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Diário de uma refugiada: venezuelana relata experiência de migrar ao Brasil

Mulheres do país caribenho em crise mudam perfil da imigração no país; saiba quem são elas

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A venezuelana Francis Salazar, 41, em sua casa em São Paulo

A venezuelana Francis Salazar, 41, em sua casa em São Paulo Bruno Santos/Folhapress

Viçosa (MG)

​São Paulo, 7 de setembro de 2020

Hoje foi um dia maravilhoso. Depois de quase um ano de luta consegui, graças a um primo na Venezuela, comprar um telefone que permite fazer chamadas de vídeo. Pude ver meus pais, meus filhos e meu irmão. Eu os vi, os vi ao vivo, e eles me viram. Colamos no telefone como se pudéssemos entrar e nos abraçar. Foi difícil, mas consegui, e o melhor, consegui não chorar na frente deles. Ao terminar a chamada, fiquei pensando no tanto que quero dizer e no muito que devo calar.


Assim Francis Salazar descreve o que considera sua maior conquista neste ano difícil: um celular para que possa ver seus filhos, de 12 e 4 anos, em movimento, mesmo que a distância. Jorge e Emily ficaram na Venezuela com os avós depois que a mãe decidiu migrar para o Brasil em busca do sustento da família. Veio sozinha e achou mais seguro deixar as crianças com os avós até ter uma mínima estrutura e poder trazê-los para perto dela. Foi a decisão mais dura de sua vida.

Venezuelana, migrante, mãe solteira, cabeça da casa, com o coração entre dois países”: é como Francis se define hoje, aos 41 anos. Em meados de 2018, ela não viu outra saída a não ser deixar sua cidade, Pariaguán, onde conhecia todo mundo, tinha casa e carro próprios e uma carreira construída com sua formação em direito e administração, e se mudar para um país onde nunca havia pisado.

Relutou em dar esse passo porque sabia que teria muito a perder, mas decidiu-se no dia em que chegou exausta e chorando em casa, após um périplo para comprar um simples antitérmico para a filha.

31 de agosto de 2020

Sempre há um evento que nos marca e nos leva a sair. No meu caso, foi o dia em que minha filha ficou doente. Ela tinha acabado de fazer dois anos. Teve febre durante toda a noite. Saí procurando um medicamento com ela nos braços e terminamos chorando juntas. Eu, pela impotência. A febre não cedia. Depois de caminhar por mais de duas horas em uma cidade onde o sol é inclemente e o transporte público inexistente, na única farmácia onde encontrei o remédio, o dinheiro que tinha não era suficiente para comprá-lo. Graças a Deus uma pessoa se aproximou, me indicou uma antiga farmácia onde alguns medicamentos tinham preço antigo. Quase grito quando consegui. Voltei para casa e, ao chegar, me senti quase desfalecer. Foi ali que lembrei que não tinha comido nada o dia todo. Parece estranho como coisas tão importantes nos passam batido quando alguém mais nos preocupa. Ela se recuperou, mas meu coração se partiu nesse dia.

Depois de cruzar a fronteira com o Brasil, Francis passou três semanas em Boa Vista e de lá se mudou para São Paulo. Chegou à cidade com apenas 45 kg em seu corpo de 1,58 m, sugada pelo estresse e pela falta de alimento —hoje, pesa 64 kg.

Teve que começar do zero. Conseguiu alguns trabalhos, mas ficou sem emprego durante a pandemia e agora faz faxina em um restaurante enquanto não encontra algo mais estável. Para ocupar o tempo, ajuda conterrâneos trabalhando como voluntária em uma ONG e apresentando um programa em uma rádio para imigrantes.

A história de Francis é uma entre as mais de 5 milhões de venezuelanos que deixaram o país fugindo da crise econômica e política desde 2015. É o segundo maior êxodo forçado da atualidade no mundo, perdendo apenas para a Síria, e a maior crise de refugiados da era moderna na América Latina. No Brasil, sexto destino para eles na região, estima-se que sejam 264 mil.

A Folha propôs que Francis escrevesse um diário durante um mês, em um convite para que ela pudesse revisitar sua trajetória como imigrante e expressar um pouco do que teve que calar nesses dois anos e meio de exílio. De 31 de agosto a 28 de setembro, ela juntou escritos, fotos e desenhos em um caderno, entremeando passagens de seu dia a dia com lembranças. Alguns desses trechos serão transcritos ao longo desta reportagem, e a íntegra pode ser lida neste link.

