Biden nomeia deputada crítica de Bolsonaro para Secretaria do Interior

Primeira indígena à frente da pasta, Deb Haaland foi contra acordos entre Brasil e EUA

São Paulo

O presidente eleito dos EUA, Joe Biden, escolheu nesta quinta (17) a deputada Deb Haaland para ser secretária do Interior do novo governo. Ela vai chefiar terras públicas e reservas naturais, além de desempenhar um papel central na implementação da agenda ambiental e climática defendida na campanha pelo democrata.

Haaland tem olhos atentos para o Brasil: é uma congressista ativa em propostas legislativas contra o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) e, por diversas vezes, foi contra acordos entre Brasil e EUA.

Se confirmada, ela será a primeira indígena a liderar a pasta na história do país —o departamento também cuida de questões relacionadas aos povos nativos americanos, que somam cerca de 1,9 milhão de pessoas. Haaland já fez história antes, ao se tornar a primeira indígena americana a se eleger à Câmara.

Deb Haaland fala em um púlpito
As deputadas democratas Deb Haaland (à esq.) e Ilhan Omar durante entrevista coletiva em Washington - Mary F. Calvert - 25.jul.19/Reuters

Em outubro deste ano, Haaland e outros três congressistas divulgaram carta contra um Acordo de Proteção de Tecnologia, assinado por Bolsonaro e Trump em 2019, que prevê o uso da base de Alcântara, no Maranhão, pelos Estados Unidos.

O texto pedia que o governo americano não participasse de projetos que colocassem comunidades quilombolas brasileiras sob risco de "ataques racistas e desapropriações".

O pano de fundo era a discussão do orçamento anual destinado pelos EUA à Defesa e os planos de Trump para investir parte desse dinheiro em pesquisas e lançamentos de satélites do Centro de Lançamento de Alcântara.

Haaland também tentou buscar apoio na Câmara para esvaziar a designação dada pelo governo Trump ao Brasil de aliado preferencial fora da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

A congressista conseguiu aprovar uma emenda ao orçamento de defesa para obrigar o governo Trump a fazer um relatório sobre direitos humanos no Brasil —a medida foi sancionada pelo republicano.

Deputados democratas já vinham criticando diversos aspectos do governo Bolsonaro, principamente relacionados a questões de direitos humanos e política ambiental. “Queremos que os EUA aumentem o escrutínio em relação ao desrespeito aos direitos humanos no Brasil, especialmente nas violações contra indígenas e afro-brasileiros”, disse a deputada à Folha em maio do ano passado.

À época, Haaland e outros congressistas haviam enviado carta para o secretário de Estado, Mike Pompeo, alertando para “violações dos direitos humanos de comunidades indígenas e quilombolas no Brasil”.

Segundo ela, há muitos paralelos entre as violações contra territórios indígenas nos governos Bolsonaro e Trump. “O secretário precisa fazer alguma coisa, a população indígena brasileira está sob ataque neste momento crucial, em que o aquecimento global representa um enorme desafio, e há uma grande destruição da floresta amazônica. A população indígena precisa saber que estamos aqui para apoiá-la.”

No começo deste mês, um grupo de 22 deputados do Partido Democrata divulgaram outra carta, mas desta vez de solidariedade a Talíria Petrone, deputada federal (PSOL-RJ), com críticas às políticas “antidemocráticas e xenófobas” de Bolsonaro. Haaland era uma das signatárias.

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