Descrição de chapéu Retrospectiva da década

Conheça 30 obras que ajudam a (tentar) entender o mundo na última década

Filmes, livros e podcast tratam dos assuntos mais importantes da política mundial entre 2011 e 2020

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São Paulo

Em apenas dez anos, o mundo viu as democracias entrarem em crise, o populismo se fortalecer, a China ascender de vez como potência global e o debate sobre identidade ganhar espaço.

Não é fácil, portanto, explicar os acontecimentos e consequências de tudo que aconteceu na década que termina daqui a nove dias.

Por isso, a Folha pediu a jornalistas e colunistas que indicassem obras que ajudassem, de alguma forma, a entender o que foi o período que vai de 2011 até o próximo dia 31.

A lista —que inclui livros, filmes, documentários, séries e até um podcast— traz o que de melhor foi produzido no mundo na última década em diversas áreas.

O debate sobre o racismo e as questões de gênero, por exemplo, aparecem em obras como “Necropolítica e “Sejamos Todos Feministas”, respectivamente do camaronês Achille Mbembe e da nigeriana Chimamanda Ngozi Adiche.

Há espaço também para a economia, como mostra “O Capital no Século XXI”, o livro que fez o debate sobre desigualdade virar assunto pop. Ou em “China 2049”, sobre os desafios que Pequim deve enfrentar nos próximos anos.

A relação entre a China e os EUA, que monopoliza as atenções do mundo neste fim de década, são representadas pelo documentário “Indústria Americana”.

Mas há espaço também para outros países além da disputa entre Washington e Pequim. Nações que ganharam destaque no noticiário nos últimos anos, como a Rússia, a Ucrânia e o Irã, também aparecem em algumas das 30 obras que compõem a lista.


LIVROS

"Necropolítica", de Achille Mbembe

N-1 edições; R$ 37,40; 80 págs​

Mbembe colocou no mapa a forma de fazer política presente em todo o mundo: matar e deixar morrer. Cortante como toda boa filosofia, Mbembe escreve sobre a “saída da democracia” a partir de seu olhar africano, combinando crítica econômica, política e teoria, definindo como poucos a última década. (Thiago Amparo)

"Making All Black Lives Matter - Reimagining Freedom in the 21st Century", de Barbara Ransby

University of California Press; R$ 97,85; 148 págs.

História e manifesto ao mesmo tempo, o livro trata da gênese do levante social mais importante da década, o movimento por vidas negras. A historiadora e ativista Ransby conta como uma hashtag criada por três mulheres negras de diferentes partes dos EUA se tornou um poderoso slogan "que ressona como um desafio moral e um tapa na cara": Black Lives Matter. Publicado em 2018, o estudo acompanha o surgimento e os dilemas, as rupturas e as retomadas da articulação que colocou o racismo e o antirracismo em pauta a partir de casos de violência policial que chacoalharam o país. Ransby explora as relações entre o levante e a era Obama, para o bem e para o mal. É o prelúdio perfeito para entender a explosão que viria com o assassinato de George Floyd. (Fernanda Mena)

"A Nova Segregação - Racismo e Encarceramento em Massa", de Michelle Alexander

Boitempo Editorial; R$ 64; 374 págs.

A guerra às drogas foi responsável pela prisão de 31 milhões de americanos desde 1980, 90% deles negros ou latinos. A jurista Alexander defende que este é apenas o capítulo mais recente da história de segregação racial —ora oficial, ora oficiosa— que marca os Estados Unidos. Alexander remonta os estigmas que justificaram e sustentaram o sistema escravagista, apontando pessoas negras como inferiores, violentas e preguiçosas. E revela como a abolição gerou novos mecanismos de opressão a pessoas negras por meio dos quais esses estereótipos foram meramente reempacotados. O título original do livro, The New Jim Crow, se refere às leis de segregação racial que emergiram nos EUA depois do fim da escravatura como forma de controle social, hoje desempenhado, na visão da autora, pelas leis de drogas. (Fernanda Mena)

"Sejamos Todos Feministas", de Chimamanda Ngozi Adiche

Companhia das Letras; R$ 17,43; 64 págs.