1º de setembro de 2020

Chegou o dia 28 de julho de 2018. Sei que não devo chorar na frente de ninguém. Devo seguir adiante com a alma e o coração partidos. Já não se trata do que quero, mas do que devo fazer. Há dias sinto que minhas pernas pesam e me custa respirar. Tenho um nó na garganta. Minha mãe esquiva meu olhar e meu pai olha para o chão quando me vê. Sei que eles fazem isso para não chorar. Papai chega perto de mim e me pede perdão por não poder me dar mais, quer continuar cuidando de mim como se fosse uma menina. Papai, agora é minha vez de zelar por vocês. Hoje selamos um pacto. Vocês cuidam dos meus filhos e eu lhes enviarei dinheiro para todos os seus gastos. Sei que temem pela minha segurança. Eu temo não voltar a vê-los. Meus filhos sentem a tensão na casa, mas não conseguem assimilar o que acontece. Jorge tem apenas dez anos, e o vejo como meu sol, nasceu quando eu me sentia mais forte. E Emily, com apenas dois anos, é minha lua. Chegou para iluminar minhas noites mais escuras. Acham que a mamãe voltará logo. Eu só espero que algum dia possam me perdoar por ter me afastado. Não quis me despedir de amigos nem de outros familiares, não dou conta de tanto.

Mulheres como Francis mudaram o perfil demográfico das migrações internacionais no Brasil, estando muito mais presentes do que em outros fluxos de deslocamento até então, predominantemente masculinos.

Segundo um levantamento feito pela Folha em duas bases de dados da Polícia Federal e do Ministério da Justiça, as mulheres são 46,7% entre os venezuelanos que chegaram ao Brasil entre 2010 e 2020 —quase dez pontos percentuais acima da média geral, de 37,2%. Essas bases incluem solicitantes de refúgio, refugiados reconhecidos e demais imigrantes com Registro Nacional Migratório e, somadas, são a melhor aproximação possível do número real, segundo o Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), que auxiliou na análise.

Como comparação, as mulheres são 33% entre os imigrantes sírios, 36,4% entre os haitianos, 41,6% entre os congoleses e apenas 3% entre os senegaleses. A proporção de venezuelanas supera inclusive os números da migração boliviana, conhecida por ser mais feminina que as demais (46,4%).

Os dados também mostram que a presença de mulheres entre imigrantes venezuelanos vem aumentando com o tempo. Isso tem sido notado por organizações que atendem refugiados no Brasil, como a Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, que destacou esse aspecto ao apresentar seus números do primeiro semestre de 2020: pela primeira vez, o percentual de mulheres se equiparou ao de homens entre os mais de 3.800 refugiados atendidos no período.

Elas foram 48% neste ano, enquanto no primeiro semestre de 2019 eram 43% e, em 2018, 33%. Os dados incluem pessoas de todas as nacionalidades, mas o aumento na proporção de gênero foi atribuído ao deslocamento de venezuelanos —mais da metade dos atendidos pela instituição—, que chegam pela fronteira terrestre, muitas vezes com famílias, e têm um perfil diferente do de outros fluxos, que vinham via aeroporto. Também foi registrado aumento no número de gestantes e de famílias chefiadas por mulheres.

“Ano a ano, o número de mulheres venezuelanas chegando ao Brasil e a proporção delas em relação ao de homens têm aumentado”, diz Silvia Sander, associada de proteção do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur).

Segundo ela, uma das explicações é que se trata de uma migração mais familiar, na qual chegam muitas mulheres com filhos e outros parentes ou para se reunir com companheiros que vieram antes.

Outro fator atrativo é a formação de uma estrutura de acolhimento montada em Roraima, incluindo abrigos, apoio para obter documentação e programa de interiorização para outras regiões do Brasil, o que faz com que elas se sintam mais seguras para vir.

Sander também assinala que, com o agravamento da crise na Venezuela, cada vez mais mulheres chegam em situação de grande vulnerabilidade, muitas delas grávidas buscando pré-natal ou tratamento médico e remédios para elas ou para filhos doentes, algo que não conseguem em seu país.

