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Trump vai, suas sementes ficam

Ex-presidente se apresenta não como o perdedor que realmente é, mas como a vítima de uma traição à pátria

Federico Finchelstein

Professor de história na New School, em Nova York, doutor pela la Cornell University, lecionou na Brown University. Autor de obras sobre fascismo, populismo, o Holocausto e ditaduras. Seu novo livro é "A Brief History of Fascist Lies" (Uma Breve História das Mentiras Fascistas).

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Agora que Donald Trump perdeu as eleições, é importante fazer uma análise forense do que deu errado com a democracia estadunidense e, ao mesmo tempo, reconhecer seus "anticorpos".

Porque embora Trump tenha sido derrotado definitivamente, o líder caudilhista segue ampliando seus ataques à democracia, negando os procedimentos eleitorais democráticos e promovendo uma espécie de tentativa de golpe de Estado, ridículo e provavelmente fracassado.

Imagem em primeiro plano mostra Donald Trump sério
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em evento na Casa Branca, em Washington - Mandel Ngan - 20.nov.20/AFP

O trumpismo, em particular, aumenta suas possibilidades para o futuro através do que sempre fez, negar a realidade e promover a deslegitimação da democracia na busca dos desejos e do mito mobilizador de seu líder. Pensando em seu retorno triunfante, Trump se apresenta não como o perdedor que realmente é, mas como a vítima de uma traição à pátria.  A propaganda quer reescrever a história através da ficção deliberada, mas a história baseada em fatos continua seu curso.

Neste contexto, devemos não apenas nos perguntar o que deu errado e o que deu certo na análise do fenômeno antidemocrático representado por este líder estadunidense, mas também pensar a partir das experiências passadas de autoritarismo sobre os possíveis caminhos do trumpismo. Em particular, quais são suas possibilidades para um futuro no poder, seja através de uma nova candidatura em 2024 ou através de "neo-trumpismos" no futuro.

Uma batalha perdida não deve ser equiparada a uma vitória total. Foi exatamente isso que Hannah Arendt advertiu em junho de 1945. A filósofa judaico-alemã acreditava que o fascismo não havia terminado após sua derrota e que as sementes do internacional fascista estavam bem plantadas a nível global e, em particular, na América do Sul. Arendt pôde ver claramente a continuidade entre o fascismo clássico e a reformulação democrática do fascismo que foi o populismo.

De Juan Perón na Argentina a Silvio Berlusconi na Itália, o populismo deixou para trás os elementos constituintes do fascismo como a xenofobia, a repressão absoluta, as técnicas de propaganda e a ditadura totalitária. No entanto, os novos populismos, com trumpismo à frente e seguido de perto por Jair Bolsonaro no Brasil, Viktor Orban na Hungria e Matteo Salvini na Itália, tem retomado muitos desses elementos fascistas, com exceção da dimensão ditatorial, é claro.

O trumpismo, como estes novos populismos, pode ser definido como o "momento pós-fascista" em que a liberdade de pensamento foi substituída por uma mistura de liberdade de compra, de racismo e xenofobia, de mentiras ao estilo fascista, de passe livre para ignorar a própria saúde e a dos outros, e de obediência total ao líder.

Os custos desta concepção foram muitos, e muitas vezes letais. Os anos do Trump no cargo foram um desastre do ponto de vista da democracia, que foi profundamente denegrida, mas certamente não destruída ao estilo fascista.

É certo que as instituições democráticas são relativamente mais fortes do que no passado, e ainda assim, não devemos assumir que são tão formidáveis a ponto de rejeitar o retorno de Trump, ou os futuros trumpistas da época, como sua filha Ivanka Trump, ou Mike Pence, ou os senadores Marco Rubio, Tom Cotton, ou Ted Cruz. Com ou sem Trump, a democracia será novamente atacada a partir de dentro. Apesar de seus fracassos, o trumpismo continuará sendo uma característica da política estadunidense.

Devemos pensar que líderes como Trump foram possíveis porque a democracia se manifestou para a sociedade como menos participativa, contemplativa diante da injustiça, elitista. Em outras palavras, contra o populismo de extrema-direita, a democracia precisa ser mais justa e representativa.

A democracia constitucional deve ser defendida contra o fascismo e o trumpismo, mas também deve ser ampliada, ser solidária e ser menos desigual. Com base em sua história recente, é possível dizer que o trumpismo propõe para o futuro uma oposição terrível e implacável, nem deliberação nem diálogo: mais mentiras e teorias conspiratórias, o mito mobilizador de uma derrota injusta e "falsa" e talvez, mais militarização da política e da violência e a insistência no culto de seu líder como figura redentora que precisa ser constantemente redimida do fracasso eleitoral e dos futuros processos judiciais contra ele.

Para finalizar, vamos parar neste ponto. Trump será investigado por grave negligência no cumprimento do dever, e até mesmo pela promoção de doenças em condições de uma pandemia de saúde nacional e global, e também por supostos casos de corrupção e incitação à repressão e à violência?

É muito cedo para prever se a futura Administração Biden não se oporá a essas opções para solidificar a democracia e fornecer um aviso aos futuros trumpistas.

O caso oposto é o famoso perdão presidencial de Gerald Ford a Richard Nixon para que não investigassem seus crimes, que parecem tênues em comparação com os emaranhados legais que Trump pode enfrentar. Uma coisa é clara, as histórias passadas de reconstrução democrática ensinam a necessidade de que a defesa da legalidade e da política legítima andem de mãos dadas.

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Tradução de Maria Isabel Santos Lima

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