Descrição de chapéu The New York Times

Liderança de Biden na Geórgia joga holofotes sobre ações de Stacey Abrams

Ativista política fez campanha para retirar barreiras que impediam votação de pessoas mais pobres

The New York Times

Stacey Abrams, que foi um dos nomes de uma lista de potenciais candidatas democratas à vice-presidência, acabou não sendo escolhida por Joe Biden. Mas na sexta-feira, quando Biden assumiu a dianteira estreita na contagem dos votos na Georgia, foi ela quem foi elogiada, num reconhecimento de sua ascensão notável como influenciadora política desde sua candidatura fracassada ao governo desse estado, dois anos atrás.

Celebridades, ativistas e eleitores do estado elogiaram Abrams por ter superado sua derrota –ela chegou a 55 mil votos de distância da mansão do governador—e construído uma rede bem financiada de organizações que chamaram a atenção para a supressão de eleitores na Georgia e inspiraram estimados 800 mil moradores do estado a registrar-se para votar.

Stacey Abrams, durante comício para estimular as pessoas a votar, em Atlanta - Elijah Nouvelage - 2.nov.20/AFP

“É preciso construir a infraestrutura para organizar e motivar sua base. É preciso persuadir as pessoas”, comentou Jason Carter, candidato democrata ao governo da Georgia em 2014. “Stacey construiu essa infraestrutura. A presidência de Donald Trump energizou essa infraestrutura e mobilizou eleitores que antes não estavam mobilizados, especialmente residentes dos subúrbios.”

Biden passou à frente de Trump na Georgia, estado que não elege um candidato presidencial democrata há quase três décadas, e conservou uma dianteira estreita ao longo da sexta-feira (6). Na noite da sexta, com mais de 98% dos votos contados, ele tinha uma vantagem de 4.100 votos sobre Trump. Pelo fato de a margem ser tão pequena, o secretário de Estado da Georgia confirmou que haverá uma recontagem dos votos.

Mesmo assim, os democratas no estado estavam exultantes.

A senadora da Georgia Jen Jordan, democrata, disse que Abrams aprendeu com sua derrota, reconhecendo o crescimento populacional da Georgia e sua composição demográfica cada vez mais diversa como uma oportunidade para os democratas.

“Ela previu o que estava por vir”, disse Jordan em entrevista na sexta-feira. “Os dados estavam ali para quem quisesse olhar. O problema era que ninguém estava realmente disposto a analisar os dados.”

Ao chamar a atenção às possibilidades na Georgia, prosseguiu Jordan, Abrams atraiu dinheiro para o estado e o usou para fortalecer políticos democratas. A organização também distribuiu dinheiro ao Partido Democrata em outros estados, especialmente no Sul.

Entre os doadores às organizações fomentadas por Abrams estão sindicatos de trabalhadores e o ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg.

“Abrams realmente chamou a atenção do país para a Georgia, convenceu as pessoas que precisavam ser convencidas que havia espaço aqui, que havia eleitores aqui e que este lugar era realmente competitivo. Bastaria as pessoas investirem tempo, dinheiro e esforço para isso”, disse Jordan.

Stacey Abrams lutou arduamente em 2018. Quando perdeu a eleição, recusou-se a reconhecer sua derrota. Seu adversário, Brian Kemp, era na época o secretário de Estado da Georgia, o funcionário eleitoral chefe do estado, e passara anos agressivamente expurgando os cadastros de eleitores do estado e combatendo organizações de direitos civis para limitar o acesso de eleitores às urnas. Ainda restam suspeitas em torno da eleição.

Nikema Williams, presidente do Partido Democrata na Georgia que na terça-feira (3) emergiu como vitoriosa na disputa para assumir o lugar de John Lewis no Congresso, comentou: “Pessoalmente, penso que ela seria nossa governadora, não fosse pelas táticas desenfreadas de supressão de eleitores empregadas no estado. O trabalho dela para organizar as pessoas na base, em conjunção com outras organizações progressistas, foi crucial para a construção da infraestrutura neste estado.”

Stacey Abrams se recusou a comentar na sexta-feira. Mas escreveu no Twitter: “Meu coração está pleno”. E citou o trabalho de outros ativistas. “Georgia, vamos gritar a plenos pulmões os nomes de quem esteve nas trincheiras e merece os aplausos pela transformação”.

Se Joe Biden conservar sua dianteira estreita na Georgia, é provável que o perfil de Abrams suba.

Jason Carter, neto do ex-presidente Jimmy Carter que perdeu por oito pontos percentuais, disse que os democratas haviam atingido o “teto partidário” no estado. Porém, “desde 2014, os esforços de Stacey e de outros elevaram esse teto partidário”, ampliando a base democratas entre eleitores jovens, não brancos e moradores de subúrbios.

Depois de sua derrota em 2018, Abrams descreveu aquela eleição como tendo sido mesmo assim uma espécie de vitória, porque ela recebera mais votos que qualquer outro democrata na história da Georgia. Mas admitiu que a derrota foi sofrida, dizendo a um entrevistador que passou dez dias “observando o shivá”, numa alusão ao ritual judaico de luto.

Depois disso ela passou a construir a rede de organizações que acabou virando uma força enorme e bem financiada em prol dos direitos ao voto e do progresso econômico. Enquanto alguns políticos da direita a criticam como figura divisiva e dizem que seu perfil crescente não é bem visto em todos os círculos políticos negros do estado, o consenso geral é que ela levou mais eleitores às urnas, especialmente eleitores negros.

Além de levantar fundos para uma iniciativa de proteção de eleitores, a organização de Abrams vem dando assistência a candidatos democratas ao Legislativo estadual cujas campanhas estiveram por muito tempo baseadas em distritos legislativos traçados por republicanos.

Ex-líder da minoria na Câmara de Deputados da Georgia, Abrams fundou o Projeto Nova Georgia quando ainda era deputada. A entidade sem fins lucrativos cadastrou cerca de 100 mil novos eleitores. Ela então fundou a organização Fair Fight Action (Ação por uma Luta Justa), voltada a combater a supressão de eleitores.

Sua rede, sediada em Atlanta, se ampliou e diversificou desde então, passando a incluir o Fair Fight PAC, um supercomitê de ação política que arrecadou mais de US$ 33 milhões (R$ 173 milhões na cotação atual) neste ciclo eleitoral.

Há também o Fair Count, que promove o censo, e o Southern Economic Advancement Project (Projeto para o Avanço Econômico do Sul), organização cuja missão é ampliar o poder econômico e fomentar um futuro mais equitativo para as comunidades subatendidas.

O trabalho de sua organização contra a supressão de eleitores ganhou urgência adicional com sua derrota, dois anos atrás, e suas alegações de que a supressão de eleitores teve um papel nela. Desde então, a Fair Fight é a querelante principal em uma ação judicial federal movida contra o secretário de Estado da Georgia, em um esforço para ampliar o acesso ao voto.

A ação quer combater os expurgos de eleitores no estado, o uso de comparações exatas de assinaturas, o modo como o estado lida com cédulas de voto provisórias e a mudança de local dos centros de votação. No ano passado, diante da pressão legal exercida pela organização, a Georgia reintegrou 22 mil eleitores que havia expurgado.

Tradução de Clara Allain

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