Neste ensaio bem-humorado e provocador, a escritora nigeriana enfrenta os estereótipos negativos historicamente construídos em torno do feminismo. Feministas seriam feias, bravas e infelizes. Teriam raiva dos homens tanto quanto dos sutiãs. Chimamanda usa dados e a descrição de situações cotidianas que revelam a profunda desigualdade de gênero tão presente no dia a dia das mulheres, incômoda, quando não violenta. A autora explica como as relações de gênero não acompanharam as mudanças do mundo. E ilustra como isso afeta homens e mulheres, aprisionados em modelos que fragilizam e frustram de parte a parte, ainda que gerem prejuízos objetivos evidentemente maiores para as meninas e mulheres. O livro é uma adaptação do discurso feito pela autora no TED Talk Euston, já visto online por mais de 6 milhões de pessoas. (Fernanda Mena)

"A Armadilha da Identidade - Raça e Classe nos Dias de Hoje", de Asad Haider

Ed. Veneta; R$ 33,92; 144 págs.

O que melhor explica as dinâmicas sociais contemporâneas: raça ou classe? Filho de imigrantes paquistaneses, mas nascido nos EUA, o doutor em história Haider encara essa questão a partir do entrelaçamento das histórias do racismo, do colonialismo e do capitalismo. A armadilha à qual ele se refere está em abordar as diferentes identidades sem considerar as relações sociais que as atravessam, fragmentando o poder coletivo em individualismos que buscam inclusão no mesmo sistema que os apartou e os prejudicou. Ao separar luta antirracista e luta identitária, Haider destaca a importância de uma "universalidade insurgente". (Fernanda Mena)

"O Capital no Século XXI", de Thomas Piketty

Ed. Intrínseca; R$ 57,90; 672 págs.

A obra que levou a discussão sobre a desigualdade para o centro do debate público ao mostrar que a concentração de renda tem aumentado. Nela, o economista francês apresenta as conclusões de 15 anos de suas pesquisas acadêmicas sobre o tema, com foco na história da desigualdade nos Estados Unidos e na Europa desde o século 18 até os dias de hoje. O resultado é, provavelmente, o principal livro de economia da década. (Bruno Benevides)

"Como Mudar sua Mente", de Michael Pollan

Ed. Intrínseca; R$ 21,90; 480 págs.

Ignore o título e a capa estilo autoajuda. O autor, um jornalista americano mais conhecido por escrever sobre comida, mergulha aqui no mundo das drogas psicodélicas e mostra o renascimento do interesse nessas substâncias nas pesquisas médicas e psicológicas nos Estados Unidos. Cogumelos mágicos, LSD e até um sapo fazem parte das experiências narradas no livro. (Bruno Benevides)

"The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom", de Evgeny Morozov

Ed. PublicAffairs; R$ 35,66; 428 págs.

Quando o mundo ainda aplaudia as redes sociais como aliadas na luta por liberdade na esteira da Primavera Árabe, o pesquisador bielorruso já apontava que a internet podia se transformar em uma ameaça à democracia. O resto da década —com a ascensão de líderes populistas, disseminação em massa de fake news e aumento do discurso de ódio— serviu para provar o ponto de Morozov. (Bruno Benevides)

"A Morte da Verdade", de Michiko Kakutani

Ed. Intrínseca, R$ 22,90, 272 págs.

Ex-crítica literária do jornal The New York Times, Kakutani analisa como o ataque às instituições e as tentativas de desmentir fatos reais viraram uma estratégia usada por políticos de direita como Donald Trump. Neste livro, publicado em 2018, ela debate conceitos que marcaram o debate político nos últimos anos, como as chamadas guerras culturais, a perda de valorização da razão e do conhecimento, a valorização de opiniões como se fossem fatos e a criação de bolhas e tribos. A autora também aborda como a direita englobou a narrativa da desconfiança em relação a instituições e ao “sistema”, que antes pertencia à esquerda. (Rafael Balago)

"This is Not Propaganda", de Peter Pomerantsev

Ed. PublicAffairs; R$ 34,05; 256 págs.

O livro do russo-britânico Peter Pomerantsev explora como a desinformação adquiriu importância crucial para autocratas nesta década. Antes de Donald Trump trivializar o termo “fake news” e logo depois de Vladimir Putin invadir e a anexar a Ucrânia, em 2014, Pomerantsev escreveu “Nothing Is True and Everything Is Possible”, baseado na década que passou na Rússia como produtor de TV, e mostrou que a autocracia do Kremlin copiou aspectos do entretenimento americano para manter o público desinformado. Em "This is Not Propaganda" (de 2019), o autor viaja a outros países documentando a erosão democrática trazida pela “censura através do ruído.” (Lúcia Guimarães)

"Os Testamentos", de Margaret Atwood

Ed. Rocco; R$ 27,89; 448 págs.

