperou movimentos com a fisioterapia e pratica todos os dias “exercícios que as pessoas de 90 anos fazem no parque”.

Ele contou na entrevista que, por causa do coma induzido, ainda não consegue dormir sem remédios. Navalni alugou um apartamento em Berlim, onde está com a mulher e o filho, mas quer voltar à Rússia.

“Fiquei satisfeito porque ninguém em meus círculos pensou que eu não voltaria. Não voltar significaria que Putin venceu e alcançou seu objetivo. E meu trabalho agora é continuar sendo o cara que não tem medo. E eu não tenho medo! Quando minhas mãos tremem, não é de medo. Eu não daria a Putin o presente de não retornar à Rússia”, afirmou ele à Spiegel.

O opositor diz que se preocupa com sua família e pessoas próximas, mas que, sem sua atuação, “as coisas só vão piorar”. “Eles vão matar e prender muito mais pessoas. Na Rússia de hoje, as pessoas são condenadas praticamente todos os dias por algum tipo de postagem nas redes sociais. Estamos lutando contra vilões monstruosos que estão preparados para cometer os crimes mais hediondos”, afirmou.

Navalni pretende continuar viajando pela Rússia, se hospedando em hotéis e bebendo a água que está nos quartos. “Não há muito que possa ser feito para conter os assassinos invisíveis de Putin.”

Ele evitou rotular sua posição política como de esquerda ou de direita, dizendo que o espectro político russo não é tão claro como em outros países. “Veja os comunistas russos: eles são um partido de esquerda? A realidade é que eles seguem um curso mais conservador e de direita. Nossos esquerdistas na Rússia vão à igreja e se benzem”, afirmou.

Para Navalni, o país está dividido entre os que defendem a liberdade e os que querem levar a Rússia de volta ao passado, “a uma estranha imitação ortodoxa da União Soviética, adornada com capitalismo e oligarcas”.

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