4 de Setembro de 2020

Venho de uma cidade pequena na Venezuela, Pariaguan, a terra sonhada, onde viveram famílias por gerações, os vizinhos se transformam em parentes e quase todos nós conhecemos. Em São Paulo tudo isso não existe. Quando me informaram que São Paulo foi escolhida como meu destino, os que me conheciam em Boa Vista me olharam como se eu fosse uma estrela de rock e não entendi o porquê. É que se trata do maior do Brasil, e o Brasil já é grande. É uma cidade de contrastes que vibra sozinha, que tem uma energia que te captura. Viver entre tanta diversidade cultural, o acesso à tecnologia, as oportunidades de poder se reinventar a cada momento é uma experiência única. Muitos dizem que é tão especial que você pode ter até quatro estações em um só dia e eu acredito nisso.

Relatórios de organizações locais e internacionais apontam que as mulheres são especialmente afetadas pela crise na Venezuela, vivenciando riscos como desnutrição na gravidez, mortalidade materna por falta de pré-natal e de condições adequadas nos hospitais para o parto, escassez de contraceptivos e pressão para trocar comida por sexo.

18 de setembro de 2020

Decidi voltar a checar diariamente as notícias da Venezuela. Antes me limitava aos títulos, para não me estressar mais. Não tenho palavras que possam descrever a profunda tristeza, frustração e preocupação que me causa conhecer o deplorável estado de tudo.

Hoje consegui fazer outra videochamada com meus filhos. Vejo a alegria em seus olhos e acredito que os meus também brilham. Mas hoje meu filho se afastou da câmera, esticou os braços e me disse: ‘mamãe, quero um abraço’. Tive que interromper a chamada, disse que perdi o sinal. Não queria que me visse chorar. Eu também quero te abraçar, filho. Anseio por poder tirar vocês daí. Merecem uma oportunidade. Luto cada dia por tê-la. Tenho fé de que estaremos juntos de novo e te darei todos os abraços que te devo.

Das 140.774 pessoas em situação de deslocamento forçado registradas no sistema do Acnur no Brasil, 95% são da Venezuela. Destas, 46,7% são mulheres, das quais 31% são menores de idade, e 3%, idosas. Entre elas, 18% são chefes de família que vieram sozinhas com seus filhos, e 13%, lactantes.

Segundo Rosana Baeninger, coordenadora do Observatório das Migrações em São Paulo do Núcleo de Estudos de População Elza Berquó, da Unicamp, é possível notar a presença significativa de mulheres em todas as fases da migração da Venezuela para o Brasil, com diferentes perfis em cada uma dessas etapas.

Autora de diversos estudos sobre o tema e de um atlas sobre a distribuição dos venezuelanos pelo país, ela identifica até agora três ondas nesse deslocamento. Na primeira, de 2012 a 2014, chegaram por via aérea as venezuelanas mais qualificadas, enviadas pelas empresas multinacionais onde trabalhavam. “Vieram muitas executivas, gerentes, cientistas. Elas chegavam não só como chefes de famílias, mas vinculadas à mobilidade do capital internacional”, diz.

Também teve forte presença feminina a segunda onda de migração, de 2015 a 2017, quando pessoas de classe média começaram a vir por conta própria tanto de avião quanto por terra. Muitas das mulheres eram profissionais liberais, mas a maioria não revalidou o diploma e acabou tendo que trabalhar em outras áreas no Brasil.

A partir de 2018, com a piora da crise humanitária na Venezuela, intensifica-se a chegada pela fronteira com Roraima de imigrantes de renda mais baixa. “É uma migração absolutamente familiar, e a presença feminina é muito vinculada a isso”, afirma a pesquisadora. “Vemos várias famílias monoparentais femininas, mulheres com filhos e também famílias estendidas: vêm a mãe, a tia, a irmã, os netos.”

Nessa fase, trata-se de uma migração fortemente dirigida pelo Estado e por ONGs, por meio da Operação Acolhida, que auxilia esses imigrantes na fronteira e patrocina sua ida para outras regiões do país.

Essa organização facilita que elas se regularizem e, com isso, favorece sua inserção no mercado de trabalho brasileiro, diferentemente de outras imigrantes, que ficam mais restritas aos nichos étnicos —como as bolivianas na cadeia da costura.

“Não há uma cadeia global de imigrantes venezuelanos. Eles não estavam no petróleo lá e vão estar no petróleo aqui”, explica Baeninger. “Isso traz uma oportunidade única para a sociedade brasileira. Precisamos melhorar como sociedade multicultural e só vamos aprender isso quando tivermos um colega de trabalho de outra nacionalidade do lado.”

