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Eleições EUA 2020

Negligência com voto hispânico pode ter custado 'onda azul' a Biden

No populoso condado de Miami-Dade, na Flórida, Trump ampliou votação de 2016

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São Paulo

A decepcionante votação do democrata Joe Biden entre o eleitorado hispânico é um dos motivos para a “onda azul” não ter se concretizado, o que poderia ter dado ao candidato uma vitória decisiva e rápida.

Se Biden tivesse levado a Flórida, o triunfo sinalizaria um caminho muito mais difícil para o presidente Donald Trump conquistar a reeleição. O condado de Miami-Dade é um bom exemplo: com 95% dos votos apurados, o líder americano tinha 192 mil votos a mais do que obteve em 2016 –526 mil, contra 334 mil–, uma alta gigantesca no comparecimento de eleitores republicanos.

Já Biden registrava 610 mil votos frente aos 624 mil obtidos por Hillary quatro anos atrás. O democrata precisava ter obtido uma vantagem muito mais robusta no condado, um dos mais populosos do estado, e, assim, contrabalançar a votação sempre mais conservadora da região do Panhandle.

O democrata Joe Biden em evento de campanha em Coconut Creek, na Flórida - Jim Watson - 29.out.20/AFP

Chuck Rocha, ex-estrategista de Bernie Sanders para o eleitorado hispânico, escreveu no Twitter: “Meu próximo livro vai se chamar 'Eu Avisei'“. Ele vinha alertando para o que considerava atenção insuficiente da campanha de Biden para conquistar e mobilizar eleitores latinos.

Pesquisas de boca de urna mostravam um cenário ainda mais preocupante. Segundo levantamentos da CNN, Hillary obteve vantagem de 27 pontos percentuais entre eleitores hispânicos na Flórida, diante de 8 pontos para Biden. Na Geórgia, 40 para Hillary, 25 para Biden; em Ohio, 41 para Hillary, 24 para Biden.

Tradicionalmente, o eleitorado cubano-americano e venezuelano-americano na Flórida é mais conservador e vota nos republicanos devido às posições anti-Castro e anti-chavismo. Trump investiu muito tempo e dinheiro nos latinos do estado.

Mas havia esperança de um apelo maior entre outras faixas desse eleitorado, como as comunidades porto-riquenhas e mexicanas. Na Flórida, os hispânicos são 20,5% do eleitorado, segundo levantamento do Pew Research Center. No Arizona, são 23,6%; no Texas, 30,4%.

Alguns comentaristas compararam a falta de empenho na mobilização do eleitorado hispânico por parte da campanha de Biden ao erro cometido por Hillary em 2016, ao acreditar que Wisconsin estava ganho. Assim, reduziu ao mínimo a campanha no estado.

“Parece que a pecha de socialista que Trump pendurou em Biden funcionou. A aposta de Biden parece ter sido ganhar os brancos idosos que votaram maciçamente em Trump em 2016. Também acreditou que os latinos votariam nele porque Trump é obviamente ruim para eles”, diz André Pagliarini, professor no departamento de estudos latino-americanos no Dartmouth College.

Além disso, destaca Pagliarini, republicanos se engajaram em várias ações para impedir que negros votassem na Flórida. Para completar, houve uma intensa campanha de desinformação direcionada ao candidato democrata. Em grupos de WhatsApp, proliferavam mensagens falsas acusando Biden de ser socialista e ligando-o a teorias conspiratórias espalhadas pelo QAnon.

“A conexão entre a política americana e políticas locais da América Latina dominou campanhas de desinformação”, afirma Cristina Tardáguila, diretora-adjunta da International Fact Checking Network.

“A tentativa de ligar Trump ou Biden a governos de Cuba, Venezuela, Nicarágua e Colômbia desperta amores e ódios, muitas pessoas deixaram esses países fugidas.”

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