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The New York Times Eleições EUA 2020

Vença ou perca, Trump continuará sendo uma força poderosa e disruptiva

Seus 88 milhões de seguidores no Twitter dão a ele um megafone para ser uma voz influente na direita

Peter Baker e Maggie Haberman
Washington | The New York Times

Se o presidente Donald Trump perder sua aposta na reeleição, como parecia cada vez mais provável na quarta-feira (4), seria a primeira derrota de um presidente em exercício em 28 anos. Mas uma coisa parecia certa: quer ganhe quer perca, ele não irá embora tranquilamente.

Com menos votos que o ex-vice-presidente Joe Biden, Trump passou o dia tentando desacreditar a eleição baseado em alegações de fraude inventadas, na esperança de manter o poder ou explicar uma derrota. Ele poderia encontrar um caminho estreito para a reeleição entre os estados que ainda contam os votos, mas deixou claro que não recuaria da cena caso perdesse.

No mínimo, ele ainda terá 76 dias no cargo para usar seu poder como achar melhor e tentar se vingar de alguns de seus supostos adversários. Zangado com a derrota, ele poderá demitir ou colocar de lado diversos funcionários graduados que não conseguiram realizar adequadamente seus desejos, incluindo Christopher Wray, o diretor do FBI, e o doutor Anthony Fauci, principal especialista em doenças infecciosas do governo, no meio de uma pandemia.

Donald Trump
O presidente dos EUA e candidato à reeleição, Donald Trump - Mandel Ngan - 4.nov.20/AFP

Se for obrigado a desocupar a Casa Branca em 20 de janeiro, Trump provavelmente se mostrará mais resiliente do que se esperava, e quase certamente permanecerá uma força poderosa e perturbadora na vida americana.

Ele recebeu pelo menos 68 milhões de votos, ou 5 milhões a mais do que em 2016, e conseguiu cerca de 48% do voto popular, o que significa que manteve o apoio de quase metade da população, apesar de quatro anos de escândalos, contratempos, impeachment e a pandemia de coronavírus que matou mais de 233 mil americanos.

Isso lhe dá uma base de poder para desempenhar um papel que outros presidentes de um só mandato, como Jimmy Carter e George Bush, não desempenharam. Trump há muito fala sobre começar sua própria rede de televisão para competir com a Fox News e, em particular, ultimamente abordou a ideia de concorrer de novo em 2024, mesmo que então já tivesse 78 anos.

Apesar de seu tempo como candidato ter acabado, seus 88 milhões de seguidores no Twitter dão a ele um megafone para ser uma voz influente na direita, tornando-o potencialmente um criador de reis entre os republicanos em ascensão.

"Se algo está claro no resultado das eleições é que o presidente tem muitos seguidores e não pretende deixar o palco tão cedo", disse o ex-senador Jeff Flake, do Arizona, um dos poucos políticos republicanos que rompeu com Trump nos últimos quatro anos.

Esses seguidores ainda podem permitir que Trump consiga um segundo mandato e quatro anos para tentar reconstruir a economia e remodelar o Partido Republicano à sua imagem. Mas mesmo fora do cargo ele poderia pressionar os senadores republicanos que preservaram sua maioria a resistir a Biden a cada passo, forçando-os a escolher entre a conciliação ou contrariar sua base política.

As pesquisas de boca de urna mostraram que, independentemente de desertores republicanos proeminentes como o senador Mitt Romney, de Utah, e os Never Trumpers do Lincoln Project, Trump teve forte apoio dentro de seu partido, conquistando 93% dos eleitores republicanos. Ele também se saiu um pouco melhor com os eleitores negros (12%) e hispânicos (32%) do que há quatro anos, apesar de sua retórica frequentemente racista. E depois de sua blitz de alta energia em estados chaves os eleitores que decidiram tardiamente abriram seu caminho.

Alguns argumentos de Trump tinham um peso considerável com os membros de seu partido. Apesar da pandemia do coronavírus e do impacto econômico relacionado, 41% dos eleitores disseram estar melhor de vida do que quando ele assumiu o cargo, em comparação com apenas 20% que se descreveram como em pior situação. Adotando suas prioridades, 35% dos eleitores apontaram a economia como a questão mais importante, o dobro dos que citaram a pandemia. Ao todo, 49% disseram que a economia está boa ou excelente e 48% aprovaram o enfrentamento do coronavírus por seu governo.