Outro fator que favorece a interação das venezuelanas com a sociedade brasileira é que muitas delas vêm com filhos pequenos —estima-se que mais de 23 mil crianças dessa nacionalidade estão matriculadas na rede de ensino do país. “Estando ou não no mercado de trabalho, essas mulheres terão que acompanhar os filhos na escola. Essa socialização via educação abre um leque de novas interações sociais com os brasileiros”, diz Baeninger.

24 de setembro de 2020

Quando digo que sou da Venezuela, alguns brasileiros falam que é um país rico e de lindas mulheres. Me perguntam, com certa surpresa, como é possível termos passado de um dos países mais ricos a um dos mais pobres em 20 anos. Ter ao lado um ditador é algo que inquieta o brasileiro. Meu país está em mãos de um ditador medíocre e nefasto que arruinou a vida de milhões de pessoas.

Outra pergunta que reflete a inquietação do brasileiro com a Venezuela é que pedem minha opinião sobre o governo do Brasil. Me perguntam se acredito que vai se transformar em algo parecido com a Venezuela. Rogo a Deus para que esta ideia nunca se torne realidade. Procuro não opinar sobre a política do Brasil, só me limito a deixar uma reflexão. Lhes peço que levem a sério tudo o que se refere à política. Um mau gerente pode acabar com o futuro de várias gerações. Sou a prova viva disso.

Saindo da invisibilidade

O olhar sobre as migrações femininas é um fenômeno recente. Mulheres sempre migraram, mas por muitas décadas foram desconsideradas ou tratadas como coadjuvantes tanto em pesquisas acadêmicas quanto no planejamento de políticas públicas.

Nas décadas de 1970 de 1980, pesquisas feministas na Europa e nos EUA começaram a inspirar o estudo das migrações sob a perspectiva de gênero. No Brasil, esse processo foi ainda mais tardio e ocorreu principalmente a partir do ano 2000.

“Foi também quando as migrações internacionais em geral ganharam mais atenção da academia. O foco antes disso estava nas migrações internas, que também, até hoje, não se preocupam tanto com gênero”, diz Roberta Peres, professora da Universidade Federal do ABC e coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello (que promove pesquisas sobre refúgio) na instituição.

Segundo ela, hoje se sabe que as mulheres são protagonistas no processo migratório. “O fato de estarem com familiares não significa que sejam apenas acompanhantes de uma figura masculina. Elas mobilizam a família, têm um papel importante na tomada de decisões. No caso das venezuelanas isso fica muito claro”, diz. “Quando tratamos o migrante somente como homem ou como figura sem gênero, perdemos especificidades importantes.”

17 de setembro de 2020

Hoje recebi uma ligação de um amigo que conheci em Boa Vista. As coisas não foram bem para ele no Brasil e decidiu voltar para a Venezuela. Ele me conta coisas que meus pais não me dizem sobre a situação do país. Me comenta que o que eu vejo na televisão e pelas redes sociais é pouco comparado com o que se enfrentam dia a dia. Isso me entristece. De onde estou, só posso apoiar aos que estão aqui na ONG com a qual trabalho. Eles começaram uma campanha para entregar cestas básicas a imigrantes e brasileiros mais vulneráveis. É um trabalho que esgota, mas vale a pena. É toda uma família que se salva da fome. Neste momento a solidariedade do brasileiro com o próximo é o que me faz querer trazer meus filhos para cá. Quero que aprendam essa lição de humanidade e que entendam que esses pequenos gestos são o que engrandecem um país.

Mesmo nas migrações dos séculos 19 e início do 20 no Brasil, quando chegaram principalmente europeus para trabalhar na lavoura, as mulheres já tinham um papel ativo, observa Gláucia de Oliveira Assis, coordenadora do Observatório das Migrações em Santa Catarina e professora da Udesc.

“Elas vieram em número expressivo e contribuíam com o rendimento familiar, trabalhavam na terra, eram importantes na inserção da família no novo país e na manutenção dos contatos na sociedade de origem. Mas suas experiências não eram narradas”, afirma.

“A migração é atravessada pelos padrões de gênero da sociedade”, continua. “Aos homens sempre foi dada a liberdade de migrar, de se aventurar. Eles são retratados como desbravadores, os monumentos aos imigrantes são sempre masculinos. Já as mulheres que migravam sozinhas eram vistas sob suspeita.”

Assis observa que um dos fatores que puxaram o aumento das migrações femininas no mundo a partir da década de 1970 foi a demanda do mercado de trabalho por serviços domésticos e no setor de cuidados.

