Em livro, Obama fala sobre o pânico que emergiu nos EUA como reação a primeiro presidente negro

Em memórias publicadas nesta terça, ex-presidente faz observações pouco gentis sobre Lula e Putin

São Paulo

Poucos dias após a eleição de Barack Obama em 2008, o presidente George W. Bush ligou para cumprimentar o democrata pela vitória histórica.

Fosse “pelo respeito que ele tinha pela instituição” ou por “decência pura e simples”, Bush fez de tudo para ajudar Obama na transição, e as filhas do republicano chegaram a reorganizar sua agenda para levar as filhas de Obama em um tour pelas “partes divertidas” da Casa Branca.

Quando o ex-presidente Obama descreve em seu novo livro a civilidade com que Bush o ajudou na transição, é inevitável não pensar nas atitudes do atual mandatário americano, Donald Trump, que se recusa a admitir a derrota na eleição e atrapalha a transição para o presidente eleito Joe Biden.

Obama abraça a mulher, Michelle, na Casa Branca - Pete Souza - 20.mar.09/Casa Branca

Mas o livro “Uma Terra Prometida”, que será publicado nesta terça-feira (17) no Brasil pela Companhia das Letras, mostra que o populismo de direita que envenenou o cenário político americano, calcado em xenofobia, racismo e nacionalismo, começou a tomar conta do Partido Republicano já naquela época.

Obama afirma que era como se a simples presença do primeiro presidente negro na Casa Branca tivesse desencadeado um pânico, uma sensação de que a ordem natural das coisas havia sido subvertida.

Candidatos republicanos adotaram o ressentimento como tema central, assim como a Fox News e os bilionários irmãos Koch, patrocinadores de causas conservadoras.

Segundo Obama, o mote era: “O governo estava tomando dinheiro, empregos, vagas em faculdades e status social de gente trabalhadora e merecedora como nós e entregando a eles —os que não compartilham de nossos valores, que não trabalhavam tanto quanto nós...”.

Trump entendeu cedo que poderia se aproveitar desse ressentimento para se alavancar na política americana. Ele passou a espalhar a teoria da conspiração birther, de que Obama não teria nascido nos EUA, mas sim no Quênia, e, portanto, não poderia ser presidente dos EUA.

O que começou como uma piada que Obama não levava a sério ganhou tração. Pesquisas mostravam que 40% dos americanos estavam convencidos de que Obama não havia nascido nos EUA. “Aos milhões de americanos que se sentiam ameaçados por um negro na Casa Branca, ele [Trump] prometeu um elixir para sua ansiedade de fundo racial”, diz Obama.

O livro abrange a infância e o início da carreira política, com as eleições ao senado estadual e nacional, passando por sua vitória histórica em 2008 e os dissabores no governo, em que teve suas iniciativas constantemente bloqueadas pelo Congresso dominado por republicanos a partir de 2010.

Aborda a criação do Obamacare, uma tentativa de aumentar o acesso dos americanos ao sistema de saúde, a guerra no Afeganistão, o estímulo econômico, e termina com a operação que levou à morte de Osama bin Laden, líder do grupo extremista Al Qaeda.

Obama escreveu o livro à mão, em blocos de folhas amarelas —“Acho que o computador dá um falso brilho até mesmo a meus rascunhos mais preliminares, além de emprestar a pensamentos simplórios uma aparência de coisa acabada”.

Após deixar o governo, ele e a primeira-dama Michelle assinaram um contrato de US$ 65 milhões com a Penguin Random House para publicar suas memórias. “Minha História”, de Michele, saiu em 2018 e já teve mais de 8 milhões de exemplares vendidos no Canadá e nos EUA.

Já as memórias de Obama não saíram como planejado, como ele admite —a ideia era escrever um volume de 500 páginas, em um ano. A obra atrasou alguns anos e serão dois volumes. Episódios polêmicos de sua gestão, como o uso de drones para atacar no Afeganistão, política de imigração com recorde de deportações e a espionagem da Agência Nacional de Segurança devem ficar para o próximo volume.

Obama discorre sobre a ascensão da política tóxica atualmente em vigor com o fortalecimento do movimento Tea Party, que acabaria sequestrando o Partido Republicano. Um de seus maiores símbolos foi Sarah Palin, a ex-governadora do Alasca escolhida para vice do republicano John McCain em 2008.

“Através de Palin, os espíritos sinistros que havia tempos espreitavam das margens do moderno Partido Republicano —teorias conspiratórias e antipatia por pessoas negras e de pele escura— pareciam conseguir avançar para o centro do palco”, relembra Obama.

Ele fala sobre seu rival na eleição de 2008, McCain, como um remanescente de uma era perdida, em que republicanos e democratas cooperavam. “Jamais o vi exibir o nativismo de matiz racial que costumava afetar outros republicanos, e em mais de uma ocasião o vi demonstrar coragem política genuína.”

O então presidente Barack Obama e o vice, Joe Biden, conversam dentro do carro, em 2010.
O então presidente Barack Obama e o vice, Joe Biden, conversam no carro - Pete Souza - 21.ju.10/Casa Branca

O democrata ainda aborda o processo de escolha de Biden para a vaga de vice em sua chapa.

Obama precisava de alguém mais velho e experiente para amenizar a desconfiança que despertava a candidatura presidencial de um senador com apenas dois anos de mandato. “O mais importante, porém, era o que os meus instintos me diziam —que Joe era decente, honesto e leal. Eu acreditava que ele se importava com as pessoas comuns e que, numa situação difícil, seria alguém confiável. E eu estava certo.”

