Irã diz que assassinato de cientista nuclear foi realizado remotamente e com arma feita em Israel

Principal especialista do país persa na área foi morto na semana passada; governo promete retaliação

Dubai | Reuters

A estatal iraniana Press TV afirmou nesta segunda-feira (30) que a arma usada para matar o principal cientista nucler do Irã, Mohsen Fakharizadeh, foi produzida em Israel. O cientista foi assassinado a tiros em uma emboscada nos arredores de Teerã na última sexta-feira (27).

"A arma encontrada no local do ato terrorista têm o logotipo e as especificações da indústria militar israelense", afirmou a Press TV, com base em uma fonte anônima. O cientista foi enterrado com honras nesta segunda em um cemitério ao norte de Teerã. Antes, uma cerimônia no Ministério da Defesa contou com a presença de vários comandantes militares e parentes. O caixão tinha as cores da bandeira do Irã.

Membros das forças iranianas rezam em torno do caixão do cientista nuclear Mohsen Fakhrizadeh, durante cerimônia em Teerã
Membros das forças iranianas rezam em torno do caixão do cientista nuclear Mohsen Fakhrizadeh, durante cerimônia em Teerã - Hamed Malekpour/Tasnim News/AFP

Em entrevista à TV estatal, o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Ali Shamkhani, disse também ter pistas do envolvimento no ataque do grupo oposicionista Monafeghin.

Monafeghin é o nome que oficiais iranianos usam para se referir ao Conselho Nacional de Resistência do Irã (NCRI, na sigla em inglês), entidade sediada em Paris que reúne grupos de oposição ao governo xiita.

"Este foi um assassinato muito complexo, executado remotamente com dispositivos eletrônicos", afirmou Shamkhani. O governo iraniano disse suspeitar do envolvimento de Israel desde o dia do atentado, o que elevou a tensão no Oriente Médio.

No sábado (28), o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, prometeu retaliar o assassinato do cientista. Em uma rede social, publicou que as forças iranianas devem "perseguir e punir os autores deste crime e aqueles que o comandaram".

Khamenei também prometeu continuar o trabalho de Fakharizadeh, apontado por agências de inteligência dos EUA e de Israel como arquiteto de um projeto secreto do país persa para dominar o processo de fabricação de armas nucleares —o que os iranianos negam. De acordo com o governo, as pesquisas em torno da tecnologia nuclear são apenas para fins pacíficos.

A tensão entre Irã e Israel é antiga. Os iranianos apoiam grupos como o Hizbullah, do Líbano, que disputam território com Israel. Dez dias antes do assassinato do cientista, os israelenses atacaram oito alvos na Síria, inclusive forças militares do Irã, que dá apoio militar ao governo do ditador Bashar al-Assad.

Em agosto, um ataque, também em Teerã, matou Abu Muhammad al-Masri, considerado número 2 do grupo terrorista Al Qaeda. Os autores dos ataques seriam enviados de Israel, a pedido de Washington.

Nos últimos meses, o governo de Israel se aproximou de países árabes que se opõem ao Irã. Em setembro, o país firmou acordos para normalizar suas relações com Emirados Árabes Unidos e com Bahrein. No dia 22 deste mês, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, encontrou-se com Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro da Árabia Saudita, com quem Israel não possui contatos diplomáticos formais.

No início deste ano, os americanos mataram o general iraniano Qassim Suleimani, chefe da influente Força Quds da Guarda Revolucionária, em um ataque no Iraque, o que quase levou a uma guerra entre EUA e Irã. Na época, Teerã anunciou a sua saída do acordo nuclear e disse estar livre para enriquecer urânio.

O clima de animosidade, porém, esfriou depois que um avião de passageiros foi derrubado acidentalmente por militares iranianos, matando 176 pessoas.

O presidente eleito dos EUA, Joe Biden, tenta retomar as relações com o Irã e reviver o acordo nuclear de 2015, do qual o atual presidente, Donald Trump, decidiu se retirar em 2018. Trump é aliado de Netanyahu.

Pelo acordo, EUA, China, Alemanha, Reino Unido e França retirariam sanções contra o Irã, permitindo que o país tivesse acesso a US$ 100 bilhões, desde que os iranianos se comprometessem a reduzir em 98% o estoque de urânio enriquecido, cortassem o uso de dois terços das centrífugas de enriquecimento do material e abrissem instalações nucleares para inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica.

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