Obra vencedora do Booker Prize de 2019, se passa 15 anos depois dos acontecimentos relatados em "O Conto da Aia" e se baseia no que ocorreu com três das personagens do romance original. A criação da sociedade teocrática de Gilead é baseada em diversos episódios históricos verdadeiros, e serviu de inspiração, nos últimos anos, para o movimento feminista e para a crítica ao autoritarismo de nossos tempos. (Sylvia Colombo)

"Forgotten Continent: The Battle for Latin America's Soul", de Mike Reid

Yale University Press; R$ 79,25; 440 págs.

O ex-editor e colunista da revista The Economist, o autor trata dos dilemas da democracia na região diante de seus problemas históricos: a pobreza, a desigualdade e os sistemas econômicos herdados do período colonial. Os fenômenos populistas são estudados com parâmetros históricos e embasados. Reid conhece a região como poucos e tem acesso a bastidores políticos em vários países. (Sylvia Colombo)

"A Era da Ambição: Em Busca da Riqueza, da Verdade e da Fé na Nova China", de Evan Osnos

Companhia das Letras; R$ 58,32; 552 págs.

Escrito pelo ex-correspondente da revista The New Yorker em Pequim, o livro busca retratar a essência da China contemporânea. Osnos encadeia uma sequência de histórias centradas em personagens reais para cobrir temas como empreendedorismo chinês, mas também corrupção e controle da informação. A obra combina trabalho jornalístico com uma prosa agradável e bem-humorada sobre o país cuja ascensão marcou a última década. (Tatiana Prazeres)

"China 2049: Economic Challenges of a Rising Global Power", organizado por David Dollar, Yiping Huang e Yang Yao

Brookings Institution Press; R$ 162,69; 442 págs.

Em 2012, Pequim anunciou o objetivo de fazer da China um “país próspero, poderoso, democrático, culturalmente avançado e harmonioso”. Pretende atingir esta meta até 2049, ano do centenário da fundação da República Popular da China. Além de explicar o crescimento do país, o livro apresenta os desafios econômicos relativos às metas de 2049. Com artigos de diferentes autores, trata, por exemplo, de inovação e política industrial na China e da transição para uma economia de baixo carbono. (Tatiana Prazeres)

"The Caravan: Abdallah Azzam and the Rise of Global Jihad", de Thomas Hegghammer

Cambridge University Press; R$ 84,12; 718 págs.

O autor um dos grandes estudiosos do terrorismo, escreveu a biografia do ideólogo palestino Abdallah Azzam (1941-1989). Apesar de ser uma figura central para grupos radicais na região, havia pouca informação sobre ele até a publicação do livro. É uma leitura longa—mais de 700 páginas— mas explica muito sobre esta década. Azzam, afinal, é essencial para entendermos os movimentos terroristas que devastaram o Oriente Médio e organizaram atentados na Europa e nos EUA. (Diogo Bercito)

"Guerra Contra a Paz", de Ronan Farrow

Ed. Todavia. R$ 99,90; 480 págs.

O livro traça um panorama dos últimos governos americanos para mostrar um movimento de desvalorização da função do diplomata na política externa dos Estados Unidos e o nascimento de uma nova forma militarizada, especialmente após o ataque às Torres Gêmeas. Farrow, que é jornalista e vencedor do Prêmio Pulitzer, foi também funcionário do Departamento do Estado na gestão de Barack Obama e traz um olhar pessoal ao relato. Ele costura análises, dados e entrevistas exclusivas como a com a ex-candidata à Presidência Hillary Clinton —e ela diz, “a diplomacia está na mira das armas”. (Manoella Smith)

"Justiça – O que É Fazer a Coisa Certa", de Michael J. Sandel

Ed. Civilização Brasileira; R$ 59,90; 350 págs.

O autor dá um dos cursos mais populares de Harvard, de onde inclusive saiu o título do livro. Na obra, ele usa situações reais para explicar conceitos filosóficos abstratos, com enorme sucesso: é justo cobrar preços altos por gasolina em meio a um furacão ou o Estado deve interferir? Foi legítimo o governo americano resgatar grandes bancos após a crise de 2008, ou o certo seria deixar as instituições quebrarem e ajudar cidadãos comuns? A função da Justiça é maximizar o bem comum, respeitar a liberdade ou incentivar a virtude? Essas são algumas das questões abordadas no livro, mais necessário do que nunca, nestes nossos tempos de dilemas éticos profundos. (Patrícia Campos Mello)

"Breaking News: The Remaking of Journalism and Why It Matters Now", de Alan Rusbridger

Ed. Picador; R$ 60,18; 464 págs.

