Em ação de êxito improvável na Justiça, 17 procuradores apoiam Trump contra vitória de Biden

Republicanos se recusam a aceitar derrota, e especialistas veem iniciativa como manobra publicitária

Jeremy W. Peters Maggie Haberman
The New York Times

Não obstante o fato de dezenas de juízes e tribunais terem rejeitado contestações da eleição, nesta quarta (9) os procuradores-gerais republicanos de 17 estados americanos apoiaram o presidente Donald Trump em sua campanha legal cada vez mais desesperada e temerária para reverter os resultados do pleito.

Contida em um documento legal apresentado à Suprema Corte, a manifestação de apoio representou a tentativa mais recente de partidários de Trump de utilizarem o poder de seus cargos públicos para ajudar o presidente em seu esforço para continuar a negar a realidade de sua derrota, lançando acusações infundadas de fraude eleitoral.

A iniciativa é um esforço para substanciar uma ação judicial aberta na terça-feira (8) pelo procurador-geral do Texas, que é pró-Trump, visando atrasar a certificação dos eleitores presidenciais em quatro estados disputados em que o presidente perdeu. Trump se aferra à esperança de que a Suprema Corte delibere sobre a ação e lhe conceda um segundo mandato. Mas especialistas legais estão céticos e descartam a iniciativa como pouco mais que uma manobra publicitária.

O presidente dos EUA, Donald Trump, ao desembarcar do avião presidencial na base aérea de Maryland - Jonathan Ernst - 12.out.20/Reuters

Na noite de terça, o presidente perguntou ao senador republicano Ted Cruz, do Texas, se ele estaria disposto a defender o caso, informou uma pessoa ciente da conversa. Cruz teria concordado. E o presidente apresentou uma moção à Suprema Corte para intervir, o que o tornará parte na ação.

A disposição de tantos políticos republicanos de se envolverem publicamente em uma campanha legal para invalidar o voto de milhões de americanos ressalta como Trump ainda é uma figura singular no Partido Republicano.

O fato de esses aliados políticos também serem funcionários eleitos cujo trabalho envolve a implementação das leis, incluindo os direitos de voto, destaca a natureza extraordinária do documento submetido à Suprema Corte.

Mesmo com o presidente tendo sido derrotado –uma realidade que um número significativo de republicanos se recusa a aceitar, segundo pesquisas de opinião—, a lealdade a Trump é vista como bilhete de acesso a cargos superiores.

Cruz é apenas o mais recente potencial candidato presidencial republicano em 2024 a expressar apoio às alegações sem fundamento de Trump de que os resultados da eleição foram fraudulentos e contaminados –alegação que os advogados do presidente até agora não conseguiram comprovar na Justiça.

De fato, na moção do presidente no processo do Texas, seu advogado contornou a ideia de que teria havido fraude galopante, escrevendo que as reportagens da mídia sobre a ausência de provas “erraram o alvo”, porque a questão mais importante seria se autoridades estaduais afrouxaram as salvaguardas eleitorais “de modo que as fraudes se tornam indetectáveis”.

Outro senador republicano com ambições presidenciais, Josh Hawley, do Missouri, elogiou na quarta-feira o procurador-geral de seu estado, Eric Schmitt, depois de Schmitt ter declarado no Twitter que “o Missouri está na luta” por Trump. “Bom trabalho”, escreveu Hawley em resposta.

O gabinete de Schmitt lidera o documento judicial submetido à Suprema Corte na quarta-feira, argumentando em nome dos outros 16 Estados que vieram à tona “preocupações sérias relativas à integridade da eleição e à confiança pública em eleições”.

Republicanos que acompanham a dinâmica nesses estados –em todos os quais Trump foi vencedor—descreveram cálculos de ambição e sobrevivência política feitos por muitos republicanos quando optam por se posicionar com Trump.

Alguns receiam que, se não deixarem claro que estão do lado do presidente, podem ter suas pré-candidaturas contestadas nas primárias ou que isso pode assinalar o fim de qualquer esperança de chegarem a cargos políticos mais altos no futuro próximo. Alguns cogitam candidatar-se a governador; é o caso de Ken Paxton, o procurador-geral do Texas, que apresentou a ação judicial.

Trump vem fazendo tentativas reiteradas de pressionar legisladores estaduais e autoridades eleitorais estaduais republicanas –que têm maior poder de influenciar a declaração do vencedor formal e de alocar os votos do Colégio Eleitoral— a negar a vitória do presidente eleito Joe Biden.

A maioria deles vem resistindo à pressão. Mas, em um sinal de como Trump continua a interferir no processo, nesta quinta-feira (10) ele vai receber vários procuradores-gerais estaduais republicanos na Casa Branca, segundo duas pessoas que estão informados sobre os planos.

A ação movida por Paxton alega que irregularidades no voto na Geórgia, em Michigan, na Pensilvânia e em Wisconsin devem ser investigadas pelas legislaturas estaduais antes de esses estados certificarem formalmente Joe Biden como vencedor, na próxima segunda-feira (14).

Depois que Paxton registrou a ação, procuradores-gerais republicanos de todo o país correram para aderir à ação, postando seu apoio nas redes sociais e fazendo declarações que ecoam a alegação dúbia feita no documento legal do Texas de que os cidadãos desse estado são prejudicados se as eleições em outros estados não são conduzidas corretamente.

Os 17 estados por trás do documento submetido à Suprema Corte representam a maioria dos 25 procuradores-gerais republicanos do país e incluem Alabama, Flórida, Kansas, Missouri, Louisiana e Dakota do Sul. Chama a atenção que os dois procuradores-gerais republicanos dos estados indecisos em que Trump perdeu, Arizona e Geórgia, não subscreveram o documento.

Especialistas jurídicos e um punhado de funcionários republicanos eleitos questionaram a seriedade da ação, destacando que estados como o Texas não têm autoridade para mover uma ação envolvendo o modo como outro estado confere seus votos no Colégio Eleitoral.

O senador John Cornyn, republicano do Texas e ex-procurador-geral do estado, pareceu perplexo com a manobra legal, que descreveu como “extraordinária” e “sem precedentes”. “Nunca vi algo como isto, então não sei o que a Suprema Corte vai fazer”, disse ele em Washington na quarta-feira.

Na Geórgia, o gabinete do procurador-geral, o republicano Chris Carr, rejeitou a ação movida por Paxton imediatamente depois de ela ser submetida. O gabinete emitiu comunicado dizendo que Paxton está “constitucionalmente, legalmente e factualmente equivocado em relação à Geórgia”.

Tradução de Clara Allain

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