Insatisfação com resposta a furacões e à pandemia entorna caldo da crise na Guatemala

Protestos do fim de semana deixaram 33 presos e o Congresso incendiado

Buenos Aires

A aprovação de um orçamento bilionário voltado para a ajuda de empresas e de construtoras e com cortes na na saúde e na educação, na quarta (18), foi apenas a gota d'água que fez transbordar as manifestações que incendiaram o Congresso e deixaram 33 presos na Guatemala durante o fim de semana.

Nos dez meses de gestão do presidente Alejandro Giammattei tem havido crescente descontentamento da população. Mas recentemente, o foco foi a falta de ajuda para conter o impacto de tragédias naturais, como os furacões Eta e Iota, que deixaram 53 mortos, 94 desparecidos e mais de 100 mil desabrigados.

Manifestantes pedem a renúncia do presidente da Guatemala, Alejandro Giammattei, na capital do país
Manifestantes pedem a renúncia do presidente da Guatemala, Alejandro Giammattei, na capital do país - Johan Ordonez - 22.nov.20/AFP

Pouco antes, Giammattei, um líder de direita, havia vetado projeto do Congresso para congelar tarifas de serviços (eletricidade, água, transporte), o que seria um alívio dos efeitos da Covid-19 aos guatemaltecos.

Segundo denúncias publicadas pela imprensa local, o presidente estaria, desde o começo do governo, beneficiando empresários aliados ou diretamente ligados à sua gestão. Um deles é Luis Miguel Martínez, que chefia um recém-criado Centro de Governo, órgão regulador dos 14 ministérios.

Martínez é sócio de Giammattei em uma empresa que tem contratos com o governo, além de ser um dos homens fortes da gestão. Há denúncias, ainda, de que verbas aprovadas para ajuda social devido à pandemia do coronavírus teriam sido desviadas por funcionários do alto escalão do governo.

Investigações sobre esses dois temas chegaram a ser abertas pela procuradoria local, mas foram interrompidas por ordem da Corte Suprema.

Entre as reivindicações dos manifestantes está a de que os juízes do máximo tribunal destravem os processos que envolvam Giammattei e empresários ligados a ele.

Na tarde deste domingo (22), centenas de pessoas voltaram às ruas da capital, Cidade da Guatemala, e protestaram de forma pacífica. A Universidade de San Carlos, a única estatal do país, fez uma convocação de greve nacional na segunda-feira (23), mas não obteve resposta de outros setores da sociedade.

Eleito com uma promessa de governo linha-dura na segurança, Giammattei chegou a propor a incorporação da pena de morte na luta contra o narcotráfico e, para se aproximar da gestão de Donald Trump, aplicou uma severa política de controle de fronteiras.

Sua chegada ao poder se deu numa eleição em que alguns candidatos foram barrados e na qual houve grande abstenção, porque os guatemaltecos já vinham num processo de rejeição aos políticos tradicionais após as duas ondas de protestos: em 2015, contra Otto Pérez Molina, e em 2017, contra Jimmy Morales. O atual presidente foi eleito numa votação em que a abstenção foi de 61,41%.

Se, no começo da pandemia, Giammattei havia conseguido aumentar sua popularidade devido às primeiras medidas de contenção do coronavírus, ela foi rapidamente dilapidada. Segundo o instituto ProDatos, o mandatário tinha 86% de aprovação popular em abril. Já em outubro, o número caiu para 21%.

As manifestações de sábado (21) ocorreram, em geral, de modo pacífico, mas houve focos de violência. Na capital, cerca de 10 mil pessoas, segundo a polícia local, mobilizaram-se diante do Palácio Nacional da Cultura, sede do governo guatemalteco.

Enquanto isso, outras dezenas de manifestantes encapuzados invadiram o Congresso com tochas e colocaram fogo em vários escritórios. Ninguém ficou ferido, e 33 pessoas foram presas. Nas redes sociais, Giammattei disse que, sobre os que haviam invadido o Congresso, "cairá todo o peso da lei".

Os desentendimentos entre o presidente e seu vice, Guillermo Castillo, também vêm crescendo. Em agosto, houve o vazamento de um áudio de uma mensagem enviada pelo WhatsApp na qual Castillo cobra do mandatário uma atitude mais contundente com relação à pandemia.

Depois da aprovação do orçamento, o maior da história da Guatemala (de US$ 12,9 bilhões) e que prevê endividamento do país para garantir um terço do valor, Castillo pediu publicamente a renúncia do governo.

O vice-presidente disse que não pretendia tomar o cargo, e por isso propunha uma demissão dupla, e que o Congresso deveria escolher os sucessores.

As manifestações recentes lembram a ida às ruas dos guatemaltecos em 2015 e em 2017. No primeiro episódio, chamado de "primavera da Guatemala" e protagonizado por jovens, pediu-se a renúncia do então presidente, Otto Pérez Molina, depois que a Cicig (Comissão Contra a Impunidade na Guatemala), composto por magistrados locais com a ajuda das Nações Unidas, revelou um esquema de desvio de verbas vindas das aduanas do país e da qual Pérez Molina estava à frente.

A escalada dos protestos foi tamanha que levou o Congresso a retirar a imunidade de Pérez Molina para votar um impeachment. O presidente, porém, renunciou antes. Hoje, está preso esperando julgamento.

Uma nova onda de protestos de rua ocorreu em 2017, quando o sucessor de Pérez Molina, Jimmy Morales, expulsou a Cicig do país, porque começava a apontar casos de corrupção ligados a ele.

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