O ex-editor-chefe do The Guardian faz uma discussão profunda sobre o futuro da imprensa, num contexto em que veículos tradicionais têm sua primazia questionada. Sob o comando de Rusbridger, entre 1995 e 2015, o jornal britânico publicou diversas reportagens memoráveis, como o escândalo de hackeamento promovido pelo The Sun, as revelações do WikiLeaks e a espionagem promovida pelo governo dos EUA. Todas elas mostraram como o jornalismo segue sendo imprescindível, apesar do papel crescente das redes sociais. (Fábio Zanini)

PODCAST

Talking Politics

Criado por David Runciman e Helen Thompson; disponível em talkingpoliticspodcast.com e nas principais plataformas de streaming de música.

Criado para ajudar os ingleses a lidarem com o trauma do brexit, o podcast é uma produção de professores de Cambridge e se tornou rapidamente numa das maiores referências do debate sobre política global. Em quase meia década de programa, Runciman e Thompson comentaram ao vivo os grandes acontecimentos, como a eleição de Trump e a pandemia, sempre na companhia de alguns dos cientistas sociais mais em voga do momento, como Adam Tooze. Premonitório, o programa abriu espaço para estrelas em ascensão como Yuval Harari, que agora monopoliza as estantes de livrarias de aeroporto, se é que elas ainda existem. Talking Politics bateu a marca de 20 milhões de ouvintes em dezembro. Nada mal para um talk show de britânicos tímidos e eruditos. (Mathias Alencastro)

SÉRIES

"El Patrón del Mal"

Criadores: Juana Uribe e Camilo Cano; 74 episódios; disponível na Netflix.

Uma série sobre narcotráfico feita com responsabilidade, sem glamourizar o crime e que mostra as distintas facetas de Pablo Escobar, o mais mítico entre os barões da droga latino-americanos. Ao mesmo tempo, ela traça um retrato da Colômbia em seus anos de guerra ao narcotráfico e da violência que ainda divide o país. O programa conta com atuação magistral de Andrés Parra e é baseado no livro "La Parábola de Pablo", do jornalista e ex-prefeito de Medellín Alonso Salazar. (Sylvia Colombo)

"A Família"

Criador: Jesse Moss; cinco episódios; disponível na Netflix.

A série é baseada num livro do jornalista investigativo Jeff Sharlet que documentou um grupo secreto de cristãos de direita com a missão de se infiltrar na política e enfraquecer a separação constitucional entre Estado e religião. Num ano em que as teorias conspiratórias do grupo QAnon seduziram parte da ultradireita americana, o trabalho de Sharlet ajuda a iluminar o caminho para o extremismo que foi facilitado pela chegada de Donald Trump ao poder. (Lúcia Guimarães)

"House of Cards"

Criador: Beau Willimon; seis temporadas; disponível na Netflix

Virou moda desprezar a série à medida que as temporadas se acumulavam e o roteiro ficava mais e mais rocambolesco. O início da série, no entanto, em que Kevin Spacey e Robin Wright fascinam, alimenta com graça e tensão viciados em política americana. De certa maneira, assistir à trajetória do ambicioso deputado democrata que chega à Presidência dos EUA reflete o que o cargo se tornou, sobretudo com Donald Trump: entretenimento. (Daigo Oliva)

"The Handmaid's Tale"

Criador: Bruce Miller; três temporadas; disponível na Globoplay

Atire a primeira pedra quem não gosta de distopias. Em "Handmaid's Tale", muitas pedras são atiradas. Contra mulheres, sobretudo. Miragem de um futuro totalitário, em que os EUA são controlados por um grupo ultracristão movido por uma crise de fertilidade, a adaptação do romance de Margaret Atwood faz um retrato extremo de como seria viver num lugar onde os pilares das sociedades democráticas foram exterminados. Mulheres são meras reprodutoras, e a violência e o estado de vigilância imperam. Louvado não seja. (Daigo Oliva)

"Years and Years"

Criador: Russell T. Davies; seis episódios; disponível no HBO Go

Imigração, populismo, crise econômica, precarização do trabalho, questões de gênero e o temor de que a tecnologia apague nossas identidades permeiam a série que espelha os principais temas da última década —tudo envolto pela história de uma família, os Lyons, de Manchester. Assistir a “Years and Years” é revisitar o passado recente e se alarmar com o futuro. Ao fim do primeiro episódio, o que parece só uma ideia maluca se concretiza: nos últimos dias de Donald Trump na Casa Branca, os EUA lançam um míssil nuclear contra uma ilha artificial construída pela China. Irônico que um programa da estatal britânica BBC reflita tantas das angústias que provocaram o brexit. (Daigo Oliva)

FILMES

"Indústria Americana"

Dir.: Julia Reichert e Steven Bognar; 115 min; disponível na Netflix.

