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Eleições EUA 2020

Conspiração da 'eleição roubada' deve manter base de Trump mobilizada

Enroscos judiciais, no entanto, podem ser obstáculo para republicano ser presidente-sombra

São Paulo

Quem se apressar em escrever o obituário político de Donald Trump corre o risco de quebrar a cara. Não houve rechaço ao trumpismo —pelo contrário.

Apesar de ter perdido a eleição, Trump teve ao menos 70 milhões de votos, a segunda maior votação da história dos Estados Unidos. Só perdeu para seu rival democrata, Joe Biden, e ficou à frente até de Barack Obama na eleição histórica de 2008.

Republicanos devem aumentar o número de assentos na Câmara e detiveram um avanço maior dos democratas no Senado —o controle da casa só será determinado em janeiro, depois do segundo turno das eleições para duas vagas da Geórgia no Senado.

O presidente americano, Donald Trump, joga golfe na Virgínia, neste sábado
O presidente americano, Donald Trump, joga golfe na Virgínia, neste sábado - Olivier Douliery/AFP

O trumpismo veio para ficar. Com sua estratégia midiático-populista, Trump conseguiu conquistar uma faixa do eleitorado que se sentia esnobada pelos republicanos da velha guarda, defensores do livre comércio, globalização e exportação da democracia.

O Partido Republicano ganhou a classe trabalhadora, os brancos sem ensino superior. Em 2020, ampliou seu apelo e cativou homens negros e hispânicos da mesma faixa, além de continuar avançando em cidades pequenas e médias. A depender da exatidão das pesquisas de boca de urna, Trump foi o republicano que obteve uma das maiores votações entre não brancos.

A política do ressentimento —contra a China, contra os latinos, contra os progressistas— continua a ter grande eco entre os chamados órfãos da globalização, que viram seus empregos e sua renda minguarem com o avanço do livre comércio e a migração de fábricas e empregos para China e México.

Para um ex-alto funcionário do atual governo, que falou à Folha sob condição de anonimato, não há como os republicanos abrirem mão da espetacularização da política que veio com Trump, uma vez que ele democratizou a sigla entre pessoas de classe média baixa, alargando a base da legenda.

Já o papel de Trump após a eleição depende de vários fatores, a começar por sua saída de cena. Continuar esperneando que a eleição foi roubada ajuda ou atrapalha?

A mídia conservadora americana, que atuou como torcida organizada nos últimos quatro anos, tem deixado claro que não vai acompanhar o republicano em uma longa e quixotesca contestação da eleição. Com a bênção do dono, Rupert Murdoch, Fox News, New York Post e The Wall Street Journal desertaram.

“O legado de Trump se tornará ainda mais significativo se ele se concentrar em deixar o país seguir em frente. Assim, o amor e o respeito de seus apoiadores só vão aumentar, e seu legado será historicamente mais significativo”, disse Laura Ingraham, âncora da Fox e membro da tropa de choque trumpista.

Manifestante pró-Trump segura cartaz protestando contra "fraude nas cédulas eleitorais" em Los Angeles, dia 6 de novembro.
Manifestante pró-Trump segura cartaz contra 'fraude nas cédulas eleitorais' em Los Angeles - Robyn Beck - 6.nov.20/AFP

O tabloide New York Post, que publicou as reportagens sobre mensagens que teriam sido obtidas de um computador de Hunter Biden, filho de Biden, e chegou a chamar Trump de “herói invencível, que sobreviveu não apenas aos golpes sujos dos democratas mas também ao vírus chinês”, passou a falar sobre “acusações infundadas de que opositores estão tentando roubar na eleição”.

O Wall Street Journal, bíblia do establishment republicano, disse que “o legado de Trump vai encolher muito se o ato final for rejeitar de forma amarga uma derrota legítima”.

Alguns políticos republicanos também sinalizaram que não pretendem embarcar no chilique de Trump. O senador republicano Pat Toomey, da Pensilvânia, afirmou que o presidente havia feito “acusações muito sérias sem nenhuma prova”. “Não soube de nenhuma fraude ou irregularidade significativa.”

O senador Mitt Romney, que já havia votado a favor do impeachment de Trump, disse que “é errado dizer que uma eleição foi fraudada, corrupta ou roubada”.

Mas a maioria dos políticos republicanos fez apenas declarações anódinas sobre a importância de contar os votos e não haver fraudes. E muitos entenderam o recado de Donald Trump Jr., que publicou no Twitter que haverá consequências para os presidenciáveis de 2024 que não se manifestarem contra a “fraude”.

