Descrição de chapéu Retrospectiva da década

Com tantos vexames na década, '7 a 1' não vai embora nunca mais

Fruto de aberração futebolística, expressão passou a evocar ruína do orgulho nacional

O 7 a 1 não vai embora nunca mais. O que torna o placar de Alemanha x Brasil numa das semifinais da Copa de 2014 um ponto destacado na fraseologia da década não é um fator único. No fim das contas, é provável que “7 a 1” só tenha virado um símbolo tão bem-sucedido das derrotas humilhantes sofridas pelo país porque estas não estiveram em falta nos anos 2010.

Claro que o sucesso linguístico e cultural da expressão começa em campo, num resultado notável em si. Trata-se, disparado, do mais extraordinário placar da história das Copas do Mundo —uma goleada duríssima aplicada por um país multicampeão no país mais multicampeão de todos. E na casa deste. É provável que nada parecido jamais volte a ocorrer.

Naquele 8 de julho de 2014, o Mineirão foi palco de uma aberração futebolística que começou dramática, quando Thomas Müller marcou o primeiro gol, aos 11 minutos, e Miroslav Klose o segundo, aos 23. Contudo, o enredo não demorou a descambar para o ridículo: em poucos minutos, Toni Kroos (dois) e Sami Khedira fecharam o placar do primeiro tempo em 5 a 0.

O jogador Fred durante jogo contra a Alemanha em partida realizada no Mineirão pelas semi-final da Copa do Mundo FIFA 2014 - 08.jul.2014/Danilo Verpa/Folhapress

A segunda etapa foi disputada em ritmo de farsa, com os alemães preocupados em não humilhar demais os desarvorados anfitriões —o que, claro, só os humilhava mais— e acrescentando outros dois gols ao placar por rebeldia do atacante reserva André Schürrle, que não se conformou de entrar com a festa terminada. No último minuto do tempo regulamentar, em jogada individual, o meia Oscar marcou o gol brasileiro dito “de honra”, embora de honra não houvesse sinal.

Até então, o único placar do futebol que havia entrado para a língua como locução figurada era o 0 a 0 —outro emblema de fracasso, ainda que muito mais brando. No 0 a 0, de uso mais frequente em contexto sexual, nada acontece, todos os torpedos erram o navio e se perdem na água. No 7 a 1, como se sabe, o navio vai a pique. O nosso.

Para um país periférico de escassas glórias internacionais, dependente de façanhas esportivas e musicais para afirmar seu orgulho no concerto das nações, a goleada alemã em Belo Horizonte representou um trauma difícil de medir. De todo modo, foi diferente do desastre esportivo com o qual costuma ser comparado —a derrota de 2 a 1 para o Uruguai na final da Copa de 1950, no Maracanã.

Se o Maracanaço teve peso de tragédia, o Mineiraço foi comédia-pastelão. Com uma saraivada imediata de memes e piadas, nossa cultura popular tentou fingir que não doía tanto assim. “Gol da Alemanha”, passamos a dizer a propósito de qualquer revés. “É um 7 a 1 por dia”, ouvia-se sempre que a notícia de algum fracasso —político, social, moral— evocava o desmoronamento completo do orgulho nacional associado àquele fim de tarde no Mineirão.

Um detalhe fortuito ajuda a explicar o sucesso da expressão —o número sete, que desde a antiguidade se reveste de sentidos mágicos ou sagrados em variadas culturas. Se tivessem feito seis ou oito gols, os alemães não teriam deixado uma marca tão indelével em nossa linguagem. Sete são os dias de cada fase da lua, as maravilhas do mundo antigo, as portas de Tebas, os céus em diversas religiões, as cabeças da Besta do Apocalipse etc.

Em termos gramaticais, a expressão alfanumérica passou a ser empregada como uma espécie de substantivo comum, com o sentido de derrota estrondosa, cabal, desmoralizante: “Tremendo 7 a 1!”. Um gramático conservador poderia propor a forma “sete-a-um” —não há sinal de que a língua esteja inclinada a seguir por aí. Os dicionários ainda não registram a locução, mas deve ser questão de tempo.

O 7 a 1 anunciou uma temporada de fracassos confirmada no legado de obras faraônicas ou inacabadas dos dois megaeventos sediados pelo país —além da Copa de 2014, os Jogos Olímpicos do Rio, em 2016. Na euforia dos anos Lula, imaginava-se que eles marcariam uma apoteose brasileira aos olhos do mundo. Marcaram uma implosão.

Na Copa da Rússia, em 2018, quando a seleção foi eliminada pela Bélgica de forma digna, a sensação de 7 a 1 coube ao fiasco pessoal de Neymar, que chegou à competição cotado para ser seu maior craque e saiu dela como piada global, sinônimo de jogador cai-cai e chorão. Isso ofuscou até o ouro olímpico inédito que ele tinha ajudado o país a conquistar contra a Alemanha.

Neymar sofre falta de Adem Ljajic, jogador da Sérvia, durante a Copa do Mundo de 2018 - 27.jun.2018/Carl Recine/Reuters

Para encontrar o equivalente ao gol do Oscar no desempenho esportivo brasileiro da década, é preciso trocar o verde dos gramados pelo do mar. Gabriel Medina tornou-se o primeiro brasileiro campeão mundial de surfe, em 2014, feito que repetiria em 2018.

Fora do campo esportivo, o 7 a 1 pode ser mais ambíguo. O impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, dividiu o país entre os que viram nele a goleada alemã e os que viram nele o gol do Oscar. A derrota final —a implosão política de 2018— é que vai ficando cada dia mais indiscutível.

O 7 a 1 foi invocado depois que se rompeu a barragem de Mariana, em novembro de 2015, deixando 19 mortos. E voltou mais forte quando o desastre ambiental se repetiu —em versão ampliada— em Brumadinho, em janeiro de 2019, com 272 mortos.

Entre uma e outra tragédia, o incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, consumiu em poucas horas da noite de 2 de setembro de 2018 um acervo de 20 milhões de itens, reunido ao longo de dois séculos. “Já está feito, já pegou fogo, quer que faça o quê?”, reagiu o candidato Jair Bolsonaro, que logo seria eleito presidente.

Sob seu comando, o Brasil fecha uma década catastrófica em diversas frentes. Na economia, a pior série histórica do PIB (média de crescimento abaixo de 1,5% ao ano) já estava consolidada antes da depressão de 2020, ano em que se prevê um encolhimento de 4,4%. O negacionismo do governo foi decisivo para que o número de brasileiros mortos na pandemia se aproxime de 200 mil.

Na área ambiental, a Royal Statistical Society, de Londres, calculava em dezembro do ano passado —antes do agravamento do problema observado em 2020— que a floresta amazônica tinha perdido desde 2010 uma área equivalente a 8,4 milhões de campos de futebol. Quantos 7 a 1 caberiam nesses gramados?

Sérgio Rodrigues

Colunista da Folha

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