Trump enfrenta Biden em último debate com Suprema Corte como trunfo

Encontro ocorre no dia em que comitê do Senado deve avançar para confirmar juíza ultraconservadora no tribunal

Bauru

Pesquisas que apontam a derrota de Donald Trump na eleição de novembro são como sinais de fumaça que avisam ao republicano que ele terá de tirar uma carta da manga para se manter na Casa Branca.

Fumaça, entretanto, também é sinal de fogo, e as últimas cartadas de Trump para buscar a reeleição podem não surtir o efeito desejado. Nesta quinta-feira (22), quando enfrentará o democrata Joe Biden no último debate antes do pleito, o atual presidente deve usar a confirmação de Amy Coney Barrett para uma vaga na Suprema Corte americana como trunfo político e aceno à sua base conservadora.

Como o voto nos Estados Unidos não é obrigatório, parte do trabalho dos estrategistas de campanha é convencer eleitores simpáticos a determinadas causas a votar.

O presidente Donald Trump durante comício em Carson City, no estado de Nevada
O presidente Donald Trump durante comício em Carson City, no estado de Nevada - Mandel Ngan - 18.out.20/AFP

Professor de relações internacionais da FGV-SP, Eduardo Mello diz que essa característica da política americana é particularmente importante para os republicanos que, por tradição, têm menos apoio em números absolutos, mas são mais eficientes em mobilizar as bases.

"Trump vai usar essa cartada [a confirmação de Barrett] para mostrar o quanto ele tem feito pelas causas caras aos conservadores", diz o professor. "Provavelmente, será um trunfo que vai render a ele alguns republicanos mais entusiasmados para sair de casa e votar."

Como juíza no tribunal de apelações responsável por decisões nos estados de Illinois, Indiana e Wisconsin, Barrett deixou um rastro de votos nada progressistas, principalmente em questões relacionadas a direitos civis, como a legislação sobre aborto e acesso a armas.

Segundo modelo desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Virgínia, votos da juíza no tribunal indicam que ela tem de 87% a 95% de probabilidade de tomar decisões consideradas conservadoras.

A reação pública à nomeação de Barrett reflete a polarização política dos EUA. Pesquisa do instituto Gallup divulgada na terça-feira (20) aponta que 51% dos americanos são favoráveis à confirmação da magistrada na Suprema Corte. Trata-se de porcentagem de apoio maior que a obtida por outros dois juízes conservadores indicados por Trump —Neil Gorsuch (45%) and Brett Kavanaugh (41%).

Segundo o Gallup, porém, nenhum outro indicado recebeu tanta oposição —46% dos americanos não querem que ela ocupe a cadeira que pertenceu a Ruth Bader Ginsburg, ícone progressista da Justiça americana que morreu em setembro, aos 87 anos.

Nesta quinta, o Comitê Judiciário do Senado americano deve votar a confirmação de Barrett e preparar o caminho para a nomeação final após votação em plenário na segunda-feira (26). Dez senadores democratas, entretanto, anunciaram que vão boicotar a votação com o intuito de obstruir o cronograma de aprovação.

"Não estamos dando o quórum que eles precisam. As regras exigem isso", disse à CNN o líder da minoria no Senado, Chuck Schumer.

O boicote é visto como uma resposta às críticas de membros mais progressistas do partido que acusaram os congressistas de agregarem legitimidade ao processo de indicação de Barrett.

De acordo com as regras a que Schumer se refere, pelo menos nove dos 22 membros do Comitê Judiciário devem estar presentes durante as votações, incluindo dois senadores do partido minoritário —neste caso, o Democrata.

Para legitimar a votação, entretanto, os republicanos recorreram a outra regra que se sobrepõe à do comitê. A norma diz que "nenhuma medida, assunto ou recomendação deve ser relatada por qualquer comissão, a menos que a maioria da comissão esteja fisicamente presente."

Como o partido de Donald Trump ocupa 12 das 22 cadeiras do comitê, o boicote dos democratas, segundo essa norma, não impediria o andamento da votação.

