Republicanos começam a minar tática de Trump ao reconhecer vitória de Biden

Membros influentes do partido pedem a presidente para aceitar resultado, e outros correligionários vão na mesma direção

The New York Times

Não é exatamente uma debandada, mas o número de republicanos dispostos a reconhecer a vitória de Joe Biden está aumentando, com o governador Mike DeWine, de Ohio, e o veterano membro do partido Karl Rove, ex-assessor da campanha de Donald Trump, insistindo que ele aceite a derrota.

Apenas quatro senadores do partido do atual presidente cumprimentaram Biden publicamente, mas outros republicanos estão seguindo cautelosamente nessa direção, e as autoridades republicanas nas eleições estaduais resistem às denúncias infundadas de fraude eleitoral feitas por Trump.

"Precisamos considerar o ex-vice-presidente como o presidente eleito. Joe Biden é o presidente eleito", afirmou DeWine à CNN americana nesta quinta-feira (12).

O presidente Donald Trump durante cerimônia em homenagem ao Dia do Veterano, em Arlington, no estado da Virgínia
O presidente Donald Trump durante cerimônia em homenagem ao Dia do Veterano, em Arlington, no estado da Virgínia - Carlos Barria - 11.nov.20/Reuters

No início desta semana, o governador —representante de um antigo estado-pêndulo que oscilou decisivamente para o presidente Trump duas vezes— indicou que esperaria o julgamento das contestações legais pedidas pela campanha do republicano antes de se pronunciar.

Na noite de quarta, Rove, um feroz combatente partidário e peça-chave nas campanhas do presidente George W. Bush, escreveu o artigo "O resultado desta eleição não será revertido", publicado no Wall Street Journal, no qual aponta que recontagens costumam mudar centenas de votos, mas raramente dezenas de milhares —e nunca nos diversos estados em que Trump precisaria reverter para reivindicar sua vitória.

"É improvável que os esforços do presidente tirem um único estado da coluna de Biden e certamente não bastam para alterar o resultado final", escreveu Rove, que deu assessoria estratégica ao ex-diretor da campanha de Trump, Brad Parscale, e a outros próximos ao presidente.

Duas forças poderosas, no entanto, impedem que mais republicanos sigam o exemplo imediatamente.

A primeira é o medo de Trump, que se recusa a ceder e ameaça possíveis desertores. A segunda é o fator mais agudo do segundo turno, em janeiro, na Geórgia, para duas cadeiras no Senado. A disputa determinará que partido controlará a Casa.

Os senadores David Perdue e Kelly Loeffler precisarão de um comparecimento quase total dos eleitores republicanos, e eles estão firmemente por trás do movimento de resistência pós-eleitoral de Trump.

Embora a maioria dos principais republicanos não tenha repetido as alegações de fraude de Trump, eles também se recusaram a reconhecer a vitória de Biden —o que poderá encorajar ainda mais o atual presidente, que durante a campanha se recusou a prometer uma transição pacífica de governo e minou a confiança em qualquer resultado que não fosse favorável a ele.

O democrata supera Trump por mais de 20 mil votos em Wisconsin, por mais de 50 mil na Pensilvânia e por quase 150 mil em Michigan, estados onde sua vitória já foi declarada, embora Trump conteste os resultados com ações judiciais.

Biden também lidera por mais de 10 mil votos nos estados ainda indefinidos da Geórgia e do Arizona, embora não precise dos votos de nenhum deles, uma vez que já é o presidente eleito.

Havia ainda sinais de que o "muro vermelho" levantado pelo presidente no Congresso pode ser mais uma barreira temporária do que um baluarte político permanente. O senador republicano James Lankford, de Oklahoma, disse a uma rádio na quarta (11) que interviria na sexta se o governo Trump continuasse se recusando a conceder a Biden acesso aos documentos diários de inteligência enviados ao presidente.

"Não há nenhuma derrota no fato de ele receber as informações", disse Lankford, que faz parte da Comissão de Supervisão do Senado. O senador em primeiro mandato acrescentou que isso garantiria a continuidade da governança "se Joe Biden for eleito, o que parece que ele foi".

Na quinta, o senador Charles E. Grassley, o republicano mais antigo no Senado, disse à CNN achar que Biden deve ser informado. "Eu acho —especialmente em reuniões confidenciais— que a resposta é sim."

Também à CNN o senador Lindsey Graham, um dos maiores aliados de Trump e uma das lideranças da legenda na Casa, expressou a mesma opinião. Ao menos dois outros congressistas republicanos, Mike Rounds, da Dakota do Sul, e Marco Rubio, da Flórida, sugeriram que o democrata deveria ter acesso a informações da inteligência, embora nenhum deles tenha ido tão longe quanto Lankford.

Na quinta, os senadores republicanos Susan Collins, do Maine, Ben Sasse, de Nebraska, Mitt Romney, de Utah, e Lisa Murkowski, do Alasca, reconheceram publicamente a vitória de Biden. Um quinto, Pat Toomey, da Pensilvânia, chamou a vitória de Biden de "bastante provável" e instou Trump a cooperar.

Na quarta, o procurador-geral do Arizona, Mark Brnovich, um republicano, disse à Fox News que as autoridades estaduais receberam cerca de mil reclamações sobre a eleição, mas não encontraram "nenhuma evidência" de fraude eleitoral generalizada.

"Se de fato houve alguma grande conspiração, aparentemente não funcionou", disse ele.

Brnovich não chegou a declarar um vencedor e, de qualquer maneira, não está dentro de suas responsabilidades oficiais fazê-lo. Ainda assim, acrescentou: "Parece que Biden vai ganhar no Arizona".

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