Turquia condena 337 pessoas a prisão perpétua por participar de golpe contra Erdogan

Entre os réus estão civis, oficiais militares e pilotos que bombardearam a capital em 2016

Ancara | AFP e Reuters

Centenas de pessoas que participaram da tentativa fracassada de golpe de Estado contra o presidente Recep Tayyip Erdogan em 2016 foram condenadas na Turquia nesta quinta (26) a prisão perpétua.

No total, 337 réus receberam a punição, numa lista que inclui civis e militares. Outras 60 pessoas foram condenadas a penas menores, e 75, absolvidas.

Parentes de pessoas mortas durante a tentativa de golpe agudram para entrar na prisão onde ocorre o julgamento
Parentes de pessoas mortas durante a tentativa de golpe aguardam para entrar na prisão onde ocorre o julgamento - AFP

O grupo foi considerado culpado de "tentativa de derrubar a ordem constitucional, tentativa de assassinato do presidente e homicídios dolosos", segundo o veredito, ao qual a agência AFP teve acesso.

Mais de 250 pessoas foram mortas durante a tentativa de golpe realizada no dia 15 de julho de 2016, quando militares rebeldes usaram tanques, helicópteros e aviões para tentar derrubar o governo Erdogan.

O julgamento, que começou em agosto de 2017, aconteceu na maior sala de audiências do país, construída especialmente no complexo penitenciário de Sincan, na província de Ancara. Apesar da pandemia de Covid-19, muitos parentes das vítimas seguiram até o local para assistir à última sessão.

"Justiça foi feita. O Estado não deixou o sangue dos mártires e dos feridos em vão", afirmou Ufuk Yegin, presidente de uma associação de parentes das vítimas. "Acreditamos que as sentenças foram decididas de acordo com as leis existentes."

Na noite do golpe, caças F-16 bombardearam o Parlamento turco em três ocasiões, assim como estradas ao redor do palácio presidencial, o quartel-general das forças especiais e o da polícia de Ancara (capital do país). A ação foi comandada a partir da base aérea de Akinci, que fica nos arredores da cidade.

O então comandante do Estado-Maior —e atual ministro da Defesa—, Hulusi Akar, e outros oito militares de alta patente foram detidos pelos rebeldes na base. Eles só foram libertados na manhã do dia seguinte, após o fracasso do golpe.

Muitos dos comandantes militares envolvidos já foram condenados a prisão perpétua em julgamentos anteriores. "A rede traiçoeira que fez chover bombas sobre o Parlamento, a Presidência e nosso povo foi condenada novamente perante a Justiça e a nossa nação", disse Omer Celik, porta-voz do AKP, partido de Erdogan.

O presidente —que segue no cargo até hoje— e seus aliados conseguiram neutralizar os rebeldes com apoio de militares fiéis e de apoiadores que foram às ruas se manifestar contra a ação.

Erdogan culpa o clérigo muçulmano Fethullah Gülen, um ex-aliado que vive nos Estados Unidos há duas décadas, pela tentativa de golpe. O religioso nega participação no episódio. Os pilotos dos caças que realizaram os ataques em Ancara e quatro pessoas próximas de Gülen receberam a pena de prisão perpétua sem direito a condicional, a pena mais dura que existe no sistema judicial turco.

Após a tentativa de golpe, o governo Erdogan decretou estado de emergência, passou a perseguir os apoiadores do clérigo e deu início a uma onda de repressão e expurgos.

Cerca de 290 mil pessoas já foram detidas por supostas ligações com Gülen e quase 100 mil delas estão presas enquanto aguardam julgamento, segundo a agência estatal Anadolu.

Além disso, 150 mil funcionários públicos foram demitidos ou suspensos após o golpe, e 20 mil pessoas foram expulsas das Forças Armadas. Ao menos 290 julgamentos relacionados com a tentativa de golpe já foram concluídos e outros nove ainda realizam audiências. Os tribunais condenaram até o momento cerca de 4.500 pessoas, sendo quase 3.000 a prisão perpétua, de acordo com os dados oficiais.

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