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Não cancele as pessoas, chame-as para conversar, propõe professora e feminista

Loretta J. Ross assinou carta na Harper's Magazine que também foi criticada publicamente

Jessica Bennett
The New York Times

Nyla Conaway, 19, recorda-se de ter sido “called out” –desancada publicamente— por ter mudado sua foto de perfil no Instagram em um gesto de solidariedade com... alguma coisa. Ela não se recorda exatamente o que era essa coisa –lembra apenas que um estudante mais velho lhe falou que era mentira.

“Fiquei totalmente sem jeito, envergonhada, pensando que um monte de gente havia visto o que eu fiz e que eu ficara com cara de idiota”, disse.

Katie Wehrman, 18, ainda se sente culpada por ter criticado publicamente um garoto em seu colégio por alguma coisa que ele disse sobre um político local e direitos LGBTQ. Ela lhe deu uma aula de moral no grupo de Snapchat da turma deles.

Sophia Hanna, 18, nunca foi cancelada dessa maneira, mas já passou mais tempo durante a pandemia do que gostaria de admitir vendo duas blogueiras de beleza desancando uma à outra nas redes sociais.

“Assistir a essa disputa acende uma faísca emocional em mim”, ela disse, destacando que nem sequer curte tutoriais de maquiagem. “É como se fosse um gatilho de dopamina que me faz continuar a assistir.”

Nyla, Katie e Sophia são alunas de um curso ministrado por Loretta J. Ross, professora visitante do Smith College que as está pedindo para identificar as características e os limites da chamada “cultura do cancelamento”: o ato de humilhar outra pessoa publicamente por comportamento visto como inaceitável.

A professora e feminista Loretta J. Ross, que trabalha com direitos humanos há quatro décadas
A professora e feminista Loretta J. Ross, que trabalha com direitos humanos há quatro décadas - Peyton Fulford/The New York Times

Chamar a atenção de alguém publicamente desse modo pode ser descrito como tendo semelhanças com “dragging” —arrastar o nome de alguém na lama—, como algo problemático e como uma das muitas coisas que podem levar ao “cancelamento”.

“Quero contestar a cultura da humilhação pública”, disse Ross, falando de sua casa em Atlanta, onde numa noite recente estava dando uma aula pelo Zoom. “Acho que você pode entender que chamar a atenção de alguém publicamente é tóxico. Isso realmente afasta as pessoas e as leva a ter medo de dizer o que pensam.”

Essa postura converteu Ross, 67, em uma figura improvável na guerra cultural. Feminista negra radical que trabalha com direitos humanos há quatro décadas, ela foi uma das signatárias de uma carta amplamente denunciada que foi publicada na Harper’s Magazine e a levou a ser criticada publicamente, ela própria.

“É tão irônico que eu tenha sido desancada publicamente por ter desancado publicamente a cultura do desancamento público”, ela disse. “Foi realmente engraçado.”

No Smith College, Ross dá cursos intitulados Supremacia Branca na Era de Trump, do qual faz parte o módulo intitulado “calling in” (em oposição a “calling out”), e Justiça Reprodutiva. Mas ela diz aos estudantes quando se matriculam nos cursos: “Se o que você procura é um aviso de gatilho ou um espaço seguro, eu o aconselho a não fazer este curso”.

“Acho que usamos a palavra ‘gatilho’ com frequência excessiva, quando o que realmente queremos dizer é incômodo ou desconforto”, ela disse. “E deveríamos ser capazes de ter conversas incômodas.”

Ross não acha que as pessoas devam ser humilhadas publicamente por acidentalmente errarem a identificação do gênero de um colega de classe, coisa que ela fez certa vez, levando a uma queixa posterior por discriminação educacional com base sexual, que acabou sendo rejeitada. Nem tampouco, por exemplo, por admitir que gostaram no passado de uma obra da cultura pop que hoje é vista sob ótica diferente, como “The Cosby Show”.

“Se a série passasse na TV hoje, eu assistiria às reprises”, ela disse.

“Uma coisa que me irrita especialmente é quando uma pessoa de 55 anos é ridicularizada publicamente por alguma coisa que disse quando era adolescente. Afinal, todos nós fizemos coisas incrivelmente idiotas quando éramos adolescentes, não?”

