Descrição de chapéu Financial Times refugiados

Reino Unido estuda usar barreiras flutuantes contra imigrantes em busca de asilo

Objetivo é bloquear entrada de barcos no Canal da Mancha; associação considera medida ilegal

Jim Pickard Robert Wright
Londres | Financial Times

O governo britânico lançou uma consulta secreta com a indústria marítima para explorar a possibilidade de construir barreiras flutuantes no Canal da Mancha como forma de impedir candidatos a asilo de atravessar o estreito que separa o Reino Unido da França, de acordo com um documento vazado.

O Ministério do Interior procurou a associação comercial Maritime UK para pedir ajuda para barrar a entrada de embarcações de migrantes em águas britânicas. Um dos pedidos incluiu a construção de uma “cerca marítima” numa das rotas de transporte náutico mais movimentadas do mundo.

Bote com migrantes cruza o Canal da Mancha em direção ao sul da Inglaterra
Bote com migrantes cruza o Canal da Mancha em direção ao sul da Inglaterra - Glyn Kirk - 1º.set.20/AFP

A proposta mais recente faz parte de uma série de projetos controversos que a ministra do Interior, Priti Patel, pediu para as autoridades avaliarem, em uma tentativa de impedir a entrada no país de candidatos clandestinos a asilo. As travessias do Canal por migrantes em barcos pequenos se multiplicaram quase cinco vezes neste ano em comparação com 2019.

O jornal Financial Times revelou nesta semana que outra opção considerada por Priti Patel é utilizar a ilha de Ascensão, a 6.400 km de distância, como centro de processamento de candidatos a asilo.

Segundo o FT noticiou na quinta-feira (1º), outras alternativas cogitadas seriam que os migrantes fossem processados em balsa inativas ou até plataformas petrolíferas desativadas no mar do Norte.

O FT também revelou nesta semana que alguns funcionários do governo propuseram a ideia vista como pouco prática de usar barreiras ou barragens flutuantes no Canal da Mancha para impedir os barcos de migrantes de chegar até a costa —ou até mesmo de usar bombas hidráulicas para criar ondas para empurrar os barcos pequenos de volta à França.

Um email da Maritime UK de 17 de setembro ao qual o FT teve acesso mostra que a ideia das barreiras flutuantes está sendo estudada seriamente pelo governo.

Também revelou que o Ministério do Interior está iniciando uma consulta com a indústria para identificar potenciais soluções ao “desafio das embarcações pequenas”.

Segundo o email, o Centro Conjunto de Segurança e Resiliência, que faz parte do Ministério do Interior, está trabalhando com a Força da Fronteira e com Dan O’Mahoney, um ex-militar nomeado recentemente por Patel como comandante da Ameaça Clandestina no Canal da Mancha.

Esses organismos estariam buscando uma “aproximação discreta” com entidades de transportes marítimos para explorar opções como “cercas marítimas e outras tecnologias hídricas” para bloquear a passagem de embarcações.

Membros da indústria foram convidados a apresentar ideias ou propostas até 21 de setembro. A Maritime UK destacou que a consulta era altamente delicada e pediu discrição por parte de seus membros.

Uma figura da indústria disse que a proposta é “antiética e possivelmente ilegal”.

O email disse que o Ministério do Interior quer ter a capacidade de “impedir completamente” a passagem de uma embarcação de migrantes fortemente sobrecarregada e que se move lentamente.

A solução teria de poder levar a embarcação a um “local preciso” e ser capaz de permanecer nesse local sem ingressar acidentalmente em águas territoriais francesas. Ela teria que poder ser deslocada e removida rapidamente, já que seria utilizada em uma rota marítima movimentada.

O memorando destacou ainda que a solução proposta teria que ser “segura para aqueles que entram em contato com ela” e os que a operam.

A Maritime UK disse na quinta-feira que não crê que o plano seja legalmente possível. A entidade disse que frequentemente atua como canal de comunicação entre a indústria e o governo.

“O Ministério do Interior nos pediu para circular um pedido de sugestões de opções para inibir o ingresso em águas territoriais britânicas, pedido que o entregássemos a nossos membros”, disse a organização.

“A posição clara que compartilhamos com o Ministério foi que, por uma questão de convenção internacional, isso não seria legalmente possível.”

Em uma sessão do comitê de contas públicas da Câmara dos Comuns na quinta-feira para discutir a questão dos pedidos de asilo, um funcionário sênior do Ministério do Interior se negou a comentar as diversas propostas.

O secretário permanente Matthew Rycroft disse: “O que posso confirmar é que estamos respondendo a perguntas dos ministros sobre como outros países lidam com algo que é uma questão global –a migração.”

“Vamos estudar todas as opções possíveis. Nenhuma decisão foi tomada até agora. Nenhuma proposta final foi apresentada ainda aos ministros ou a ninguém. Ainda estamos na fase de apresentação de sugestões para uma proposta futura.”

Rycroft insistiu que o departamento levará as obrigações legais internacionais do Reino Unido em conta na formulação de propostas a serem apresentadas aos ministros.

Tradução de Clara Allain 

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