Descrição de chapéu Coronavírus

Depoimento: 'Durante confinamento em Milão, brincadeiras acompanham o impacto da pandemia'

Há mais de 300 dias, Itália lida com idas e vindas de restrições, incluindo fechamento de escolas

Milão

A boneca 1 encontra a boneca 2 e caminha em sua direção: "Oi, amiga, tudo bem?", "Tudo! E você?". Corta. "Mami, pausa na brincadeira. Vamos fazer de conta que não tem o vírus e que elas podem se cumprimentar com beijos?", me pergunta Rosa, 6, há mais de 300 dias convivendo com o coronavírus.

As suas brincadeiras acompanham o impacto da pandemia na nossa rotina, mas na fantasia quem manda é ela. Naquele universo blindado, suas criaturas podem fazer festas, dormir uma na casa da outra, viajar.

Bem diferente dos dias reais, em que precisa passar mais de sete horas com máscara cirúrgica dentro da sala de aula, não pode convidar nem visitar amigos, fazer festa de aniversário, receber os avós nem planejar, ainda, sua viagem até o Brasil.

Crônicas da quarentena - Milão​
Rosa, 6, durante o confinamento em casa, em Milão - Rafael Jacinto/Arquivo Pessoal

Aquela garotinha que, como escrevi aqui em março, estava inconformada com o fechamento dos parquinhos, no início da quarentena obrigatória na Itália, dez meses depois parece viver o vaivém de restrições com resiliência. Ainda que, vez ou outra, diante de algum "a gente não pode", ela se aborreça: "Eu odeio esse vírus".

O caminho até aqui, porém, foi longo. Na véspera de acordarmos, no dia 21 de fevereiro, com a notícia de que o vírus circulava pelo norte do país, tínhamos passado o fim de tarde na casa de uma colega que fazia cinco anos. Umas 15 crianças e alguns pais aglomerados no quentinho de uma sala pequena toda fechada.

As cenas de Wuhan, em lockdown na China, pareciam surreais demais para entrarem em nossa vida. E, no entanto, dois dias depois, a região da Lombardia, onde fica Milão, anunciava a suspensão de aulas, atividades culturais e esportivas. Mais duas semanas e estaríamos 60 milhões sem poder sair de casa.

Primeiro, vieram medo e incompreensão. Foi a fase mais aguda porque, mesmo sem entendermos direito a dimensão do que acontecia, tentávamos explicar os perigos e por que precisávamos nos proteger e obedecer às regras.

Rosa, 6, na banheira de casa, em Milão
Rosa, 6, na banheira de casa, em Milão - Rafael Jacinto/Arquivo Pessoal

Para ela, a bagunça e o entusiasmo das "férias" inesperadas deram lugar, uma quinzena depois, à letargia, uma falta repentina de energia e vontade de brincar. Despertados pelo fato de que aquela não seria uma situação breve, reajustamos horários de acordar e dormir, comer, fazer algo criativo e algo em movimento.

Depois da Páscoa, a escola estreou uma programação online mesmo para os pequenos. Não seriam aulas didáticas, mas encontros diários pela manhã e à tarde com a intenção de manter o vínculo entre as crianças e o delas com as "maestras".

Foi um ponto de inflexão. Rosa detestava, antes da pandemia, conversar pela câmera. Ficava tímida, corria para debaixo da mesa. Com a turma, foi se soltando e aprendendo a levantar a mão, abrir o microfone e participar das brincadeiras —o bingo virtual foi um sucesso.

Ver pessoinhas como ela, todas em casa, e falar de coisa de criança, esquecendo um pouco das doenças, tiveram como efeito uma explosão criativa. Passou a desenhar e a pintar com avidez, inventar figurinos, criar brinquedos com fita-crepe, construir cabanas pós-modernas.

cronicas da quarentena - milão​
Michele e Rosa jogam amarelinha na sala de casa, durante confinamento em Milão - Rafael Jacinto/Arquivo Pessoal

Impressionada pelo parágrafo final de Natalia Ginzburg no primeiro texto do livro "As Pequenas Virtudes", busquei viver os dias sem tentar imaginar o que viria depois. A italiana, escrevendo sobre uma experiência real durante a Segunda Guerra, mostra que o futuro pode ser pior.

Começou assim a fase dos jantares temáticos: noite elegante, piquenique no chão da sala, festa surpresa mesmo sem aniversários. Outro que virou clássico foi o "jantar na poltrona do avião", sentada numa espreguiçadeira reclinável, com fone de ouvido e tablet e o prato sobre uma bandeja —duas horas de paz, porque os adultos precisam viver.

Depois da reabertura, nos meses do verão, quando contágios e mortes foram praticamente zerados, corremos para resolver pendências acumuladas, colocar em dia as consultas médicas e voltar a parques, museus e a encontrar outras crianças ao ar livre, sempre no combo distanciamento-máscara-álcool em gel.

O espaço público e a liberdade de movimento que tanto faltaram no primeiro semestre puderam ser reconquistados, antes da fúria da segunda onda, com números trágicos e mais restrições. Nos fechamos de novo em casa. Tudo junto, vieram a apreensão pela volta às aulas e a saudades dos avós, a quem não vemos há um ano.

Na escola, a primeira série vai bem, e ela começa a ler e escrever suas palavrinhas, uma conquista emocionante. Ainda que a Lombardia tenha recebido as maiores limitações dessa fase, a escola continuou aberta, ao menos para os pequenos, o que faz uma diferença brutal para eles e os pais.

São muitos os cuidados, certamente ela não vive a experiência deste início com plenitude, mas tem ali garantidos seus momentos de aprendizado, brincadeira e convivência. Desde setembro, só uma pessoa da classe foi contaminada, e todos entraram em quarentena obrigatória por duas semanas, sem maiores consequências.

Já a distância dos parentes, no Brasil, está mais difícil de resolver agora. O mais perto que chegamos disso foram os dias de férias na região de Molise, em julho, com nossa amiga e seu pai, que nos mimaram muito. Rosa viu nele a figura de um avô carinhoso e até hoje comenta de quando ele lhe ofereceu "refrigerante laranja" pela primeira vez. Eu ainda não tive coragem de contar que, quatro meses depois, ele morreu de Covid-19.​

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