Ross pensa que a cultura do call-out converteu discussões que no passado poderiam ser oportunidades de aprendizado em brigas de socos em fóruns na internet, comentários no YouTube, no Twitter e em faculdades como a Smith, onde provar o engajamento das pessoas com a justiça social virou uma espécie de esporte universitário.

“Acho que isso está relacionado a uma coisa que descobri há pouco tempo, conhecida como ‘doom scrolling’”, Ross disse aos alunos (seria algo como buscar coisas na rede para desaprovar ou para jogar na lama). “Acho que com essa raiva toda, acabamos sabotando nossa própria felicidade. E não posso deixar de perguntar: por que vocês estão optando por tornar o mundo mais cruel do que precisaria ser? E por que estão dizendo que isso é estar conscientizados?”

Para ela, o antídoto a esse ciclo de indignação e repúdio é o que ela descreve como “calling in”. “O calling in é como o calling out, mas é feito de modo reservado e com respeito. É uma crítica feita com amor.”

Pode ser simplesmente enviar uma mensagem particular a uma pessoa ou até telefonar (isso mesmo!) para falar da questão. Ou, ainda, parar para respirar fundo antes de comentar, postar um print ou exigir que a pessoa criticada “faça melhor que isso”, sem explicar como.

Desancar uma pessoa publicamente pressupõe o pior. “Calling in” envolve uma conversa, compreensão e contextualização, diz Ross. Não quer dizer que a pessoa deve ignorar quando houve ofensa, prejuízo ou destrato, mas que ela tampouco deve exagerar o que aconteceu. “Quando alguém discorda de mim, isso nem sempre significa que ela cometeu ‘violência verbal’”, disse Ross. “Não estou sendo ‘re-estuprada’. Exagerar o mal que foi feito não ajuda quando estamos tentando criar uma cultura de compaixão.”

O diálogo educado entre pessoas e partes que discordam também faz parte do ativismo há algum tempo, inclusive do ativismo da própria Loretta Ross.

Quando foi diretora do Centro de Atendimento a Vítimas de Estupro, em Washington, entre 1979 e 1982, Ross costumava usar sua própria experiência com agressão sexual para facilitar um diálogo com estupradores encarcerados, ensinando a teoria feminista negra a eles.

Como diretora de programação da Organização Nacional de Mulheres, ela trabalhou para elevar a participação de mulheres não brancas. Juntamente com 11 outras mulheres, Ross é vista como responsável por ter cunhado o termo “justiça reprodutiva” —uma combinação de “direitos reprodutivos” e “justiça social”—, em resposta ao que consideraram que ficara faltando no plano de reforma da saúde de Bill Clinton em 1994.

Mais tarde, como diretora de programação e pesquisas do Centro de Renovação Democrática, que monitorava organizações de ódio, Ross um dia estava na zona rural do Tennessee, ensinando antirracismo a um grupo de mulheres cujos familiares eram membros do Ku Klux Klan.

Ela se lembrou do que o fundador de sua organização, o reverendo C.T. Vivian —que tinha sido colaborador de Martin Luther King—, lhe disse quando ela começou a fazer seu trabalho: “Quando você pede às pessoas que parem de odiar, precisa estar presente para apoiá-las quando elas o fazem”.

E foi o que ela fez. No início da década de 1990 Ross acompanhou Floyd Cochran, que fora no passado o porta-voz da organização Nação Ariana, em uma turnê nacional para fazer reparações.

“Floyd era um sujeito que desde os 14 anos nunca havia feito nada exceto ser nazista. Agora, aos 35 anos, ele não tinha emprego, não tinha estudos, não tinha esperança. E nós ajudamos pessoas como eles”, ela disse.

Depois que o Los Angeles Times publicou um artigo em 1997 sobre a amizade improvável que nasceu entre ela e Cochran, ela e ele receberam US$ 10 mil cada um por uma adaptação da história deles feita por Hollywood. Mas quando o roteiro chegou, havia um erro fatal: terminava com os dois se apaixonando.

“Floyd já era casado, e eu não me apaixono por nazistas”, disse Ross.

Em um momento daquela época, Ross estava numa esquina em Janesville, no estado de Wisconsin, no inverno gelado, vendo Ken Peterson, que desertara do KKK, filmando uma entrevista para o Geraldo Rivera Show. Peterson e sua mulher, Carol, tinham sido obrigados a fugir de sua casa às pressas, e Carol Peterson estava tremendo de frio.