“Para que as mulheres do Norte global pudessem trabalhar, elas precisavam de alguém que cuidasse de suas casas. E, com o envelhecimento da população, a necessidade de profissionais da área de cuidados também aumentou. Assim, muitas migrantes do Sul global chegam para trabalhar como domésticas, enfermeiras. São em geral trabalhos precários, não regulamentados."

Com as venezuelanas de hoje não é diferente. Os dados da Polícia Federal mostram que muitas dessas imigrantes no Brasil são vendedoras, cozinheiras e faxineiras, além de trabalhadoras de salões de beleza.

“É o mercado que está disponível para elas. Algumas faziam faculdade ou têm doutorado na Venezuela, mas se tornam cuidadoras de idosos, atendentes de lanchonete aqui”, diz Assis.

É o mesmo mercado que vem sendo reservado às migrantes internas, ou seja, às brasileiras que migram de regiões mais pobres para grandes metrópoles, observa Baeninger, da Unicamp. “São o comércio e os serviços domésticos para elas e a construção civil para eles.”

A pesquisadora destaca que, como a Venezuela já foi um país próspero, as mulheres puderam ser escolarizadas, já estavam no mercado de trabalho, têm menos filhos e mais autonomia —e trazem essas características ao migrar.

No caso dos imigrantes venezuelanos no Brasil, a proporção dos que concluíram o ensino médio é igual entre os dois sexos (29% elas e 30% eles), mas mais mulheres têm curso superior completo (11%, contra 6,7%), segundo dados do Acnur.

Quando consideradas mulheres migrantes no mundo todo, 40% das que têm emprego estão excessivamente qualificadas para os postos que ocupam, de acordo com levantamento da OIT (Organização Internacional do Trabalho), que também revela que as mulheres são 73,4% dos trabalhadores domésticos migrantes.

13 de setembro de 2020

Gosto de ser produtiva. Aos 30 anos tinha um filho, trabalhava como assessora jurídica de uma construtora, gerente de uma lavanderia e administradora de uma emissora de rádio. Eu tinha conseguido comprar minha casa e meu carro, estava me organizando para iniciar minha própria empresa. Já se passaram 11 anos disso tudo, parece que foi em outro mundo. Apesar de não negar que seja frustrante sentir que tantos conhecimentos não sejam aproveitados só pelo fato de não ter nascido aqui, sei que posso dar mais. Sou útil para este país. Por agora me limito a lavar pisos e esfregar pratos para levar o pão à mesa. Sei que como eu estão muitos dos meus conterrâneos. Continuo trabalhando no que consigo, esperando por minha oportunidade, pois ter um trabalho estável e bem remunerado me trará a estabilidade emocional que tanto desejo.

De acordo com o Migration Policy Institute, a quantidade de migrantes do sexo feminino vem aumentando no mundo, tanto em números absolutos quanto em participação no total. A maioria delas vive em países desenvolvidos, especialmente na Europa e na América do Norte.

Na América Latina, de 2000 a 2019, o número de migrantes internacionais mulheres cresceu em uma velocidade maior do que o de homens, segundo dados da divisão de população da ONU. Em 2019, elas eram 49,9% do total na região.

A OIM (Organização Internacional para as Migrações) recomenda que os países considerem as diferenças de gênero dentro do processo de assistência a migrantes, inclusive por meio do registro e da divulgação de dados categorizados por sexo.

No Brasil, onde essas estatísticas estão fragmentadas, a Folha recorreu a diferentes bases e pesquisas, muitas das quais com amostras parciais em relação ao total, para traçar um perfil de quem é a mulher venezuelana.

Exploração sexual, violência doméstica e outros riscos

A migração de mulheres tem características diferentes da dos homens em todas as suas etapas —antes, durante e depois do deslocamento. Uma delas é a rede que elas acionam para obter informações e apoio no novo país: geralmente familiares ou pessoas de confiança.

“Elas criam estratégias e se cercam de cuidados para diminuir os riscos de migrar. No caso dos homens essas redes são mais dispersas”, diz Peres.

Segundo um levantamento deste ano feito pela PUC Minas e pela Unicamp com 2.475 imigrantes —incluindo 668 venezuelanas—, 58% dessas mulheres chegaram ao Brasil por meio de informações obtidas com a família, bem mais do que a média geral (41%). Em Roraima, muitas vezes os projetos de recepção e auxílio na fronteira cumprem esse papel.