O avanço da China e a perda de terreno dos EUA esculpem o filme, ganhador do Oscar de melhor documentário em 2020. Realizada pela produtora de Michelle e Barack Obama, a obra relata a compra de uma antiga fábrica da GM por um empresário chinês, responsável por introduzir um plano de recuperação de atividade econômica e de empregos baseado no competitivo capitalismo alimentado pelo Partido Comunista de Xi Jinping. As lentes acompanham o choque cultural e a inversão de papéis, a surpreender quem estava habituado ao fluxo de investimentos oriundo dos EUA em busca de oportunidades chinesas. “Indústria Americana” desponta, portanto, como obra emblemática para compreender o desenho das relações sino-americanas na última década. (Jaime Spitzcovsky)

"Get me Roger Stone"

Dir.: Daniel DiMauro, Dylan Bank e Morgan Pehme; 101 min; disponível na Netflix.

O documentário conta a história de Roger Stone, um dos estrategistas por trás da vitória de seu então amigo Donald Trump na eleição de 2016, em uma campanha marcada pelo uso de ataques pesados, mentiras e estratégias para despertar sentimentos como medo e raiva nos eleitores. Stone defende que vale tudo para conquistar o poder, incluindo mentir e trapacear. E ele faz isso há décadas: atuou em campanhas eleitorais como as de Richard Nixon, em 1968, e de Ronald Reagan, nos anos 1980. E, em vez de integrar o governo depois, preferiu ser lobista e faturar em cima da sua proximidade dos republicanos no poder. Durante o governo Trump, Stone foi preso por tentar obstruir a Justiça, mas teve a pena retirada por um perdão do presidente. (Rafael Balago)

"No"

Dir.: Pablo Larraín; 117 min; disponível no Telecine Play.

Baseada numa obra de teatro de Antonio Skármeta, conta a história do plebiscito que pôs fim à ditadura de Augusto Pinochet no Chile. A narrativa acompanha os criadores da campanha do "não", ou seja, da rejeição ao regime, com excelente atuação de Gael García Bernal. O filme trata, também, de como a sociedade chilena vivia traumatizada pelos anos de chumbo naquele ano de 1988. (Sylvia Colombo)

"Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom"

Dir.: Evgeni Afineevski; 98 min; disponível na Netflix.

Em 98 minutos, o documentário revive os 93 dias de levante popular, entre novembro de 2013 e fevereiro de 2014, que culminou na renúncia do então presidente da Ucrânia, Viktor Ianukovich. O longa pincela o contexto que levou à revolta contra o mandatário, aliado do seu par russo, Vladimir Putin. Apesar das promessas de campanha em 2010, o mandatário não levou adiante a assinatura de um acordo com a União Europeia, o que aproximaria o país do bloco. O documentário foca a escalada de violência, que deixou mais de uma centena de mortos e precedeu o conflito pela anexação da Crimeia, no sul país. (Patricia Pamplona)

"O Ato de Matar"

Dir.: Joshua Oppenheimer, Christine Cynn e anônimo; 117 min.

De tão usada, a palavra "narrativa" virou clichê abjeto. A preocupação com a construção de narrativas sempre dominou a história política, e os populistas mais recentes deixaram isso ainda mais evidente. Em "O Ato de Matar", o golpe militar na Indonésia, nos anos 1960, permeado de atos bárbaros, é contado por meio de reencenações dos assassinatos de comunistas e imigrantes chineses. No processo, os personagens —os próprios torturadores que cometeram os crimes— lidam com traumas e percebem que a verdade é turva. (Daigo Oliva)

"Isto Não É um Filme"

Dir.: Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb; 75 min.

Panahi é uma instituição do cinema iraniano, ainda que o regime do país não o reconheça assim. Durante o período em que esteve em prisão domiciliar, acusado de fazer "propaganda contra a república islâmica", o cineasta filmou seu cotidiano confinado. Panahi estava proibido de fazer filmes, mas não de ler roteiros, e o apartamento virou cenário de como ele burlou a censura. A década viu o crescimento de governos autoritários com o verniz da democracia. "Isto Não É um Filme" mostra o que acontece por baixo do verniz. (Daigo Oliva)

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