Após 2 mortos em protesto contra impeachment, 13 ministros renunciam no Peru

Presidente do Congresso, Luiz Valdes, pede renúncia imediata do presidente Manuel Merino

Buenos Aires

Após uma noite de intensos protestos que causaram a morte de dois manifestantes, 13 dos 18 ministros do novo governo peruano renunciaram neste domingo (15). Os vice-ministros seguiram a mesma decisão.

Os protestos, principalmente em Lima, vêm ocorrendo desde a destituição do ex-presidente Martín Vizcarra, por parte do Congresso, no dia 9. Em seu lugar, assumiu Manuel Merino de Lama, até então líder do Congresso. Diante da situação de extrema instabilidade política, o atual líder da Casa, Luiz Valdes, pediu a saída de Merino de Lama. Neste caso, seria Valdes o próximo na linha de sucessão.

Manifestantes enfrentam a polícia em Lima
Manifestantes enfrentam a polícia em Lima - Sebastian Castaneda - 14.nov.20/Reuters

Há pleito presidencial marcado para abril e, em sua posse, na última terça-feira (10), Merino de Lama prometeu manter o calendário eleitoral. Ainda assim, ele não conseguiu acalmar os manifestantes. O novo líder do país é o terceiro neste período, que começou em 2016 com a eleição de Pedro Pablo Kuczynski.

Os ministros que renunciaram após as mortes de manifestantes foram os de Interior, Saúde, Mulher, Justiça, Economia, Desenvolvimento Social, Cultura, Defesa, Comércio Exterior, Energia e Minas, Habitação, Agricultura e Educação.

Nas primeiras horas deste domingo (15), Valdes procurou Merino de Lama para pedir sua renúncia, mas seu paradeiro era desconhecido. A uma rádio local o primeiro-ministro, Antero Flores-Araóz, afirmou não saber se o presidente estava fugindo nem se tinha renunciado. "Estou ligando, e ele não atende", disse.

Ainda neste domingo, os líderes dos partidos se reúnem para definir se haverá uma sessão extra do Congresso para determinar uma possível votação de vacância de Merino de Lama. Além dos dois mortos, a violenta noite de sábado terminou também com mais de 90 manifestantes feridos e 20 pessoas cujo paradeiro é desconhecido, segundo a secretaria de Direitos Humanos.

Os manifestantes que foram às ruas levaram cartazes nos quais afirmam que o afastamento de Vizcarra foi "um golpe" e que "Merino não é meu presidente".

Vizcarra teve seu impeachment determinado pelo Congresso devido a dois supostos casos de corrupção investigados pela Procuradoria do país. Um deles se refere a um episódio no qual teria favorecido um amigo pessoal, o compositor Richard Swing. O outro, ao recebimento de suborno por licitações de obras públicas quando era governador do estado de Moquegua (2011-2014).

Além de gás lacrimogêneo, as forças de segurança também usaram tanques do Exército para vigiar as ruas do centro, bloqueadas para o trânsito. Lima está sob toque de recolher devido à pandemia de coronavírus, ainda que os manifestantes não estejam respeitando a medida e continuem nas ruas.

Os dois manifestantes mortos tinham 24 e 22 anos. O primeiro chegou ao hospital morto, com um tiro na cabeça. O segundo morreu depois de ser internado, tendo levado pancadas no tórax.

Além do Congresso, os manifestantes cercaram a casa de Merino de Lama, batendo panelas e tambores para pedir a renúncia do novo presidente. A ONG Anistia Internacional chamou a atenção para os abusos na repressão dos protestos, dizendo em um comunicado que o "uso excessivo da força não é necessário", uma vez que as manifestações têm sido pacíficas.

A OEA (Organização dos Estados Americanos) afirmou que enviará uma missão na semana que vem a Lima, a pedido do novo governo peruano, para avaliar a situação de tensão social e política que vive o país.

Na última quarta (11), a OEA pediu ao Tribunal Constitucional do Peru que se pronuncie sobre a legalidade do processo contra Vizcarra. Em comunicado, o órgão reiterou que "compete ao Tribunal Constitucional do Peru pronunciar-se sobre a legalidade e a legitimidade das decisões institucionais adotadas".

Solicitou também que sejam garantidas as condições para as eleições convocadas para abril de 2021.

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