"Se ele for derrotado, o presidente manterá a lealdade eterna dos eleitores do partido e dos novos eleitores que trouxe para o partido", disse Sam Nunberg, que foi estrategista da campanha de Trump em 2016. "O presidente Trump continuará sendo um herói para o eleitorado republicano. O vencedor das primárias presidenciais republicanas de 2024 será o presidente Trump ou o candidato que mais se assemelhe a ele."

Nem todos os republicanos compartilham essa opinião. Enquanto Trump sem dúvida continuará falando e se afirmando no palco público, eles disseram que o partido ficaria feliz em tentar superá-lo se ele perder, e que ele será lembrado como uma aberração.

"Nunca haverá outro Trump", disse o ex-deputado Carlos Curbelo, da Flórida. "Os imitadores vão falhar. Ele irá desaparecer gradualmente, mas as cicatrizes desse período tumultuado da história americana nunca vão desaparecer."

Na verdade, Trump falhou em reproduzir seu sucesso fortuito de 2016, quando conseguiu a vitória no Colégio Eleitoral, mesmo perdendo o voto popular para Hillary Clinton. Apesar de todas as ferramentas do mandato, ele não conseguiu pegar um único estado no qual não venceu na última vez, e na quarta-feira tinha perdido dois ou três, com alguns outros ainda no limite.

Para Trump, que se preocupa em "vencer, vencer, vencer" mais que quase qualquer coisa, ser conhecido como perdedor seria intolerável. No dia da eleição, durante uma visita à sua sede de campanha, ele refletiu em voz alta sobre isso. "Ganhar é fácil", disse a repórteres e funcionários. "Perder nunca é fácil. Para mim não é."

Para evitar tal destino, o presidente procurou na quarta-feira (4) convencer os apoiadores de que a eleição estava sendo roubada, simplesmente porque as autoridades estaduais e locais estavam contando votos feitos legalmente. O fato de que isso não era verdade evidentemente pouco importava para ele. Trump estava montando uma narrativa para justificar as contestações legais que até os advogados republicanos consideravam infundadas e, caso falhassem, para se apresentar como um mártir que não foi repudiado pelos eleitores, mas de alguma forma roubado por forças nefastas invisíveis.

O próprio Trump tem uma longa história na outra ponta das denúncias de fraude. Sua irmã afirmou que ele contratou outra pessoa para fazer o vestibular. As filhas de um médico do Queens, em Nova York, afirmaram que seu falecido pai deu a Trump um diagnóstico de problemas ósseos para protegê-lo do recrutamento para a Guerra do Vietnã, como um favor a seu pai, Fred Trump. E seus negócios frequentemente o enredam em acusações e processos judiciais.

Ele tem sido, para milhões, um símbolo dourado de aspiração e riqueza. Foi a estrela de uma popular série de televisão por 14 temporadas, que o apresentou ao país muito antes de ele se candidatar. E, assim que o fez, seus comícios turbulentos ligaram seus apoiadores a ele de uma forma que salienta o quanto ele é um fenômeno cultural.

Durante meses, à medida que suas chances de ser reeleito diminuíam, Trump disse a assessores —às vezes brincando, às vezes não— que se perdesse anunciaria prontamente que concorreria novamente em 2024. Dois assessores disseram acreditar que ele cumprirá essa declaração se suas contestações jurídicas fracassarem e ele for derrotado, medida que, pelo menos, permitiria levantar dinheiro para financiar os comícios que o sustentam.

Quando parecia que Trump perderia sua primeira campanha, em 2016, ele e alguns membros de sua família conversaram sobre começar uma empresa de mídia, vagamente concebida como "Trump TV". Algumas dessas conversas continuaram neste ano, de acordo com pessoas familiarizadas com elas.

"Não há dúvida de que ele é uma das figuras políticas mais polarizadoras da história moderna", disse Tony Fabrizio, um dos pesquisadores de campanha de Trump. "Seus partidários o adoram e seus adversários o insultam. Não há meio termo sobre Donald Trump."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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