Descrição de chapéu The New York Times

Antes um slogan de união, 'Je suis Charlie' hoje divide a França

Expressão surgiu após ataque terrorista à Redação de revista satírica em 2015

Norimitsu Onishi Constant Méheut
Paris | The New York Times

Horas após o atentado terrorista islâmico à revista satírica francesa Charlie Hebdo, em 2015, surgiu um slogan para lamentar os mortos e defender a livre expressão, que se espalhou como mágica pela França e o mundo por sua força unificadora: "Je suis Charlie" (eu sou Charlie).

Imagens da frase em letras brancas sobre fundo preto inspiraram milhões de pessoas que protestaram na França e foram apoiadas por líderes mundiais ocidentais e também de países muçulmanos.

Figuras famosas de Hollywood como George Clooney proclamaram "Je suis Charlie". E também a Maggie, de Os Simpsons. Todos se posicionaram como Charlie contra os terroristas que acreditavam que a revista havia insultado o islã com suas charges ironizando o profeta Maomé.

Mas o slogan antes unificador se tornou um fator de divisão na França —emoldurando debates complexos nas conversas cotidianas e na cultura popular, nas redes sociais e até como parte de currículos escolares.

"Eu sou Charlie" deu origem a "Eu não sou Charlie", e a uma pergunta que exige definir uma posição: Você é ou não é Charlie? A resposta coloca a pessoa em um dos lados das grandes fronteiras da França, incluindo liberdade de expressão, secularismo, raça, identidade nacional e, é claro, o islã.

A metamorfose do slogan expõe a polarização do discurso político na França, agravada pela decapitação de um professor e por dois outros ataques islâmicos recentes, após a republicação das caricaturas de Maomé pela Charlie Hebdo em setembro. Conforme ganhava vida própria, porém, o slogan ajudava a acentuar as divisões na França.

"Eu gostaria que a frase deixasse de existir, porque na forma que assumiu hoje aprofunda a divisão", disse Joachim Roncin, o designer gráfico que criou o slogan, que ele considerava um "cobertor de segurança: 'Je suis Charlie —estamos nisso juntos".

Hoje, alguém que é Charlie provavelmente é branco e apoia a publicação das caricaturas. No extremo, a pessoa pode apoiar um secularismo rígido que às vezes é uma cobertura para o anti-islamismo. Alguém que não é Charlie em geral é não branco e se opõe à publicação do desenho. A pessoa pode chegar a justificar o terrorismo islâmico ou a proibição de qualquer crítica à religião.

Antes um slogan que transcendia as divisões políticas, "Je suis Charlie" foi agora amplamente adotado pela direita e criou divisões na esquerda.

Gérôme Truc, sociólogo no Centro Nacional de Pesquisas Científicas, disse que o slogan foi constantemente usado como arma em "uma luta política que tenta gerar divisões, distinguir os que estão do nosso lado e os que estão contra nós".

O slogan colocou "lenha na fogueira" que arde na França, disse Truc, referindo-se a questões que, segundo ele, o país deixou de resolver nos últimos cinco anos, como o islamismo, a liberdade de expressão e o lugar da religião na vida pública.

Sua potencial explosividade ficou evidente durante uma entrevista recente que o presidente Emmanuel Macron deu a um site de notícias voltado para jovens, Brut. Um leitor de nome árabe, Karim, perguntou a ele: "Eu sou francês, amo meu país. Mas eu não sou Charlie. Tenho permissão para ser?"

Macron respondeu que Karim era, mas então acrescentou: "Acho que precisamos evitar esse slogan".
Na quarta-feira (16), um tribunal de Paris considerou 14 pessoas culpadas de colaborar nos ataques de 2015 à sede da Charlie Hebdo e a um supermercado judeu. Mas apesar de o veredicto representar uma solução jurídica, os efeitos das caricaturas na sociedade francesa ainda são sentidos.

Quando a Charlie Hebdo publicou pela primeira vez os desenhos, em 2006, o presidente na época, Jacques Chirac, conservador, denunciou sua publicação, pedindo "tolerância e respeito por todas as fés". Em 2015, o governo liderado pelo socialista François Hollande respondeu à série de ataques naquele ano, inclusive à casa de shows Bataclan, com uma forte mensagem de união nacional.

Neste outono, no rastro dos três ataques recentes, Macron defendeu com ênfase a republicação das caricaturas como "direito à blasfêmia". Essa posição causou protestos em países muçulmanos, críticas ou silêncio no Ocidente e deixou a França isolada.

Vincent Tiberj, sociólogo na Universidade Sciences Po de Bordeaux, disse que a opinião pública francesa foi moldada menos pela natureza dos ataques do que pelo discurso político e os atos que se seguiram.

Depois dos ataques de 2015 —que mataram cerca de 150 pessoas, em comparação com quatro nos três ataques deste outono—, a ênfase do governo na união nacional levou a uma maior tolerância em relação aos muçulmanos, segundo mostrou a pesquisa de Tiberj. Mas ele disse que a reação política depois dos ataques recentes, com linguagem que parecia misturar a religião islâmica com o extremismo islâmico, corre o risco de instigar as divisões.

Essas fissuras se ampliaram no arco da mudança do "Je suis Charlie".

Christophe Naudin, 45, sobreviveu ao ataque terrorista em 2015 ao Bataclan, onde 90 pessoas foram mortas, escondendo-se durante mais de duas horas em um quarto de despejo.

Naudin, que cresceu em uma família politizada, lembra que sua avó defendeu apaixonadamente o escritor Salman Rushdie, que foi ameaçado de morte depois de ofender muitos muçulmanos com sua novela "Os Versos Satânicos". Naudin disse que fez a assinatura da Charlie Hebdo em 2006 para demonstrar apoio à decisão da revista naquele ano de publicar caricaturas de Maomé.

Mas ele explicou que cancelou a assinatura no ano passado depois de ficar cada vez mais desconfortável com o tom editorial da revista. Ela às vezes produzia conteúdo que Naudin considerava islamofóbico. Ele é professor de história em uma escola secundária e recentemente publicou o livro "Diário de um Sobrevivente do Bataclan".

Uma ilustração na capa sobre o ataque terrorista de agosto de 2017 em Barcelona e um artigo do editor da revista, Laurent Sourisseau, pareciam misturar islã com islamismo, disse Naudin.

A revista não respondeu a diversos pedidos de entrevista. Em resposta às acusações de racismo, Sourisseau disse a um jornal francês que parte da esquerda estava presa a conceitos ideológicos rígidos e autocensura.

"Precisamos dizer as coisas mesmo quando elas são desagradáveis", afirmou.

O slogan de Charlie leva os franceses a dois extremos, disse Naudin, acrescentando: "Infelizmente chegamos a um ponto sem retorno, onde o discurso matizado não é mais audível".

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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