Aliados mais fiéis, como Josh Hawley, Tom Cotton, Nikki Haley, Lindsey Graham, Mike Pompeo e Kevin McCarthy, acusaram a roubalheira na eleição e convocaram doações de recursos para pagar os advogados que lideram as contestações judiciais em vários estados.

Por isso, o ex-integrante do governo Trump afirma que a ala tradicionalista do partido seguirá minoritária. Ou seja, a ala QAnon trumpista, em referência à teoria conspiratória, continuará mais numerosa.

O fato é que não houve desgaste da marca Trump. A aprovação dele entre republicanos continua em cerca de 90%. O atual presidente perdeu de Biden porque, entre outros motivos, houve um aumento sem precedentes do comparecimento na eleição, que deve ficar em 66%, mais alto desde 1908.

Trump obteve ganhos na votação, mas Biden simplesmente teve um acréscimo ainda maior.

O republicano compensou a perda entre mães de subúrbios —que nos EUA são áreas nobres— e brancos com diploma com avanços sobre o eleitorado hispânico, principalmente cubano-americanos e venezuelano-americanos na Flórida e mexicano-americanos no Texas, além de reforços em seu eleitorado branco da classe trabalhadora e das cidades pequenas e médias.

“O trumpismo aumentou o comparecimento em cidades pequenas dos EUA. Os republicanos ganharam nas cidades pequenas e médias como nunca tinham vencido, e obviamente perderam nas metrópoles”, diz Mauricio Moura, pesquisador da Universidade George Washington e fundador da Ideia Big Data.

“Para os democratas, o problema é geográfico, eles vão ter que se reconciliar com a América Profunda."

Já Biden conseguiu expandir mais o eleitorado democrata com voto maciço de jovens e pessoas com ensino superior. Também garantiu estados com alto comparecimento de eleitores negros. A forma de os partidos equacionarem essas questões demográficas e geográficas vai orientar as próximas eleições.

De qualquer maneira, os problemas que permitiram a ascensão do trumpismo —desigualdade e falta de acesso a educação— não vão desaparecer, e o apelo vai se manter. O trumpismo não nasceu com Trump.

Tem raízes no Tea Party, movimento populista do Partido Republicano que surgiu na esteira da crise financeira de 2008 e empurrou a legenda para mais longe de suas convicções reaganescas.

Trump apenas o potencializou e acrescentou o poder de sua marca e da Presidência-espetáculo.

“Se não há um caminho para obter um segundo mandato, não significa o fim do movimento ‘América em primeiro lugar’ ou do papel de Trump liderando esse movimento. Pelo contrário, é só o começo. No momento, é hora de contabilizar nossos ganhos, aprender com nossas derrotas e expandir um dos maiores movimentos politicos dos últimos cem anos”, disse Ingraham, a âncora da Fox.

Não se sabe exatamente como Trump vai liderar o trumpismo de fora da Casa Branca. Certamente, não é de seu feitio ficar longe dos holofotes, e ele pode ter a ambição de atuar como um presidente-sombra.

Dependerá, em primeiro lugar, do andamento de seus inúmeros enroscos judiciais. Ele enfrenta investigações por potenciais violações de leis de financiamento de campanha, sonegação de impostos e conflito de interesses por uso do cargo para obter vantagens.

Enquanto presidente, com os republicanos no controle do Senado, era fácil conter o avanço de investigações. Em um governo Biden, com democratas espumando de ódio por terem a legitimidade de sua vitória contestada, haverá bem menos boa vontade.

Se superar esses obstáculos jurídicos, Trump pode arquitetar uma volta por cima, a narrativa preferida dos americanos. Ele pode usar a versão da "roubalheira na eleição" para se manter nos holofotes e convencer apoiadores de que não havia nada errado com seu governo e candidatura.

Pode se tornar um mártir da direita —uma vítima da mídia, do Estado profundo, dos progressistas, da esquerda e da China, que não perdeu a eleição, foi trapaceado. Rei da narrativa, pode até se candidatar em 2024, ou ser padrinho de um candidato. Alguém duvida que seria o favorito nas primárias do partido?

Faz todo o sentido, para um político que ganhou proeminência espalhando a teoria da conspiração birther, de que Obama era um presidente ilegítimo por não ter nascido nos EUA, voltar ao poder disseminando outra narrativa falsa, a de que Biden é um presidente ilegítimo.

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