Descrição de chapéu Coronavírus

Devastada no início da pandemia, cidade na Espanha resiste a nova investida de Covid-19

Tomelloso perdeu 1% de seus habitantes para o coronavírus, mas autoridades dizem ter aprendido a lição

Benjamin Bouly Rames Hazel Ward
Tomelloso (Espanha) | AFP

De pé, em frente ao necrotério do hospital, Lourdes Visus treme ao lembrar da incessante procissão de carros fúnebres para recolher corpos de vítimas da Covid-19 —pacientes que havia atendido horas antes.

Quando a pandemia explodiu, ela trabalhava como auxiliar de enfermagem em Tomelloso, uma pequena cidade espanhola na comunidade autônoma de Castela-Mancha que viu a morte se multiplicar.

Visus conta que, nos primeiros dias da crise sanitária, aproveitava os intervalos para fumar e dar um grito "porque precisava disso". "Mas tive que parar de vir para este canto, quando vi que, assim que levavam um cadáver, já vinha outro carro fúnebre, constante, constante. Era muito doloroso."

Toda a Espanha foi duramente afetada na primeira fase da pandemia, mas a população de Tomelloso viveu um sofrimento particular. A cidade perdeu quase 1% de seus 36 mil habitantes.

Homem usando máscara de proteção visita túmulo no cemitério de Tomelloso, na Espanha - Oscar del Pozo - 19.nov.20/AFP

Neste novo aumento dos casos na Europa, a história tem sido outra, com cifras mais baixas. Mas as lembranças e os traumas ainda estão frescos na memória. Cerca de 300 pessoas foram sepultadas no cemitério municipal durante a primeira onda, conta à agência AFP a prefeita Inmaculada Jiménez.

"A cada dia podiam ser enterrados uns 10, 11, 12 vizinhos. Foi muito duro", recorda.

Antes da crise sanitária, Tomelloso era conhecida pelos vinhedos e por ser uma parada na rota turística que segue os passos de Dom Quixote, o personagem mítico de Miguel de Cervantes.

Mas em meio à pandemia, a imprensa chegou a chamá-la de "Wuhan de La Mancha", em alusão à cidade chinesa onde o novo coronavírus foi detectado pela primeira vez.

'Parece mentira'

O vírus poupou poucas famílias da cidade. Ángeles García, 50, por exemplo, perdeu em março sua mãe, que passou uma semana internada. A filha não teve permissão para visitá-la, e as informações que recebia do sobrecarregado hospital eram escassas.

"Às 3h, ligaram. Foi rápido. Às 13h15 fomos diretamente para o cemitério", lembra.

O fato de não ter podido se despedir a abalou, e ela levou meses até conseguir falar no assunto. "Quando é assim, tão de repente, parece mentira. É como se a tivessem atropelado."

No mesmo hospital, Francisco Navarro, 56, precisou lutar pela vida após desenvolver pneumonia dupla.

"Fiquei ali dez dias, tentando respirar", conta o jornalista, para quem ter ficado horas de bruços diariamente tentando puxar o ar foi "uma tortura".

Ele sobreviveu, mas sofre de cansaço, arritmia e melancolia. "Eu me tornei muito sentimental, choro muito, qualquer coisa me emociona, me faz reviver aquilo um pouco."

Uma 'guerra'

Em 31 de março, no hospital de Tomelloso, com 90 leitos, uma equipe exausta e sem material suficiente para se proteger tratava 141 pessoas com Covid-19.

Visus fez um diário contando sua experiência. Ela se emociona ao ler o que escreveu em 20 de março, dias depois de a Espanha anunciar o confinamento. "Vai nos deixar muitas baixas esta guerra, que gerou um ataque massivo à população e provocará efeitos colaterais", escreveu na ocasião.

"Vou ao hospital alguns dias ajudar minhas colegas e, em outros dias, sinto tanto medo que me dá vontade inclusive de ligar e dizer que tenho sintomas, que vou ficar em casa em quarentena", continuou.

Três dias depois, destacava: "Como têm sido estes dias? Caóticos. Não há material para o pessoal sanitário e estamos expostos ao inimigo constantemente. Enfrentamentos com todo o mundo, que impotência!"

As casas de repouso para idosos também sofreram bastante e, no começo de abril, 177 dos 400 desses lares na região registravam infecções. Em uma residência com 170 leitos em Tomelloso, 74 pessoas faleceram, segundo cifras oficiais.

Aprender a lição

Agora, quando a Espanha e a Europa em geral enfrentam uma nova alta de casos de coronavírus, Tomelloso tem conseguido evitar o pior e conta apenas 13 óbitos entre maio e setembro.

"Hoje há nove hospitalizados com Covid-19 no hospital de Tomelloso", diz David Vicente Huertas, da assessoria de Saúde de Castela-Mancha.

A diferença, em sua avaliação, é que na primeira onda os casos eram diagnosticados quando os pacientes chegavam à emergência, enquanto agora a detecção ocorre muito antes, graças a 620 rastreadores.

Depois da suspensão do "lockdown", em junho, a prefeita manteve restrições, como o cancelamento de festividades e o fechamento da piscina municipal no verão.

"A situação em Tomelloso hoje está muito contida, somos umas das cidades de Castela-Mancha com menor número de casos por número de habitantes, o que quer dizer que funcionaram as medidas que implantamos, assim como a cautela dos moradores", diz.

Navarro concorda que a melhora foi fruto de um esforço coletivo. "Aprendemos muito bem a lição com a primeira onda e desde então a temos levado muito a sério."

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