2 de setembro de 2020

Para se ter uma ideia de como é viver em um abrigo, há que pensar em colocar em uma casa de vários quartos mais de 50 pessoas com diferentes idiomas, culturas e opiniões. Na verdade é a fórmula perfeita para o caos. Mas, mesmo que vocês não acreditem, isso não acontece. Em todos os abrigos onde estive encontrei uma coisa em comum entre os que os administram: uma grande sensibilidade humana e amor ao próximo. Meu primeiro abrigo, Missão Paz, é um espaço que sinto como meu lar, onde ouvir tantas vozes em diferentes idiomas virou música para meus ouvidos e paz para minha alma, porque sou um deles.

Meço 1,58 m e pesava 45 kg ao chegar. Todos pensavam que estava muito doente. Como lhes explicar que a falta de alimento, o estresse, e não uma doença, provocavam minha magreza? O alimento que eu realmente precisava veio da mão das pessoas que trabalhavam na Missão Paz. Eles me fortaleceram o espírito e acreditaram em mim quando eu mesma não conseguia. A eles, meu eterno agradecimento.

Os "riscos de migrar" aos quais Roberta Peres se refere são variados. Durante a viagem e mesmo após a chegada, elas estão mais sujeitas a serem vítimas de tráfico de pessoas, exploração sexual, assédio, estupro e outros tipos de violência. Estima-se que uma em cada cinco refugiadas tenha sofrido violência sexual no mundo.

“São os mesmos desafios que outras mulheres enfrentam relacionados à desigualdade de gênero, mas, no caso das refugiadas, isso é agravado pelo contexto de deslocamento forçado”, diz Sander, do Acnur.

A dificuldade de acesso a informações sobre direitos —como a lei Maria da Penha— e a serviços de apoio, devido a barreiras linguísticas ou culturais, as torna mais vulneráveis.

Os perigos são maiores para alguns grupos, como menores de idade, mulheres negras, indígenas, as que viajam sozinhas e as trans. A quantidade de mulheres trans venezuelanas, aliás, apesar de ser pequena em números absolutos, vem crescendo e é maior do que em outros fluxos migratórios.

Em Roraima, é conhecido o caso das “ochenta”, venezuelanas que se prostituem pelo valor de R$ 80.

"Temos relatos de mulheres que nunca tinham feito trabalho sexual na Venezuela e, uma vez chegando aqui, por situação de absoluta necessidade, acabam se submetendo ao sexo por sobrevivência”, diz Sander. “Tem ainda mulheres que viajam com os filhos, chegam sem ter onde dormir e conseguem acolhimento em locais que não são seguros. Ali, ficam desprotegidas.”

As migrantes também estão muito expostas à violência doméstica, até pelo conflito entre as normas de gênero em sua cultura e no país de destino.

“Elas chegam ao Brasil, têm oportunidade de trabalhar, ficam mais independentes e empoderadas e isso pode gerar conflito no contexto familiar”, explica Sander. “A cultura venezuelana não é tão distante da nossa quanto a de alguns países árabes, por exemplo, mas mesmo assim algumas delas contam: ‘Falei com meu companheiro que aqui não se pode bater, aqui tem lei para isso’.”

Gláucia Assis diz que algumas refugiadas relatam que a Venezuela é um país mais sexista que o Brasil.

"Na sociedade brasileira, com todas as suas contradições, a mulher vem ganhando espaço. A tendência é que as migrantes também abram esses espaços para elas. Isso tem que ser negociado com o companheiro e nem sempre é fácil, pode levar ao conflito e à violência dentro de casa.”

Outro desafio enfrentado pelas imigrantes é a falta de rede de apoio para o cuidado com os filhos pequenos. Longe das mães, tias e vizinhas conhecidas, elas muitas vezes se tornam as únicas responsáveis pelas crianças, o que dificulta sua inserção no mercado de trabalho formal.

Um exemplo da disparidade entre homens e mulheres no acesso ao emprego é o que se vê nos dados da Operação Acolhida. Dos mais de 41 mil interiorizados de Roraima para outros estados brasileiros de abril de 2018 a agosto de 2020, 43% são mulheres. Porém, na modalidade específica pela qual os imigrantes já viajam com vaga de trabalho garantida, elas são apenas 19%.

Um drama também comum entre essas mulheres é ter que deixar os filhos para trás, geralmente aos cuidados de tias ou avós. Segundo o levantamento da PUC Minas e da Unicamp, 29% das venezuelanas entrevistadas têm filhos vivendo em outro país.

