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Atentado no Irã é lembrete para Biden sobre uma crise ainda sem solução

Morte de cientista nuclear, provavelmente obra de Israel, entrega cenário turbulento para democrata

São Paulo

O atentado que matou Mohsen Fakhrizadeh, o principal cientista nuclear do Irã, é um lembrete para o democrata Joe Biden de que a crise inconclusa entre o país do Oriente Médio e os EUA não poderá esperar muito para ser tratada pelo novo presidente americano.

Fakhrizadeh era uma das mais elusivas figuras da comunidade de cientistas atômicos iranianos, dedicada desde sempre ao propósito público de dar autonomia na área ao país, enquanto de quebra uma bomba era produzida.

Imagem da TV iraniana mostra o carro de Mohsen Fakhrizadeh após o ataque perto de Teerã
Imagem da TV iraniana mostra o carro de Mohsen Fakhrizadeh após o ataque perto de Teerã - IRIB/via AFP

Ele foi assim identificado em 2011 pela Agência Internacional de Energia Nuclear, que tentou por diversas vezes conversar com o cientista, sem sucesso.

Os serviços secretos de Israel, que provavelmente estão por trás do assassinato, e dos EUA tinham chegado à mesma conclusão ainda antes.

Tel Aviv já havia sido apontada como responsável por outras mortes de cientistas do programa nuclear iraniano, que naturalmente Teerã diz ter apenas fins pacíficos.

Fakhrizadeh não era, contudo, um oficial intermediário do esquema. Ele era o cabeça, com ranking de general na Guarda Revolucionária, os pretorianos do regime dos aiatolás.

Assim, o ano começa e termina com um atentado contra uma figura de proa do país. Em janeiro, os EUA mataram em Bagdá o principal general iraniano, Qassim Suleimani, o responsável por toda a estratégia regional de Teerã.

A escalada daquela crise levou os dois países à beira da guerra, com um antes impensável ataque de forças iranianas a uma base americana no Iraque. Antes que as coisas saíssem de controle, ficou por isso, e os dois lados se disseram vitoriosos.

Não foram. O que houve foi uma pausa, seguida pela emergência sanitária mundial da pandemia, que colocou muita água fria na fervura, mas o fogo não desapareceu.

O centro do debate é justamente o programa nuclear do país persa. Em 2015, o então presidente Barack Obama costurou um acordo, com outros países ocidentais e a Rússia, para colocar um freio nas pretensões de Teerã.

Em troca da pausa, o fim de sanções que engasgavam a frágil economia do Irã. Críticos do acordo, Israel à frente, sempre apontaram para o fato de que o arranjo era mambembe e permitiria a volta dos trabalhos na bomba a qualquer momento.

Quando assumiu em 2017, Donald Trump tornou a política israelense lei e aumentou a aposta, saindo do acordo no ano seguinte. As tensões foram sendo administradas até a execução de Suleimani, e a partir de outubro o republicano abriu espaço para mais confronto com polêmicas manobras diplomáticas nas Nações Unidas.

Só que Trump foi derrotado por Biden, e a batata quente está com o democrata. Ele, que já havia defendido a volta ao acordo de Obama, de quem foi vice por oito anos, terá de enfrentar uma Teerã muito mais agressiva.

Não só pela morte do cientista nuclear, mas também pelo novo contexto geopolítico no Oriente Médio.

Único legado palpável de Trump na área externa, os acordos que ele patrocinou entre países árabes e Israel agora em posição de força têm um objetivo central: cercar o Irã com inimigos que antes estavam desunidos.

O movimento mais vistoso aconteceu nesta semana, quando o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, encontrou-se secretamente com o príncipe herdeiro e regente de fato da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman.

Israel vazou a reunião, enquanto os sauditas tentaram negá-la após uma confirmação extraoficial. Para o reino desértico e cheio de petróleo, o problema é a realidade de que a monarquia de MbS, como o príncipe é conhecido, rifou os palestinos na sua disputa com Tel Aviv.

Riad é o centro do ramo majoritário do muçulmanismo, o sunismo, prevalente em países árabes exceto o Iraque. O segmento minoritário, o xiismo, tem aderentes no mundo todo, mas seu ponto focal é o Irã.

A disputa sectária é também econômica, acerca do controle do golfo Pérsico —loteado pela Arábia Saudita e as monarquias petrolíferas numa margem, e o Irã, do outro lado do mar.

Emirados Árabes Unidos e Barhein, onde há uma forte repressão à minoria xiita pelo governo sunita, assinaram acordos de normalização de relações com Israel —algo que não ocorria desde os anos 1990. O Sudão, país árabe do norte africano, também o fez.

Assim, Biden terá de equilibrar-se entre promessas de abertura e uma postura muito mais assertiva de Israel ante o Irã. Incidentes como a morte do cientista só tendem a deixar o ambiente mais volátil.

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