Durante o governo, diversas vezes, Biden deu opiniões sinceras e divergentes da equipe de Obama, como no episódio em que se opôs à pressão dos militares para enviar mais tropas ao Afeganistão.

A obra é muito bem escrita, como seus livros anteriores, “Dreams from my Father”, de 1995, e “A Audácia da Esperança”, de 2006. Um dos trunfos do livro é oferecer uma visão privilegiada dos bastidores e de opiniões do ex-presidente americano sobre acontecimentos e figuras públicas para, assim, comparar com a maneira com que eles eram retratados pela mídia e pelos próprios políticos, à época.

Em uma cúpula do G20 em abril de 2009, em Londres, Obama chegou a dizer que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva era “o cara” e “o político mais popular da Terra”.

No livro, o ex-presidente americano reserva palavras bem menos gentis para o brasileiro. O democrata começa dizendo que Lula havia causado “boa impressão” em reunião no Salão Oval da Casa Branca naquele ano e descreve o petista como “ex-líder sindical grisalho e cativante” que “tinha iniciado uma série de reformas pragmáticas que fizeram as taxas de crescimento do Brasil dispararem, ampliando sua classe média e assegurando moradia e educação para milhões de cidadãos mais pobres”.

Mas conclui apontando para relatos sobre corrupção no governo e falta de escrúpulos de Lula.

“Constava também que tinha os escrúpulos de um chefão do Tammany Hall [organização política fundada no fim do século 18 e associada a corrupção e abuso do poder de meados do 19 até início do 20 em Nova York, com forte influência no braço local do Partido Democrata], e circulavam boatos de clientelismo governamental, negócios por baixo do pano e propinas na casa dos bilhões”, diz.

Ele deixa claro quem era seu líder dos Brics (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) favorito: Manmohan Singh, então premiê da Índia, “sábio, compassivo e escrupulosamente honesto”.

Já o autocrata russo Vladimir Putin recebe adjetivos bem semelhantes aos dedicados a Lula: é descrito como aqueles chefões do Tammany Hall, que “consideravam os apadrinhamentos, as propinas, as extorsões, as fraudes e os ocasionais atos de violência ferramentas legítimas do ofício”.

A chanceler alemã, Angela Merkel, é uma “mistura de capacidade de organização, sagacidade estratégica e paciência inabalável”. O ex-presidente francês Nicholas Sarkozy era “puro arroubo emocional e grandiloquência retórica”, usava palmilhas especiais para ficar mais alto e conversava com “o peito estufado como o de um galo garnisé”.

A ex-presidente Dilma Rousseff aparece na visita que Obama fez ao Brasil. No meio das funções oficiais, o democrata ordenou a ação militar para intervir na Líbia. Ao se desculpar à petista por estar perdendo parte do tempo da visita presidencial cuidando do problema externo, Dilma teria dito: “Vamos dar um jeito. Espero que esse seja o menor dos seus problemas”.

Obama nem sequer menciona a proposta de acordo nuclear com o Irã costurada por Brasil e Turquia, considerada um dos grandes trunfos diplomáticos do governo Lula. Ele apenas cita a negociação de sanções contra o Irã, quando os americanos conseguiram convencer China e Rússia a votar no Conselho de Segurança da ONU a favor.

O ex-presidente considerava essas sanções essenciais para levar os iranianos à mesa de negociação (que depois originaria o acordo nuclear). O pacto desenhado por Brasil e Turquia foi esnobado pelos EUA na época, apesar de Obama ter falado positivamente dele no início.

Os vislumbres sobre a intimidade dos Obamas são saborosos. Ele descreve as escapadas para fumar escondido na Casa Branca, aparece sorrindo para um assessor e pergunta, antes de sua cerimônia de posse: “Tudo bem com os meus dentes?”.

Conta também como ele e Michelle obrigaram as filhas, para que não ficassem mal acostumadas, a fazer a cama e a arrumar seus quartos todos os dias —mas a ordem “teve um êxito apenas mediano”.

E lembra quando um dos mordomos da Casa Branca, negro como a maioria, disse que queria garantir que ele tivesse um tratamento igual ao de todos os outros presidentes. “Veja, o senhor e a primeira-dama não sabem o que isso significa para nós, senhor presidente... Tê-los aqui...”

O relatório diário ultrassecreto recebido por Obama, uma pasta de couro à espera dele na mesa do café da manhã, era chamado de “O Livro da Morte, da Destruição e das Coisas Horríveis”.

E quando recebeu uma ligação de um de seus assessores, às 6h, informando que ele havia recebido o prêmio Nobel da Paz, Obama teria dito: “Pelo quê?”.

Resta a curiosidade sobre as impressões do ex-presidente a respeito da eleição americana atual e a ascensão de líderes populistas como o brasileiro Jair Bolsonaro, que ficam para o segundo volume.

Em um aperitivo, em entrevista ao programa de Pedro Bial prevista para ir ao ar na noite de segunda-feira (16), Obama falou sobre a provocação de Bolsonaro a Biden. O brasileiro disse que “quando acabar a saliva, tem que ter pólvora" em relação às pressões de Biden para preservação da Amazônia.

Obama comparou as políticas de Bolsonaro às de Trump, dizendo que os dois não deram ênfase à ciência para lidar com a pandemia e que “isso teve consequências para eles". E ressaltou o papel do Brasil na defesa do meio ambiente: "O Brasil foi um líder no passado, seria uma pena se parasse de ser".

Uma Terra Prometida

  • Preço R$ 79,90 (ebook R$ 39,90)
  • Autor Barack Obama
  • Editora Companhia das Letras
  • Tradução Berilo Vargas, Cássio de Arantes Leite, Denise Bottmann e Jorio Dauster
  • Páginas 764
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