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'A incapacidade moral' na América Latina

Pré-maquiavelismo dá pistas da nossa tendência ao populismo

Francisco Sánchez

Cientista político e diretor do Instituto Ibero-Americano da Universidade de Salamanca. Professor de ciências políticas, especializado em política comparativa na América Latina. Doutor em Estudos Latino-Americanos pela Universidade de Salamanca.

Latinoamérica21

O fato da presidência peruana vagar devido à "incapacidade moral" mostra que a política latino-americana é muito pré-maquiavélica. Maquiavel definiu a política a partir de sua própria dinâmica e explicou as relações de poder à margem das questões morais ou religiosas, deixando assim sem apoio, por exemplo, as ações da Igreja Católica que durante séculos administrou assuntos terrenos usando o santo nome de Deus em vão.

Para Maquiavel, o governo dos homens depende dos homens, os problemas terrenos têm soluções terrenas e a gestão do conflito para a redistribuição de recursos –a política– deve levar em conta os incentivos de indivíduos e grupos e não apenas os grandes imperativos morais.

Líderes com formação moralista como Hugo Chávez, o pastor evangélico Morales na Guatemala, López Obrador e sua visão de mundo guadalupana, ou presidentes como Correa e Bukele com tendências autoritárias apresentadas como "justiça", frequentemente abordam questões de política pública, como a pobreza ou a desigualdade, de um ponto de vista moral.

Para eles, não se trata de um problema redistributivo que se resolve com políticas públicas, medidas fiscais e tributárias, mas sim a "luta" contra uma consequência da ambição e da falta de sentimentos solidários e patrióticos dos ricos.

Na linha de governar a partir do moralismo, é possível recomendar santinhos religiosos contra a Covid, justificar uma ação a conselho de Deus, se opor ao aborto em casos de violação ou transformar as políticas públicas em "missões", como se fossem áreas de evangelização.

Mas o maior perigo da política como um bem moral é que os benefícios que uma pessoa recebe do Estado não são considerados algo consubstancial aos seus direitos como cidadão, mas se transformam em uma recompensa por pertencer ao povo –à comunidade moral– e, pior ainda, por desfrutar do favor do líder ou da elite.

O pré-maquiavelismo também dá pistas da nossa tendência ao populismo. Mesmo que eles queiram nos convencer de que é uma prática que incorpora os setores populares à democracia –dando por perdida a possibilidade de que sejamos cidadãos homologáveis aos de outras democracias–, não deixa de ser uma forma de entender a política como enfrentamento maniqueísta entre o povo, como a encarnação do bem, e o antipovo que representa o mal, enquanto a solução para os problemas desse povo passa pela ação salvadora de um líder. A moralidade é binária, o bem contra o mal, enquanto a política democrática é, por definição, pluralista.

Outro exemplo de moralismo político é o da corrupção. Qualquer pessoa que se volta para qualquer legislatura latino-americana ou abre as páginas de qualquer jornal ficará surpreso ao ver como as pessoas sobre as quais existem provas claras de que elas ou as suas são corruptas concentram seus argumentos políticos na necessidade de "combater" a corrupção. Se trata de um cinismo que não surpreende tanto quanto o argumento que funciona e consegue mobilizar apoiadores.

Embora seja uma questão que todos dizem ser contra e que até mesmo estimula grandes mobilizações de protesto, os dados da pesquisa refletem atitudes ambivalentes por parte dos cidadãos, mostrando uma certa tolerância, algo que se reflete claramente quando candidatos ou partidos corruptos não são sancionados através de votos.

Minha hipótese é que a corrupção não é sancionada porque não é tratada como um fato objetivo, ou seja, é ruim quando "os outros" infringem, se apropriando do que é público, mas quando os corruptos são "meus" surge uma espécie de direito patrimonial que a justifica de várias maneiras: como um fato menor e isolado cometido por uma "maçã podre"; como resultado da perseguição dos meios de comunicação que agem como "sicários de tinta" (Rafael Correa dixit); como um fato menor a ser removido em nome dos interesses populares sagrados que só são garantidos se os "meus" governarem; ou para impedir que "os outros", ainda mais corruptos, venham. No fundo, a corrupção não sanciona, ela mobiliza.

Além disso, a política como uma luta entre o bem e o mal outorga uma espécie de superioridade moral que funciona como uma indulgência, eliminando a possibilidade de crítica ou responsabilização dos líderes: um dos fundamentos dos sistemas democráticos. Assim como os padres pregavam a pobreza sem serem julgados por viverem como os ricos, é permitido aos líderes que encarnam "o povo" serem inconsistentes e inconsequentes.

Entre os muitos exemplos, lembre-se que enquanto os jovens peronistas matavam e morriam em nome da revolução de esquerda, o General e seus poodles viviam no luxo em Madri sob a proteção do ditador Franco. Também o ex-presidente Abdalá Bucarán, que fez da luta contra a oligarquia sua plataforma, vivia como um homem rico. Quando um jornalista lhe mostrou esta contradição, ele respondeu que a riqueza nada tinha a ver com isso, que a oligarquia é um estado da alma.

Talvez as coisas sejam mais complexas e aqueles de nós que olham para a política a partir da racionalidade do Iluminismo e da ética –não do dever de ser moral– não entendem a essência do nacional popular e dessas dimensões espirituais.

Tradução por Maria Isabel Santos Lima

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