Em dois terços dos casos, as crianças ficaram na própria Venezuela, mas também há as que estão na Colômbia, no Peru, no Equador, no Chile e na Espanha.​

31 de agosto de 2020

Há uma decisão que você deixa por último porque é a que você não quer tomar, a que mais dói: quem devo deixar para trás? E quem levo comigo? Meus filhos são meu maior motivo para sair, mas não sei aonde vou nem o que posso encontrar. A segurança deles é minha prioridade. Meus pais, por outro lado, não estavam em condições de sair. Minha avó, com 93 anos, não sai nem de sua casa, muito menos do país. Minha mãe cuida da minha avó, meu pai adora a minha mãe e jamais a deixaria sozinha. Então decidi empreender sozinha esta aventura. Eles se têm um ao outro, e isso me alivia um pouco.

“Em vários relatos surge a narrativa, sempre muito comovente, sobre a escolha de Sofia que elas fazem. Com poucos recursos, elas têm que vir primeiro sem os filhos ou só com alguns deles, às vezes os que precisam de medicamento ou tratamento médico com mais urgência”, diz Sander.

A esperança é de trazer o restante da família quando conseguirem se estabelecer, o que muitas vezes demora. “A gente vê o tamanho da angústia e da ansiedade que elas têm em conseguir trabalho o mais rapidamente possível", acrescenta.

"[Em outros fluxos migratórios] às vezes elas ficam 10, 15 anos sem vê-los. Já voltam com eles grandes e uma dor imensa por esse tempo que passou”, diz Assis.

5 de setembro de 2020

Quando saí, só trouxe uma mala com um pouco de roupa e minha documentação. Tudo o que eu conseguir além disso já é um ganho. Trabalhar é um alívio, é a meta de tanto sacrifício pessoal, ser capaz de sustentar meus filhos, meus pais, é uma pressão que não se tira nunca. Neste momento, por causa da pandemia, fiquei sem trabalho fixo. E, apesar de o idioma seguir sendo uma barreira, pois meu sotaque me denuncia e grita que não sou brasileira, continuo praticando, estudando. Estou decidida a fazer com que me entendam. Cheguei muito longe para me deter por algumas palavras. Meu currículo está pronto e meu ânimo está no alto. Ai vou, São Paulo, vou por você.

A pesquisadora acrescenta que, no caso das venezuelanas no Brasil, ao menos a facilidade de regularização facilita a reunificação familiar, algo que não acontece, por exemplo, nos EUA.

A pandemia de Covid-19, porém, dificultou esses e outros planos. Pela pesquisa da PUC Minas, enquanto a proporção de venezuelanas sem trabalhar era de 50% antes da crise sanitária, agora o índice subiu para 75%.

Para enfrentar o cenário, 70% delas tiveram que reduzir despesas, e 15% pediram empréstimos para amigos ou bancos. Cerca de 20% disseram estar em uma situação que dificulta sua sobrevivência.

Quando questionadas sobre suas preocupações com o futuro, a maioria citou duas necessidades básicas: saúde e segurança alimentar. Mais de 90%, porém, responderam que pretendem ficar no Brasil e não têm plano de retornar imediatamente à Venezuela ou migrar para outro país.

14 de setembro de 2020

Há poucos dias uma amiga chorava desconsolada porque um de seus irmãos morreu devido ao coronavírus na Venezuela. O pior pesadelo de quem emigra se tornou realidade para ela e sua situação me afetou. E é que perder um ser querido já é duro, mas quando você não pode dizer o último adeus você sente que o luto não termina.

Nestes dias, ouvi vários de meus conterrâneos pensando em voltar para a Venezuela. Repetem uma frase constantemente: ‘Se vou morrer, que seja na minha terra’. Cada vez que escuto isso lembro quão longe estou de casa e de alguma maneira me faz sentir indefesa. A ideia de morrer longe da minha família, não permitir a eles fechar esse ciclo, me entristece. Não queria nunca causar essa dor a eles. Só me resta me cuidar o melhor possível, rezar e repetir a cada dia: ‘Senhor, faça-a sua vontade, não a minha’.

Estigma

Enquanto em alguns países latino-americanos, como Peru e Colômbia, as venezuelanas se queixam de serem estigmatizadas como prostitutas, “mulheres fáceis” e “rouba-maridos”, no Brasil a percepção é de que o preconceito existe, mas não é tão forte e está mais concentrado na fronteira do que em outras cidades.

