Relatório revela crimes bárbaros cometidos por militares da Austrália contra afegãos

Tropas faziam 'competições de contagem de cadáveres' e incentivavam membros a cometer 1º assassinato

Camberra | AFP

As forças especiais de elite da Austrália mataram ilegalmente 39 civis e prisioneiros afegãos, inclusive por meio de execuções sumárias que seriam parte de rituais de iniciação, de acordo com uma investigação militar a ser enviada para um promotor especial de crimes de guerra.

Na quarta (18), o general Angus Campbell admitiu a existência de provas críveis dos crimes cometidos. "Ao povo afegão, em nome da Força de Defesa Australiana, sinceramente e sem reservas peço desculpas por quaisquer atos repreensíveis por parte dos soldados australianos", declarou ele.

"Algumas patrulhas ignoraram a lei, regras foram quebradas, histórias foram inventadas, mentiras foram contadas e prisioneiros foram mortos", acrescentou a principal autoridade do Exército australiano.

O chefe da Força de Defesa Australiana, o general Angus Campbell, durante pronunciamento sobre relevações de investigação de condutas graves de militares no Afeganistão
O chefe da Força de Defesa Australiana, o general Angus Campbell, fala sobre investigação de condutas graves de militares no Afeganistão - Mick Tasikas - 18.nov.20/AFP

Após os ataques de 11 de setembro de 2001 nos EUA, mais de 26 mil soldados australianos foram enviados ao Afeganistão para lutar ao lado dos americanos e das forças aliadas contra o Taleban, a facção terrorista Al-Qaeda e outros grupos radicais islâmicos.

As tropas de combate australianas deixaram o país em 2013. Desde então, inúmeros relatos vieram à tona, às vezes brutais, sobre a conduta de unidades de forças especiais de elite.

Segundo Campbell, que chamou a investigação de um "vergonhoso balanço" para a instituição que dirige, os crimes incluem casos em que novos membros de patrulha teriam sido forçados a atirar em um prisioneiro para cometer seu primeiro assassinato, em uma prática conhecida como 'sangramento'".

O relatório também apresenta evidências de que as tropas estiveram envolvidas em "competições de contagem de cadáveres" e acobertamento de assassinatos ilegais.

A investigação, de 465 páginas e conduzida pelo inspetor-geral do Exército, trata de eventos entre 2005 e 2016 e detalha dezenas de assassinatos ocorridos "fora do calor da batalha".

O documento recomenda que 19 pessoas sejam entregues à Polícia Federal da Austrália, que uma indenização seja paga às famílias das vítimas e que o Exército realize uma série de reformas.

Campbell deu um passo além, dizendo que os envolvidos deixaram uma "mancha" em seu regimento, nas Forças Armadas e no país e que seriam encaminhados ao investigador especial para crimes de guerra.

O general pediu a revogação de algumas medalhas concedidas às forças de operações especiais que serviram no Afeganistão entre 2007 e 2013. Já o premiê Scott Morrison, por sua vez, pediu aos australianos na semana passada que se preparem para "verdades cruéis e honestas" contidas no documento, que censura muitos detalhes.

O gabinete do presidente afegão, Ashraf Ghani, disse que Morrison "expressou sua mais profunda tristeza com a má conduta", e o Ministério das Relações Exteriores do Afeganistão, ainda que tenha classificado as ações descritas no relatório como "imperdoáveis", reconheceu que a divulgação do documento é um "passo importante em direção à justiça".

A imprensa australiana fez eco a várias acusações graves contra os militares do país, como no caso de um homem que foi morto para abrir espaço em um helicóptero ou o de um menino de seis anos assassinado durante uma operação de busca em uma residência.

O episódio foi revelado em 2017, quando a emissora ABC divulgou os "Arquivos Afegãos", uma série de investigações nas quais as forças australianas foram acusadas de terem matado homens e crianças desarmados no Afeganistão.

Em resposta, a polícia abriu uma investigação contra dois jornalistas do canal, Daniel Oakes e Sam Clark, suspeitos de terem arquivos confidenciais. A sede da rede em Sydney foi invadida no ano passado, mas o caso acabou sendo arquivado.

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