Descrição de chapéu Eleições EUA 2020

Ao assumir liderança em Geórgia e Pensilvânia, Biden fica cada vez mais perto da vitória

Vencer em estado do Cinturão da Ferrugem cravaria mais de 270 votos no Colégio Eleitoral ao democrata

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Wilmington (Delaware)

O candidato democrata à Casa Branca, Joe Biden, ultrapassou Donald Trump em número de votos na Pensilvânia e na Geórgia, dois dos estados mais simbólicos e decisivos para a disputa, e ficou ainda mais próximo da vitória nesta sexta-feira (6).

Na outra ponta do tabuleiro, o atual presidente segue com sua cruzada judicial para contestar os resultados e atacar a democracia e o sistema eleitoral dos EUA.

Funcionário eleitorais no Philadelphia Convention Center, local de contagem de votos, na Filadélfia, no estado da Pensilvânia
Funcionários eleitorais no Philadelphia Convention Center, local de contagem de votos, na Filadélfia, no estado da Pensilvânia - Chris McGrath/Getty Images/AFP

O republicano já entrou com ações em quatro estados —Geórgia, Pensilvânia, Michigan e Wisconsin— para questionar ou rever a apuração, mas não tem obtido sucesso na maioria deles.

Conforme a vitória ficava mais próxima, Biden anunciou que faria um discurso na noite desta sexta, mas não estava claro se, na falta de um resultado oficial, o democrata desmarcaria o pronunciamento público.

No fim da noite, após muita expectativa, ele enfim discursou rapidamente. “Não temos uma declaração de vitória ainda, mas os números mostram uma trajetória clara e convincente”, disse Biden, citando os estados de Geórgia, Pensilvânia, Arizona e Nevada, nos quais ele tomou a dianteira após a contagem dos votos desta sexta.

Ele afirmou que que a democracia americana funciona e que não vai deixar a apuração parar por mais que as pessoas tentem. "Seus votos serão contados."

"Nós estamos provando de novo o que provamos por 244 anos, essa democracia funciona [...] Eu não ligo quão duro as pessoas tentem parar [a contagem]. Eu não vou deixar acontecer. As pessoas serão ouvidas."

Os EUA não têm um órgão eleitoral centralizado, e os anúncios dos vencedores são feitos pela imprensa.

Não é necessário, porém, que 100% das urnas sejam apuradas para que o ganhador seja declarado em cada estado, já que é possível estimar o momento em que uma virada se torna impossível a partir de projeções com base em pesquisas de intenção de voto, histórico de pleitos anteriores e demografia.

Até o fim da tarde desta sexta, estavam indefinidos: Alasca e Carolina do Norte, com Trump na liderança, além de Arizona, Geórgia, Nevada e Pensilvânia, onde Biden estava na frente.

A Pensilvânia tem 20 dos 270 votos de que o candidato precisa no Colégio Eleitoral para vencer, a maior representatividade entre os seis estados ainda sem resultado definido.

Já a Geórgia, reduto republicano no Sul do país, não vota em um democrata desde 1992, quando Bill Clinton foi eleito pela primeira vez. A diferença neste ano é tão apertada —cerca de 1.500 votos a favor de Biden, com 98% das urnas apuradas— que o secretário do estado disse que a recontagem seria inevitável.

Neste momento, o candidato democrata soma 253 votos no Colégio Eleitoral ante 214 de Trump, o que significa que o ex-vice não precisa do resultado da Geórgia para confirmar a vitória. Basta a projeção de vitória na Pensilvânia para que Biden seja declarado presidente eleito.

Conforme o cenário se desenhava, a Administração Federal de Aviação dos EUA chegou a fechar o espaço aéreo sobre a casa de Biden, em Wilmington, no estado de Delaware. O acesso via terrestre à casa do candidato, por sua vez, já estava restrito havia vários dias.​

Devido à pandemia, as eleições nos EUA tiveram número recorde de votos de forma antecipada, principalmente por correio, o que atrasou a apuração. Diante de tantos impasses, a OEA (Organização dos Estados Americanos) divulgou um relatório nesta sexta com a recomendação para que os EUA criem órgãos para centralizar a apuração, como é feito no Brasil.

A organização, crucial para o cancelamento do pleito na Bolívia, em 2019, que teria reeleito Evo Morales, afirmou não ter observado "diretamente nenhuma irregularidade grave" na votação americana e pediu aos candidatos que evitem "especulações nocivas", numa referência ao atual presidente dos EUA.

Trump aproveita a demora na apuração para alegar que o voto por correio, prática comum nos EUA, com índices baixíssimos de irregularidades, gera fraudes. Sem provas, o presidente chama de ilegais as cédulas enviadas por correspondência.

As cédulas enviadas pelo sistema postal são usadas na maioria das vezes por democratas e, neste ano, foram decisivas conforme entraram na contagem na Pensilvânia e na Geórgia, por exemplo.

Para Biden, a conquista dos dois estados —se confirmadas com a projeção do primeiro e a recontagem do segundo— não significa apenas a chancela de sua vitória, mas o sucesso de dois de seus principais objetivos de campanha: recuperar o chamado Cinturão da Ferrugem, no Meio-Oeste americano, e abrir espaço em estados do Sul, que eram redutos republicanos, mas, nos últimos anos, têm sofrido mudanças demográficas que empurram as regiões mais à esquerda.

Além da Pensilvânia, Biden venceu em Michigan e Wisconsin, três estados do Meio-Oeste que haviam dado a vitória a Trump em 2016 por margem apertada, depois de votarem duas vezes em Barack Obama.

Biden tentou cristalizar um amplo arco anti-Trump em torno de sua candidatura, mas, de acordo com os números iniciais, foi pouco além dos próprios eleitores democratas. Mobilizou mais jovens e negros —uma vantagem em relação a Hillary Clinton, em 2016—, mas não conquistou uma fatia massiva dos independentes e foi mal entre eleitores latinos, que costumam votar em democratas.

O presidente, por sua vez, conseguiu ampliar os votos entre grupos como latinos e negros.

Trump liderou quase todo o tempo a apuração na Geórgia, mas, na manhã desta sexta, Biden virou o jogo com margem pequena, principalmente devido às cédulas por correio que chegaram da região de Atlanta, mais diversa e progressista. Na Geórgia, 32% da população é de pessoas negras, e Biden aposta na vitória sob o impacto da agressividade de Trump diante dos protestos antirracismo no país.​

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