“Fiquei ali na primeira meia hora olhando para ela, e em dado momento decidi dividir meu casaco com ela”, disse Ross. “Simplesmente não consegui manter aquela raiva, não consegui manter aquela postura.”

A ideia de “calling in” lhe ocorreu quando ela estava redigindo um discurso que faria no Smith College em 2015 em homenagem a Gloria Steinem. Ela perguntou a uma jovem o que era tudo aquilo que ela estava vendo acontecer no Twitter, aquelas declarações hostis.

“Você está falando do calling out?”, disse a jovem.

“Vocês deram um nome a isso?”, Ross reagiu, surpresa.

Pouco depois ela reuniu um grupo de estudantes para praticar suas técnicas de “calling in” e então levou sua mensagem para mais longe. No verão deste ano, durante a quarentena, ela começou a dar um curso online intitulado “Calling In the Calling Out Culture” (algo como “criticando construtivamente a cultura da crítica humilhante pública”). E está escrevendo um livro que terá o mesmo título.

Ross foi contratada por ONGs e organizações de mulheres para ajudá-las a enfrentar suas próprias prestações de conta envolvendo racismo e preconceitos de gênero. “Eu não diria que sou mediadora”, ela falou. “Sou como uma consultora que é chamada só uma vez para reorganizar relacionamentos. ‘Estamos em terras indígenas’, ‘temos alunos trans’, ‘temos prédios com nomes de escravagistas’.” O mais difícil, segundo ela, “é convencer as pessoas que elas não são inimigas umas das outras.”

Não que Ross fuja de conflitos. “Não tenho problema algum em criticar publicamente políticos que descumprem o juramento que fizeram quando tomaram posse”, disse. Ross citou Colin Kaepernick, que criticou publicamente uma organização poderosa, a NFL, numa iniciativa que surtiu bastante efeito. “A única coisa que desaprovo, e muito, é criticar publicamente pessoas que têm menos poder que você, simplesmente porque você pode fazê-lo e sair impune. Mas criticar publicamente pessoas que estão no poder é algo que pode ser feito de modo muito estratégico.”

De fato, depois do movimento #MeToo e dos protestos globais contra a violência policial em resposta aos assassinatos de George Floyd e Breonna Taylor, funcionários andam criticando publicamente seus chefes, consumidores vêm cobrando responsabilidade de grandes empresas, estudantes têm feito críticas públicas a seus pares e vítimas têm acusado seus agressores publicamente.

“As pessoas entenderam que chamar a atenção para pessoas nas redes sociais e humilhá-las publicamente leva a resultados concretos”, disse Meredith Clark, professora assistente de estudos de mídia na Universidade da Virginia e autora de um estudo recente sobre a cultura do call-out, intitulado “Drag Them” (arraste o nome deles na lama). “Isso evoca pedidos de desculpas de áreas que normalmente não participariam desse tipo de diálogo e permite que pessoas que de outro modo não teriam meios de agir influenciem suas próprias experiências.”

Ross e outros concordam que algo mais problemático e preocupante é quando pequenas infrações passam a ser vistas como grandes; quando as coisas são vistas fora de contexto e os fatos são distorcidos, ou, ainda, quando se torna difícil discernir entre as duas coisas.

“Os algoritmos não diferenciam entre indignação e crítica pública que é proporcional e indignação e crítica pública desproporcional à transgressão original”, explicou Molly Crockett, professora de psicologia na Universidade Yale e estudiosa da indignação moral online.

Os estudantes estão interessados em praticar o “calling in”, ou pelo menos tentar. Mas eles têm perguntas.

Interpelar é calling in? Qual é a diferença entre calling in e cobrança? E se o calling out for realmente a maneira mais eficaz de promover avanços –por exemplo, quando se trata de uma figura pública? E quando é que criticar alguém de modo educado, falando apenas com a pessoa em questão, simplesmente não surte efeito?

“Você não é responsável pela incapacidade de outra pessoa de crescer”, disse Ross. “Então console-se com o fato de que você ofereceu uma nova perspectiva de informação e que o fez com amor e respeito. E então se afaste.”

“Há uma coisa que nós, no movimento, costumamos dizer: há pessoas com quem é possível trabalhar e outras que podem ser contornadas. Mas o que quero destacar é que praticar o ‘calling in’ quer dizer que você sempre deixará um lugar à mesa para as pessoas, caso elas queiram voltar.”

Tradução de Clara Allain

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