Segundo Pires, a discriminação costuma aparecer depois de algum tempo de chegada do fluxo. “No caso das haitianas, por exemplo, passaram a ser vistas de vítimas do terremoto a invasoras quando o número de chegadas aumentou. Já as venezuelanas foram recebidas como aquelas que escapavam de uma ditadura, mas depois veio o olhar de que vieram se aproveitar, principalmente as grávidas ou com filhos, que precisam usar o sistema de saúde pública e de ensino do Brasil”, diz.

Ela afirma que mulheres latino-americanas, que muitas vezes têm traços indígenas, costumam sofrer mais xenofobia. “O brasileiro enaltece algumas migrações e trata outras como indesejadas, especialmente as de não brancos e não qualificados.”

Para Francis Salazar, apesar de o brasileiro ter pouca informação sobre a Venezuela além da questão da ditadura e da fome, a recepção às venezuelanas fora da fronteira é boa. “A melhor acolhida que tem é aqui no Brasil. Em Roraima, Manaus, Porto Velho tem discriminação, mas em São Paulo não vi isso. Conheço venezuelanos que estiveram no Peru, na Argentina, e todos dizem que a xenofobia lá é mais forte”, afirma.

25 de setembro de 2020

Hoje conheci uma jovem venezuelana que chegou a São Paulo há um mês. Passou vários meses em Boa Vista. Sua situação atual me fez lembrar muitas coisas que achei que tinha esquecido. Na fronteira, a relação entre os venezuelanos e os nacionais é tensa. A xenofobia é lei, a falta de oportunidade de emprego cria uma competição quase selvagem. O choque cultural é mais forte, o calor é sufocante, o que esgota física e mentalmente e não ajuda a acalmar os ânimos.

Aqui em São Paulo consegui ter um círculo de amizades que durante esta quarentena cresceu em seu apoio e palavras de ânimo. Definitivamente tenho um vínculo com esta cidade. É onde aprendi a amar o Brasil e, apesar de em princípio sua grandeza ter me constrangido, me sinto cômoda aqui. Parte do meu coração é paulista.

Sander, do Acnur, lembra que quanto mais os serviços públicos dos locais de acolhida forem pressionados, maior é o risco de xenofobia. “Por isso é importante não deixar os desafios pura e simplesmente na mão das redes locais. Nas cidades que recebem um fluxo massivo, quando não tem apoio, a resistência é maior e as falas estigmatizantes também.”

Especialistas que estudam migração e gênero são unânimes em ressaltar a necessidade de políticas públicas e iniciativas de organizações sociais voltadas especificamente para a proteção de mulheres imigrantes. No Brasil, há alguns projetos, a maioria ligada a ONGs, que apoiam o empreendedorismo feminino de refugiadas, por exemplo.

Mas existem lacunas especialmente nas políticas públicas estaduais e municipais. “Cada estado vai adotando políticas emergenciais para atender esses migrantes, e elas nem sempre estão formatadas em termos das relações de gênero”, diz Assis. “No caso dos venezuelanos, mesmo com o aparato de apoio que foi montado, muitos municípios não estão preparados para atendê-los.”

Sander diz que a experiência nos projetos para empregar mulheres venezuelanas tem sido positiva. “Muitos empregadores contratam as venezuelanas como uma aposta, uma tentativa, e depois retornam pedindo que encaminhemos mais trabalhadoras. Rapidamente eles vão tendo essa percepção e notam o potencial dessas pessoas que chegam com tanta gana de recomeçar.”

Para Francis Salazar, a experiência de fazer o diário ajudou a revisitar sua trajetória e serviu como uma "terapia". "Chorei muito quando estava escrevendo. Um monte", lembra. "Mas serviu para olhar para mim mesma, pensar: 'Nossa, o que fiz? E agora tenho força para fazer mais. Porque sinto que o pior já passou."


Depois de terminar o diário, Francis conseguiu um emprego como monitora de segurança de uma escola e comprou passagens para trazer seus filhos da Venezuela. A viagem está prevista para março de 2021.

*Esta reportagem é resultado do laboratório de produção de jornalismo “Refugiados e Migrantes” e faz parte de uma série de publicações executadas com o apoio da Fundação Gabo e do Acnur (agência da ONU para refugiados).

Colaborou Leonardo Diegues 

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