Descrição de chapéu Deutsche Welle

Dez anos após início da Primavera Árabe, Tunísia não tem o que celebrar

País vive clima de decepção e protesto, provocado pela precária situação social e econômica

DW

Uma década já se passou desde que o ambulante Mohamed Bouazizi morreu após atear fogo ao próprio corpo na cidade de Sidi Bouzid, como protesto pelo tratamento arbitrário que recebera das autoridades policiais. São dez anos que, do ponto de vista dos tunisianos, não terminaram como esperado.

O aniversário das manifestações, que viraram a Primavera Árabe, é marcado por uma atmosfera peculiar de decepção e protesto, que não pode ser explicada apenas pela precária situação social e econômica.

Manifestantes se reúnem em Sidi Bouzid, na Tunísia, para lembrar os dez anos do início da Primavera Árabe
Manifestantes se reúnem em Sidi Bouzid, na Tunísia, para lembrar os dez anos do início da Primavera Árabe - Fethi Belaid/AFP

A autoimolação de Bouazizi teve consequências que ninguém poderia prever. Os protestos que eclodiram em seguida levaram à queda do ditador Zine el-Abidine Ben Ali. Ele fugiu com a família para a Arábia Saudita, onde morreu em 2019.

Depois dele, caíram um a um governantes de outros países árabes, como Iêmen, Egito e Líbia. Mas o que se seguiu nessas nações não foi liberdade e democracia, mas uma opressão muitas vezes ainda mais forte e uma violência aberta que resultou em guerra civil.

Também na Tunísia as esperanças associadas ao levante não se tornaram realidade. Existe um monumento a Mohamed Bouazizi na rua Habib Bourguiba, no centro de Sidi Bouzid. Mas com muita frequência os tunisianos passam por ele sem lhe dar atenção, pois têm outras preocupações.

"O tecido social da Tunísia está esfacelado de muitas maneiras", diz a blogueira e historiadora Amine Bouazizi, que não é parente de Mohamed Bouazizi. Ela explica que os grupos adversários, os partidários do antigo regime e os ativistas da revolução são facções não claramente definidas, já que se confundem com inúmeras correntes que se sobrepõem.

A complexidade da situação também se reflete em Sidi Bouzaid. Muitos cidadãos da cidade sentem uma forte amargura —não apenas devido à contínua pressão social e econômica após dez anos, mas também porque têm a impressão de que todos os sacrifícios, inclusive os de vidas humanas, foram em vão.

Por mais de meio século, parece-lhes que o progresso passou ao largo de sua cidade, assim como de todo o país. A luta pela independência (1956) e depois a ditadura parecem não ter dado frutos. Eles compartilham esses sentimentos com muitos cidadãos de outras partes do país.

Novos protestos

Em muitos lugares, há repetidos protestos reunindo oponentes dos governos pós-revolucionários de todas as direções políticas imagináveis —entre eles, partidários do antigo regime.

Milhares de jovens estão fugindo do empobrecido interior do país —onde a taxa de desemprego é, em alguns casos, bem superior à média nacional, de cerca de 16%— para os subúrbios empobrecidos de Túnis e das grandes cidades costeiras, como Sfax e Sousse.

Lá eles esperam a oportunidade de cruzar o mar entre a Tunísia e a Sicília a bordo de um barco.

De acordo com organizações não governamentais, cerca de 12 mil tunisianos cruzaram o Mediterrâneo nos últimos 11 meses. Ao mesmo tempo, o país registra centenas de desaparecidos —pessoas que provavelmente pagaram com a vida pela tentativa de realizar a travessia.

A família de Mohamed Bouazizi —sua mãe e alguns de seus irmãos— também decidiu, anos atrás, emigrar para o Canadá, para evitar assim o assédio a que foi exposta após o suicídio.

Governo hesitante

Poucos dias antes do aniversário de dez anos, neste 17 de dezembro, Hicham el-Mechichi, o chefe da coalizão governamental composta por várias facções, reuniu-se com representantes da sociedade civil.

No entanto, a mídia do país expressou dúvidas sobre se o governo estaria realmente disposto e se seria capaz de enfrentar os grandes desafios dos próximos anos.

Atualmente há um movimento de protesto significativo. Algumas das manifestações geraram tumultos e violência. Houve paralisação da produção de alguns setores importantes da indústria nacional —como as fábricas de petróleo e gás na região de Kamour, no extremo sul do país.

As minas de fosfato no estado de Gafsa, na fronteira com a Argélia, também tiveram que ser fechadas temporariamente. Esses e outros protestos em setores econômicos estratégicos afetaram adicionalmente a economia do país, já enfraquecida pela pandemia de coronavírus.

De acordo com cálculos do Banco Central da Tunísia e do Fundo Monetário Internacional (FMI), o Produto Interno Bruto (PIB) da Tunísia terá uma queda de 7% neste ano —o pior balanço desde a independência, em 1956. Isso eleva a dependência do governo do apoio dos parceiros europeus e o força a pedir empréstimos adicionais.

A elite política continua a enfatizar a intenção de manter o regime democrático. Mas há evidências de que a autoridade do Estado está diminuindo, pelo menos nos lugares e regiões onde protestos e formas de desobediência civil são mais marcantes.

À medida que as tensões aumentam no país, crescem as preocupações com a segurança e estabilidade nacional. Muitos tunisianos temem que um acirramento da situação afete a ainda frágil democracia, restringindo a liberdade de expressão e as atividades de partidos e organizações da sociedade civil —precisamente aquelas que são consideradas as maiores conquistas do ano revolucionário de 2011.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.