Se atuação do Brasil nos faz um pária internacional, que sejamos esse pária, diz Ernesto

Durante pandemia, chanceler abre Itamaraty para evento com centenas de pessoas e ataca 'covidismo'

Brasília

Em uma defesa da atuação do governo Jair Bolsonaro, o chanceler Ernesto Araújo disse nesta quinta (22) que, se a nova política externa do Brasil “faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária”.

As declarações de Ernesto, que comanda o Itamaraty desde o início do mandato de Bolsonaro, ocorreram durante a cerimônia de formatura do Instituto Rio Branco, a escola de formação de diplomatas.

A fala foi marcada por queixas contra o multilateralismo e o que ele chamou de "covidismo", além de críticas a um marxismo sem Deus e ao globalismo —slogan político usado por movimentos populistas de direita para denunciar, entre outros temas, a suposta perda de identidade nacional.

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, participa de formatura do Instituto Rio Branco no Palácio do Itamaraty
O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, participa de formatura do Instituto Rio Branco no Palácio do Itamaraty - Pedro Ladeira/Folhapress

“Nos discursos de abertura da Assembleia Geral da ONU, por exemplo, os presidentes Bolsonaro e [Donald] Trump [dos EUA] foram praticamente os únicos a falar em liberdade. Naquela organização que foi fundada no princípio da liberdade, mas que a esqueceu”, disse Ernesto, em uma fala de 40 minutos.

“Sim, o Brasil hoje fala em liberdade através do mundo. Se isso faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária.” A política externa conduzida por Ernesto —marcada por um alinhamento estreito com o governo Trump, a antagonização com a China e a defesa de pautas conservadoras em fóruns multilaterais— é criticada por analistas e até mesmo por embaixadores aposentados.

Um dos principais argumentos levantados por críticos é o de que posturas radicais adotadas pela diplomacia brasileira podem deixar o país em situação de isolamento. “Talvez seja melhor ser esse pária deixado ao relento, do lado de fora, do que ser um conviva no banquete do cinismo interesseiro dos globalistas, dos corruptos e dos semicorruptos”, acrescentou Ernesto.

“É bom ser pária. Esse pária aqui, esse Brasil; essa política do povo brasileiro, essa política externa Severina —digamos assim— tem conseguido resultados”, emendou, listando entendimentos comerciais com União Europeia e EUA e a aproximação com países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

Ainda que o chanceler tenha capitalizado o acordo comercial assinado entre Mercosul e a União Europeia, a ratificação do trato enfrenta resistência em diferentes países europeus, principalmente devido à política ambiental do governo Bolsonaro.

Ernesto fez ainda referência à obra-prima do poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto (1920-1999), escolhido pelos formandos como homenageado da turma. Ao lembrar de uma trabalhadora doméstica que sua família empregou nos anos 1980, o chanceler fez alusão ao personagem do livro "Morte e Vida Severina", lembrado como símbolo do brasileiro mais pobre e sofrido. Segundo o ministro, essa trabalhadora, chamada Severina, “odiava o comunismo”, porque eles “são contra Deus”.

Se Ernesto fez elogios à obra de João Cabral, não poupou críticas ao próprio autor, por, segundo ele, ter se dirigido “para o lado errado, para o lado do marxismo e da esquerda”.

“Sua utopia, esse comunismo brasileiro de que alguns ainda estão falando até hoje, constituía em substituir esse Brasil sofrido pobre e problemático [retratado na obra de João Cabral] por um não Brasil. Um Brasil sem patriotismo, sujeito naquela época aos desígnios de Moscou, e hoje, nesse novo conceito de comunismo brasileiro, sujeito aos desígnios sabe-se lá de quem”, afirmou o chanceler.

Esse tipo de acusação não é nova na história de João Cabral. Em 1952, o poeta, então servindo em Londres, foi acusado de liderar uma célula comunista dentro do Itamaraty. Após uma campanha na imprensa, ele foi afastado da chancelaria sem receber vencimentos. Só seria reintegrado em 1955, após ser absolvido pelo STF (Supremo Tribunal Federal) no ano anterior.

A formatura de alunos do Rio Branco conta todo ano com a presença do presidente e dos principais ministros do governo. A realização da edição deste ano em plena pandemia da Covid-19, no entanto, gerou polêmica, uma vez que participaram da solenidade dentro do Palácio do Itamaraty centenas de pessoas, entre diplomatas, autoridades, familiares e homenageados. Muitos não usavam máscaras.

O Sinditamaraty (Sindicato Nacional dos Servidores do Ministério de Relações Exteriores) publicou nota em que “manifesta preocupação com a organização de um evento presencial de grande porte, uma vez que os casos e as mortes por infecção da Covid-19 ainda não estão controlados no Brasil”.

Num discurso em que se queixou por ser tratado como "ideológico", Ernesto também acusou a esquerda de reduzir tudo a “conceitos como gênero e raça” e de querer promover “a ditadura do politicamente correto e da criação de órgãos de controle da verdade”.

“Todo isentão é escravo de algum marxista defunto”, disse. "Tratar os conservadores de ideológicos é o epítome da prática marxista-leninista: chame-os do que você é, acuse-os do que você faz”.

Para o chanceler, movimentos marxistas de esquerda têm a “utopia de um Brasil sem Deus”, de um povo “arrancado aos braços da sua fé cristã”, citando como exemplo protestos sociais no Chile em que manifestantes colocaram fogo em igrejas. Em outra denúncia do que chama de “estratégia marxista”, Ernesto disse que esse movimento toma preocupações legítimas em temas como o meio ambiente e mudanças climáticas e as transforma em "ismos" —no caso, ambientalismo e climatismo.

Fez alusão semelhante à Covid-19, usando o termo "covidismo". “Tomam uma doença causada por um vírus, a Covid, e tentam transformá-la num gigantesco aparato prescritivo, destinado a reformatar e a controlar todas as relações sociais e econômicas do planeta, o covidismo”.

A Covid-19 soma até o momento mais de 5,2 milhões de infectados no Brasil e 155,4 mil mortos.

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