Com o Senado de maioria republicana, Barrett deve passar pela votação no plenário sem grandes dificuldades. Para Denilde Holzhacker, coordenadora no Núcleo de Estudos Americanos da ESPM, Trump não vai perder a oportunidade de transformar a aprovação em apoio político já no debate desta quinta-feira.

"A confirmação de Barrett reforça uma das linhas que ele vai defender no debate, que é o discurso de lei e ordem, a ideia de que está preocupado com a proteção da moral da sociedade", avalia a especialista.

Para Holzhacker, entretanto, o nome da juíza pode abrir espaço para que Biden questione o que essa nomeação significa em termos de impacto em políticas públicas primordiais para os americanos.

A indicada de Trump já fez críticas, por exemplo, ao Obamacare, programa responsável por ampliar a cobertura de saúde para pessoas que nunca tiveram seguro —o líder republicano tenta revogá-lo há anos. Durante o boicote desta quinta, os assentos dos democratas na comissão serão ocupados por fotos de pessoas que podem ser afetadas se a Suprema Corte, com o apoio de Barrett, derrubar o Affordable Care Act, lei que instituiu o Obamacare, em 2010.

Por mais contraintuitivo que seja, outro possível trunfo no qual Trump pode se apoiar diz respeito à pandemia de coronavírus, uma pauta que, em geral, tem sido bastante negativa para o presidente.

Nesta quinta, conselheiros do FDA, agência reguladora de medicamentos nos EUA, devem se reunir para tentar chegar a uma decisão sobre segurança e eficácia de vacinas contra a Covid-19.

Embora tenha minimizado a gravidade da pandemia desde o início e também depois de ele próprio ter sido infectado, o líder americano fez crescer a expectativa de que os americanos poderão receber a vacina antes do resto do mundo. Em entrevistas e eventos de campanha, fez promessas de que disponibilizaria milhões de doses a todos os cidadãos ainda neste ano.

O coronavírus infectou 8,3 milhões de pessoas nos EUA e causou, até esta quarta (21), mais de 221 mil mortes, colocando o país no topo de um ranking em que nenhuma nação gostaria de estar.

Se o conselho de especialistas do FDA vier a público com informações sobre quantas e quais vacinas se mostram promissoras, Trump deve tentar, na visão de Holzhacker, capitalizar alguma forma de ganho político sobre a doença que tanto minimizou. Se, por outro lado, as previsões não se encaixarem no cronograma considerado positivo para a campanha republicana, o presidente tentará evitar o assunto.

Do ponto de vista estratégico, Trump tem motivos fortes para manter a pandemia fora do debate político.

À semelhança de outros levantamentos em todo o país, uma pesquisa do Pew Research Center divulgada no início do mês indica que 57% dos americanos confiam que Biden saberia lidar com o impacto das crises causadas pelo coronavírus. O índice de credibilidade de Trump nesse aspecto é de 40%.

Apesar da quantidade de temas em jogo na reta final da campanha, os especialistas ouvidos pela Folha têm baixa expectativa sobre o debate final da disputa. Para Mello, da FGV, há pouco o que esperar e o duelo só vai servir "para animar as bases republicanas e democratas".

Segundo o professor, é evidente que os debates não são capazes de mudar drasticamente a opinião dos eleitores, inclusive por uma questão lógica, já que muitos americanos já votaram de forma antecipada.

De acordo com levantamento do U.S. Election Project, 39,8 milhões de eleitores usaram essa modalidade para participar do pleito até a terça-feira (20).

Depois de um primeiro debate caótico, com trocas de ofensas e ataques pessoais entre os candidatos, a visão de Holzhacker é de que o evento também terá pouca discussão política e muito enfrentamento.

"Trump tem mostrado que não vai mudar de posicionamento", diz. "Sobre Biden, sempre ficam as dúvidas sobre a performance dele, já que, normalmente, ele tem um desempenho mais discreto."

Ao menos, desta vez, a comissão organizadora já anunciou que desligará os microfones em momentos de interrupção e desrespeito ao tempo do adversário. A estratégia de bloquear a fala alheia inflama debates e, muitas vezes, faz o fogo virar algo crucial para políticos: cortina de fumaça.

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